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terça-feira, 28 de junho de 2022

Leitura de Férias: "A Folia do Divino" (Sarita Santos)

Outro dia passei no Restaurante Pirão D'Água, em Penha, só pra receber das mãos da autora Sarita, dois exemplares de "A Folia do Divino".

"Este é um livro sobre a Festa do Divino Espírito Santo em Penha, no Litoral Catarinense. Mas é também um livro que evidencia a intensa e profunda conexão de um folião com essa tradição secular.

O homem é Picucho Santos, cuja devoção à folia do Divino dá testemunho da fé e da dedicação que tem inspiradoa realização da festa por quase 200 anos.

Esta obra, organizada por sua filha Sarita Santos, é um dos legados do popular folião que teve a preocupação de registrar a história eos cantos, de onde surge este livro que revive, a partir das memórias deste poeta e pescador, a beleza e o fervor de uma das maiores festas religiosas de Santa Catarina." (Contra-capa do livro)

Fico feliz quando encontro autores, escritores, que rememoram e documentam em seus escritos aspectos da cultura local. O fato de anotarem, compilarem e transformarem tudo isto em pesquisa, em livros ou qualquer outro meio de conservação das anotações, permite que as vivências de uma cultura se perpetuem. E assim essas vivências não ficam apenas no imaginário popular, mas deste, ficam registrados para sempre. 

Somos o que somos porque outros nos antecederam. Viveram. Riram, choraram, brincaram e trabalharam muito. Merecem nosso respeito e merecem que suas memórias sejam registradas. Graças aos escritores, isto é possível, pois não deixam passar em branco, mas deixam 'preto no branco' oque um dia foi. Gratidão a eles. 

E gratidão especial à escritora Maria do Carmo Ramos Krieger, que me cedeu o convite para o Lançamento de livro de Sarita Santos.  


quinta-feira, 24 de junho de 2021

Penha de outrora T2E7: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau


 A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA 

Tradução e revisão Mônica Funfgelt

15/06/2021

Depois de um mês, o casamento foi celebrado. No dia anterior, a mãe de Manoel tomou banho e deixou que as crianças inspecionassem-lhe os parasitas para depois fazer o mesmo com eles. O velho Castro mantinha sua bússola em ângulo com o céu, mas nada o fazia entrar no mar para se banhar, pois afirmava que por conta disso havia contraído Beri-Beri.

Armação inteira participou da festa, até os turistas combinaram de dar ao jovem casal um presente útil, nada de copinhos de licor. O velho Castro embriagou-se tanto na festa, que começou a discursar e se deixou viver.

Os trajes de festa dos convidados pareciam um tanto inapropriados. Era aceitável que aqueles pescadores que não dispunham de um terno preto, chegassem vestindo calça de riscado e camisa e tivessem os pés descalços, agora, Pedro Ricaço que por avareza nunca foi capaz de comprar um terno decente, usar o velho uniforme de soldado do pai que havia lutado na guerra do Paraguai e que havia guardado de lembrança, comido pelas traças, com distintivos de todas as cores, isso sim era bizarro.

Manoel também não tinha nada além de um terno de riscado um pouco melhor, no entanto um daqueles veranistas compadeceu-se e emprestou-lhe um fraque preto, que não combinava muito bem com o chapéu de palha,  já que Manoel não dispunha de outro acessório mais compatível para cobrir a cabeça. Somente a noiva estava bem vestida, mesmo não usando véu nem cauda. Aliás, ela teria ficado linda em qualquer figurino.

Um padre veio de Itajaí para celebrar o casamento na igreja da Armação. Esta fora decorada lindamente com folhas de palmeiras pelos jovens. Após a cerimônia as pessoas seguiram pela praia até a casa de Pedro Ricacho onde a mesa do banquete foi posta ao ar livre. A comida estava excelente - carnes, aves, peixes, lagosta, caramujos, mexilhões e outras iguarias agradaram a todos. Havia cachaça em abundância. A comunidade fez um trabalho incrível, a maioria deles jejuou por dias para então poder se fartar.

No final foram todos para a praia. Uma gaita de boca deu o tom à festa. Também apostaram-se carreiras. Dois velhos pangarés desempenharam o papel de cavalos de corrida que foram montados sem sela por dois jovens. Mas a carreira nunca acabou, porque os dois cavaleiros, cheios de cachaça, despencaram dos nobres corredores como sacos de farinha. Então, outros tentaram, com o mesmo sucesso. No final, apostava-se naquele que cairia por último. Foi muito divertido. Finalmente, formou-se uma grande cavalgada entre os jovens, e então, tarde da noite, todos se foram com grande alegria. Por muito tempo, a linda festa de casamento, onde tudo foi tão gostoso, foi assunto de conversa dos moradores de Armação. 

Pedro Ricaço deu aos pais e irmãos de Manoel uma linda casinha. O velho Castro recebeu a supervisão das redes, que, se necessário, também tinha de consertar e deixar em boas condições de uso. Manoel tornou-se sócio do sogro e tempos depois único dono da peixaria quando Pedro Ricaço decidiu se aposentar. O infeliz Bento atormentou o pai para vender o negócio e se mudar para Joinville. Ele não queria ouvir sobre a felicidade de seu antigo inimigo.

 Lá ele aprendeu cestaria. Ele ainda consegue enxergar um pouco com um olho. O trabalho é seu consolo.

FIM

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Penha de outrora T2E6: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau

 

A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA 

Tradução e revisão Mônica Funfgelt

15/06/2021

Finalmente eles se aproximaram e olharam em volta para tentar localizar algum resquício do barco desaparecido. Eles notaram uma mancha escura, que, meio escondida atrás dos penhascos, revelou ser a forma de um ser humano. Mas atracar onde o corpo jazia era impossível. Eles evitaram as ondas e ancoraram no lado norte da ilha, o que, se não foi bom, permitiu que aportassem. Eles se esforçaram para prender o barco à raiz de uma árvore e retornaram por uns 10 minutos para ver quem era a pessoa e se ainda poderia receber ajuda.

Era Pedro Ricaço. Ele ainda se movia mas, quando os pescadores tentaram levantá-lo, perceberam que o seu pé estava gravemente ferido. As ondas haviam lançado suas espumas sobre o acidentado e nada se via da embarcação e dos dois outros marinheiros. O velho Castro, que gostava de tomar uns goles, estava de posse de sua garrafa de cachaça que chamava de bússola o que, desta vez, foi realmente providencial. Pedro tomou um pouco daquele aguardente o que fez com que melhorasse e finalmente, com um pouco de  esforço, pudesse falar. “Oh, ele disse, vocês são meus salva-vidas, sim, eu não teria acreditado nisso, tenho muito que lhes compensar!” “Não se aborreça caro Pedro, é melhor contar como tudo aconteceu e onde estão seus dois companheiros”, falou  Manoel.

“Devo presumir que infelizmente eles se afogaram. Fomos surpreendidos pelo vento. Uma terrível rajada virou nosso barco antes que pudéssemos pegar as velas. Primeiro, segurei-o com meus dois camaradas, mas apenas por um curto período de tempo, quando uma onda me separou do barco e dos meus companheiros. A princípio tentei nadar, mas não sabia para onde ir, não conseguia ver nada da terra, então me joguei de costas e me deixei flutuar. É um milagre nenhum tubarão ter me visto. Quanto tempo eu estive vagando, seja por horas ou apenas minutos, não sei. Eu lutei desesperadamente e estava prestes a parar de me mover quando ouvi o rugido das ondas nas proximidades. Fui pego por elas e arrastado para a ilha rochosa e assim devo ter quebrado meu pé.

Com um esforço desesperado, levantei-me um pouco para que a maré não pudesse mais me atingir, e então minhas forças chegaram ao fim. Devo ter desmaiado há muito tempo porque não sei muito sobre a noite. Meu corpo dói como se estivesse todo quebrado”.

Observou-se então ao redor como se poderia trazer Pedro para a terra firme. Não seria pela Armação. O vento novamente soprava mais forte e era impossível cruzar contra o vento com aquele barco pequeno. Mesmo se alguém realmente quisesse ousar, demoraria muito e nas condições em que se encontrava a vítima, ele não iria aguentar. Então Manoel deu um pulo. “Tive uma ideia”. Logo foi até até o barco, aproximou-se da vela e escalou até o topo da ilha. Aí ele acenou e balançou a vela em direção à Penha por um tempo até que do outro lado também acenaram. Se ao menos eles entenderam o que eu quis dizer, pensou Manoel, e desceu da colina para se juntar aos outros a quem ele se reportou.

Na Penha um barco havia desencalhado. Depois de uma hora, estava na ilha. Pedro Ricaço foi carregado até o barco em uma maca feita de galhos e cipós. Dali, as duas embarcações atravessaram para a Penha. Uma vez lá, um mensageiro foi enviado para a família porque o homem ferido não resistiria ser transportado até em casa. Um pescador com conhecimento médico aplicou no pé o curativo de emergência.

A esposa e a filha vieram imediatamente. A alegria delas ao verem aquele que se acreditava estar perdido foi grande. Depois de um dia de descanso, Pedro foi levado cuidadosamente para casa, onde o médico, a quem naquele meio tempo haviam chamado, esperava para tratar do hematoma e das feridas. A cura prosseguiu normalmente. Mas enquanto ainda estava doente, Pedro Ricaço mandou buscar Manoel e disse-lhe que ele era um sujeito e tanto com o coração no lugar certo e que se quisesse ser seu genro certamente não faria nenhuma objeção.

Manoel ficou tão surpreso com a mudança de humor de Pedro que só conseguiu gaguejar seu agradecimento, enquanto Acaricia se jogava no pescoço dos pais e ria e chorava alternadamente. “Então,” disse Pedro, “apenas discuta todo o resto com sua mãe. Eu quero ter minha paz agora. Mocinha, você está realmente eufórica!”

continua...

terça-feira, 22 de junho de 2021

Penha de outrora T2E5: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau

 

A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA 

Tradução e revisão Mônica Funfgelt

15/06/2021

Passado um mês Manoel já conseguia andar com a ajuda de uma bengala. Após 14 dias o pai de Bento o levou ao médico, já que estava enxergando muito pouco com aquele olho machucado. O clínico fez um exame minucioso e chegou a conclusão que também com aquele olho, que teve ferimentos leves, não havia mais muito o que fazer, ainda assim não quis lhe tirar totalmente as esperanças e recomendou a Bento que tivesse paciência, que talvez, com o tempo, houvesse alguma melhora. No entanto Bento já havia percebido, pela expressão de seriedade do médico, que ele iria ficar completamente cego.

E após chegar em casa, com seu espírito destroçado, ele confessou a tentativa de assassinato, solicitando que fosse levado logo à prisão porque à essa altura tanto fazia se estivesse lá ou em qualquer outro lugar. Álvaro Ribeiro, porém, sugeriu que tudo fosse tratado como um acidente com o que, de pronto, Manoel também concordara o que evitou gritarias e maiores confusões.

“Para você ver” disse dona Elvira ao marido, “é uma dádiva de Deus, Ele não quer que a nossa Acaricia se case com Bento”. “Bem”, respondeu Pedro, “é claro que ela não deve escolher o caolho, mas se ela acha que vai conseguir ficar com o Manoel agora, está muito enganada”. “Dona Elvira comentou isso com a filha e ela, que já tinha renovado suas esperanças, voltou a ficar deprimida.

Uma grande euforia reinava entre os pescadores da Armação. Nas suas redes havia uma  quantidade de pequenos tubarões-martelo, corvinas, pescadas, robalos, bagres, arraias e, nas linhas de pesca, cinco grandes tubarões foram capturados. Esse tubarões, chamados de Cações, precisam primeiramente, antes de tirar-lhes os anzois, ser mortos a pauladas, pois é impossível trazê-los até a canoa. Eles são tão grandes e pesados que parecem porcos obesos.

Exceto pelo esqueleto, a carne não tem espinhos, não tem gosto ruim, mas parece não ser saudável se você viver exclusivamente dela. Você retira a pele do tubarão e depois seca a carne. Do fígado extrai-se o óleo. Este tipo de tubarão dá à luz filhotes vivos. Para os pescadores, a rica captura significa um aumento nos seus ganhos. Não era de se admirar que à noite todos quisessem colocar novas redes e varas de pesca. Navega-se um bom trecho mar adentro, pois os tubarões amam águas mais profundas, um hábito que só pode mesmo ser agradável para os veranistas.

Também Pedro Ricaço teve de ir, já que havia pouco pessoal para ajudar e Manoel lhe fazia falta. Ao anoitecer tudo começou e esperava-se que em breve todos retornariam. Manoel havia recebido ofertas de alguns pescadores para acompanhá-los, mas teve que recusar porque seu ferimento na perna ainda não estava completamente curado. Uma fogueira era mantida na praia para que, se os pescadores fossem surpreendidos pela escuridão, eles pudessem encontrar o caminho de volta.

Subitamente formou-se uma grande ventania. A inquietação tomou conta do lugar. Os homens, as mulheres e as crianças estavam na praia e comentavam o assunto. Permaneceu-se noite adentro, que estava escura como breu. O vento transformou-se em uma tempestade e nenhum barco voltara. Por fim, aqueles que esperavam rumaram de corações partidos para suas casas. Naquela noite, com exceção dos jovens, nenhum outro ser humano conseguiu fechar os olhos.

Bem cedo, ao raiar do dia, a praia estava novamente lotada. Nenhum barco havia aportado. Pessoas choravam e gesticulavam. Por volta do meio dia o telegrafista da Penha trouxe um telegrama endereçado à Alvaro Ribeiro, que dizia que quatro barcos haviam chegado ao porto de São Francisco e seus proprietários tinham sido mencionados. As famílias envolvidas ficaram muito felizes. Só dona Elvira e a filha estavam desesperadas na praia, o telegrama nada dizia sobre Pedro Ricaço. Manoel consolou-as, dizendo que o pai estaria em algum lugar a salvo. Mas seu consolo não funcionou, porque nem mesmo ele realmente acreditava naquela possibilidade.

A tempestade estava acalmando. Manoel não aguentava mais ver o sofrimento daquelas mulheres e disse que iria, pelo menos uma vez com seu pequeno barco a vela, navegar até a Ilha do Diabo, que estava a uma distância de, talvez, umas duas milhas entre Armação e Penha. “Queres que eu também perca você, Manoel?”, protestou Acaricia.

Mas a mãe convencera o jovem. Ele se despediu delas e empurrou sua canoa para a margem. Seu pai, o velho Castro, insistia em ir junto. “Mesmo que eu não consiga remar muito, estarei no comando, apenas me leve com você, meu filho”.

Com esforço a arrebentação fora vencida e debaixo de forte balançar as velas foram içadas. A maré ainda estava bastante alta. Assim, aquela pequena casca de noz voou em direção à Ilha do Diabo. Esta surgia e exibia uma gruta com formações rochosas como estalactites algumas das quais, infelizmente, haviam sido arrancadas por ganância ou ignorância.

continua...

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Penha de outrora T2E4: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau

 

A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA 

Tradução e revisão Mônica Funfgelt

15/06/2021

Até então, Manoel auxiliara Pedro Ricacho na puxada de rede. Após o incidente na hospedaria da Penha, Pedro mandou dizer-lhe que não precisava mais dos seus préstimos. Isso fora deveras desalentador para os enamorados, mas não havia mais o que fazer. Desta forma, Manoel passou a pescar sozinho, mas sem rede lograva pouco êxito, além de não receber o bastante para continuar sustentando seus pais e irmãos.

O velho Castro procurava trabalho entre os veranistas que povoavam a Armação nesta época do ano. Ele fazia aquilo muito a contragosto. Quando conseguia algo, mal ganhava o magro salário de 2 Milréis. No entanto as pessoas tinham compaixão e lhe davam algumas coisas, sim, ele recebia as sobras das refeições, pão e outros alimentos os quais ele levava para a família.

Manoel fora até a Praia Brava com o caniço, a vara de bambu com arame em vez de barbante, para pegar Garoupa. A Praia Brava é constituída por um conjunto de rochas musgosas de arestas cortantes nas quais as ondas arrebentam, formando espuma e redemoinhos. É ali que esses peixes preferem ficar. Claro, é preciso habilidade e força para cansar um vilão tão rebelde depois que ele é fisgado e o trazer para a praia. A Garoupa pesa até 20 quilos e é um dos peixes mais saborosos que há.

Manoel estava em pé sobre uma daquelas pedras irregulares e escorregadias. Sentira algumas fisgadas mas nenhuma mordida. Em seguida notara mais uma fisgada e rapidamente arrancou a vara de pescar da água, então recebeu um empurrão e, não conseguindo mais se segurar na rocha lisa, caiu de cabeça no redemoinho. Ele ouviu um grito terrível e então o turbilhão de ondas o atingiu.

Manoel havia sido jogado em um caldeirão do qual não conseguiria mais escapar sozinho, sem ajuda externa. Seu corpo fora jogado contra as rochas afiadas pela rebentação, que subia e enchia novamente. Quando a onda recuou, ele clareou a cabeça por um momento e conseguiu respirar mas, imediatamente depois, a água mais uma vez trovejou sobre ele. Achando que tudo estaria perdido, quando a água tornou a ficar mais rasa, uma vara de pescar lhe fora alcançada, na qual se agarrou mecanicamente. Um homem estava na rocha segurando a vara. Então a maré voltou. Manoel ficara submerso por pouco tempo e emergira. “Segure-se”, gritou o salvador. “Agora, rápido, me dê sua mão, mas não solte a vara!” Com mais um forte puxão Manoel estava a  salvo. Já não era sem tempo. Mal alcançou a rocha, desabou exausto e sangrando profusamente.

O que havia acontecido? Deixei que o pescador Ignacio contasse. Assim ele relatou:

 “Eu estava em pé sobre uma rocha não muito longe do local do acidente, mas não vi ninguém e não sabia que mais alguém pescava por perto. Eu estava prestes a montar uma armadilha para peixes, depois de ter cortado uns gravetos, quando ouvi um grito que abafou até mesmo as ondas mais barulhentas. Este grito fora tão agudo e forte que permaneceu ecoando em mim. Com o meu caniço na mão, corri ao local, e lá vi uma pessoa deitada na pedra, contorcendo-se como se tivesse cãibras. Ao mesmo tempo, a cabeça e o braço de outra pessoa emergiam do redemoinho, mas imediatamente eram novamente engolidos pela maré. Com a ajuda da minha vara de pescar, salvei o homem quase afogado quando a água baixou. Só depois disso me dei conta de cuidar do outro. Então eu vi algo terrível. Bento estava sentado ali e lutava para tirar um anzol do olho, o que é claro que não conseguira. Ele logo desistiu e gritou que eu deveria ajudá-lo. Busquei água para verificar o quão fundo estava aquele anzol, limpei-lhe o sangue e vi que nada poderia ser feito sem ajuda médica, Bento obviamente estava com dores terríveis. ”

Ainda conforme Ignacio.

Naquele momento chamaram Álvaro Ribeiro um velho calmo e simpático que há 30 anos reside na Armação, que tinha poder de polícia e era também o chefe político. Todos suspeitavam que por ali algo estaria errado porque era sabido que os dois feridos eram inimigos ferrenhos. Álvaro Ribeiro mandou levá-los para o primeiro abrigo, depois buscaria um médico que só poderia vir de Itajaí à noite e, ainda,  tinha de avisar os pais dos dois.

 

Bento gritava por ajuda. Ele não suportava mais aquelas dores terríveis. Queria um revólver para dar cabo de sua vida e, embora ele soubesse que seu desejo jamais seria atendido por ningém, ele então pediu cachaça, para anestesiar-se. A bebida foi-lhe entregue, afinal de contas algo tinha de ser feito.

 

Seu pai estava muito desesperado e queria saber como havia acontecido o acidente, mas Bento não dava informações suficientes. Finalmente, depois de muitas horas, o médico veio a cavalo. Sabendo o que era, levava consigo cocaína e morfina. Ele examinou, lavou, anestesiou o olho ferido e extraiu o anzol. O outro olho também estava ligeiramente arranhado, mas o médico ainda não era capaz de dizer se a visão havia sofrido algum dano. O olho cortado sumiu, é claro. Desta feita deu a Bento um pouco de morfina em pó, arrumou algumas compressas e se dirigiu a Manoel. Lavou suas feridas, enfaixou os piores ferimentos e se retirou.

continua...

sábado, 19 de junho de 2021

Penha de outrora T2E3: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau

A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA 

Tradução e revisão Mônica Funfgelt

15/06/2021 

Penha é uma localidade distante aproximadamente a uma hora de Armação. Lá também existe uma catedral barroca antiga, de estilo jesuíta, que deve ter a mesma idade daquela da Armação. Nas proximidades da igreja tem uma hospedaria que, além de café e cachaça, não tem muito a oferecer. Se você perguntar sobre pão, manteiga, queijo, leite, salsicha, ovos, cerveja, vinho, você obterá a resposta estereotipada “não tem”, não há nada lá. A cachaça é deplorável, recém destilada da cana-de-açúcar contendo muito álcool. A única vantagem dali é que por pouco dinheiro pode-se tomar um porre memorável.

Era dia de ano novo. Como as igrejas da Penha e da Armação não têm clero próprio, um padre de Itajaí vem pregar e realizar outras ordenanças sagradas nas festas da igreja, como Reveillon, Páscoa, Pentecostes e Natal. Quando não aparecia nenhum padre em Armação e os fiéis ficassem sabendo que na Penha havia missa, uma parte dos moradores, particularmente os jovens, iam até a igreja vizinha. E hoje não foi diferente.

A missa havia terminado, os mais velhos voltavam para suas casas  mas os jovens ainda queriam aproveitar um pouco da diversão noturna e foram até a hospedaria. Bento e Manoel também estavam lá. Acaricia e a mãe haviam ido visitar uma comadre. Alguns dias antes, Bento e o pai estiveram na casa dos pais de Acaricia para conversar sobre os planos para o enlace. Também a filha tinha sido chamada para firmar a questão.

Para desgosto de Pedro Ricaço, a filha lhe explicou que nunca iria ficar com Bento, que preferia se afogar e se afastou aos prantos. O pai ficou furioso e falou aos dois para que eles tivessem ainda um pouco mais de paciência e que depois de algum tempo iria retomar a promessa.

Bento notara que Acaricia trazia um outro amor no coração e por pouco não externou que Manoel era o felizardo. Então focou nele todo o ódio de sua alma miserável. E já que não era dotado de um corpo avantajado ele comprava amigos pagando em bebida. E hoje não foi diferente.

Bento pediu uma rodada de cachaça. Manoel estava sentado sozinho em um canto olhando  tristemente para a frente afinal, depois da missa, Acaricia havia lhe sussurrado o que estava acontecendo na casa dos pais dela.

“Que viva tudo o que nós amamos”, gritava Bento levantando o copo. Garçom, mais uma rodada!”  “E tu Bento, não queres oferecer um brinde ao Manoel?” sussurrou um dos jovens. “O quê” gritou ele, “o mendigo que beba água”, lançando um olhar de desprezo para Manoel. “Você se refere a mim?” interpelou o outro. “Se a carapuça serviu”, gritou  Bento contando com o apoio dos camaradas. “E isso não tem a menor graça”  voltando-se à plateia, “este patife só quer roubar a minha noiva, a bela Acaricia”.

Mas, mal essas palavras escaparam de sua boca desdentada, Manoel deu um pulo, jogou Bento no chão e, com um soco terrível, abriu caminho por entre os amigos surpresos saindo apressado.

Já se podia ver as facas tilintando. Um negro que estava a serviço do pai de Bento correu atrás dele para esfaquear Manoel, mas este já havia arrancado um porrete da carroça de bois que estava na lateral da pousada e esperava seu atacante, que então se contentou em lhe dar uma bronca ameaçando e prometendo a Manoel, que em breve faria um buraco no corpo para que o sol pudesse passar. Assim, Manoel criara em Bento um inimigo contra o qual tinha de se precaver.

À noite os enamorados se encontraram no bosque perto das bananeiras atrás da casa de Pedro Ricaço. “Meu amado”, disse a jovem, “o que será de nós? Não estou perdendo a esperança, mas quantas lutas terei que suportar! Oh, aquele Bento inútil! Meu pai te considera um arruaceiro,  e é evidente que o assunto foi mal interpretado por ele.”

“Fique calma, meu anjo, ainda espero por uma feliz coincidência que quebre a mente rígida de seu pai.”

“Oxalá que essa tua esperança fosse verdadeira, querido Manoel”, sussurrou Acaricia.  “Sobretudo prometa-me nunca sair desacompanhado à noite e também de dia fique atento, pois Bento está planejando vingança”.

Manoel prometeu: “ Ele que venha, se lhe coça o pelo”. Nas proximidades alguma coisa se movimentou e então, após um beijo furtivo, os enamorados se apressaram em seguir em direções opostas.

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sexta-feira, 18 de junho de 2021

Penha de outrora T2E2: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau


A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA 

Tradução e revisão Mônica Funfgelt

15/06/2021

Este (Manoel), um belo rapaz de 24 anos, forte e saudável, não comentava nada sobre sua própria cabana construída de paus de palmito e paredes preenchidas com barro. O chão era de terra crua. Algumas esteiras e tapetes de palha, serviam de assoalho. A fumaça percorrera o casebre e pintara tudo de preto. Uma mesa frágil e um banco velho era o que havia de mobília.

Além de Manoel, o mais velho, via-se ainda uma infinidade de crianças cujo número sequer os pais saberiam precisar. Os menores andavam totalmente nus enquanto que as meninas um pouco mais velhas vestiam apenas alguns trapos com mais furos do que propriamente tecido. É preciso admirar a destreza com que tal peça de roupa podia ser usada sem cair do corpo.

O pai, uma criaturinha miúda e raquítica, era tão preguiçoso e fraco que muito pouco contribuía para o sustento da família. A mãe era descuidada e suja. Seus cabelos aparentavam nunca terem sido penteados e o coçar constante sugeria, ainda, que havia outras coisas.

Somente Manoel era asseado e banhava-se frequentemente, ao contrário de sua família que nem até o mar ia, embora este, estivesse a uma distância de menos de trinta passos do casebre. Suas vestes eram compostas apenas de camisa e calça, no entanto não eram esburacadas nem tampouco havia remendos. Era admirável que o rapaz, que fora criado naquele ambiente, não aparentava aquele desleixo. A única razão deveria ser mesmo a sua paixão por Acaricia. Ele via o quão encantadora ela era, em suas vestes simples, e não queria sobressair-se.

Pedro Ricaço de nada sabia sobre o namorico da sua filha com Manoel, até que um dia desses a mãe de Acaricia, Dona Elvira, lhe abriu os olhos, “bobagem” retrucou ele, “ como você pode pensar que aquilo um dia daria em alguma coisa, o mendigo Manoel e Acaricia. Há de ser convir que ele é um belo rapaz, porém meu genro é diferente”.

“Então”, ponderou a esposa, “quer dizer que você já tem um candidato?”

“Decerto que sim”! Pois você conhece o vendeiro Hypólito, de Gravatá. Ele tem um filho, Bento. Dia desses, quando aportei lá, naquela minha viagem para Itajaí, o pai fez algumas insinuações de que estava querendo se aposentar e se ausentar por mais tempo das suas lavouras de café e deixar o seu negócio a cargo do filho. Por conta disso, o rapaz precisaria urgentemente ser casado. O pai ainda reforçou que um dia desses gostaria de nos fazer uma visita.

“Mas marido”, vociferou a esposa, você não está pensando em entregar a nossa linda menina para o Bento, está? O caipira corcunda e acanhado que engana os fregueses, para quem nada é sagrado, que nunca se confessa e ainda fala mal de todos! Esqueceu-se de como ele se portou no funeral do falecido Antônio, quando lutou capoeira no meio dos enlutados e, quando chegou no cemitério e  jogou futebol com uma das caveiras caídas que então lançou em direção à cabeça de um menino fazendo-o chorar alto. Toda a cerimônia fora tumultuada e faltou pouco para ele que ele levasse uma bela surra. Somente a consideração pelos mortos impediu as pessoas de fazê-lo.

“O que”, retrucou Pedro, “isso é arrogância juvenil, Acaricia vai mudar isso quando ele for o marido dela. Pense, a herança de Hypólito está estimada em cinco contos, além do mais  Bento é seu único filho e a mãe já é falecida há 10 anos”.

“Sim”, disse Dona Elvira, “pois ele vive com a empregada doméstica com quem tem outros quatro filhos”. “Mulher tola, eles nem herdarão nada! Veja bem, nossa filha tirará a sorte grande com este casamento”.

“Ah”. “Ah”, suspirou dona Elvira, “não me parece bem isso. Além disso, a Acaricia também deve ser questionada ”.

“Era só o que faltava”. Ela que fique feliz se nós arranjarmos um bom casamento. A mulher silenciou.

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terça-feira, 18 de maio de 2021

Penha de outrora T2E1: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote" de Blumenau

 A linda ACARICIA, da Armação.

UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA


Tradução livre do jornal 'Der Urwadsbote', de Blumenau 18 de abril de 1922, 
com ajuda de dicionários e da internet, por Aloisius Carlos Lauth. Blumenau, 25/04/2021

A três horas de viagem do porto de Itajaí, encontra-se a enseada de Itapocoroy, que oferece abrigo aos navios durante as tempestades do mar. A bela Armação de Itapocoroy, é um balneário popular de veranistas que brincam despreocupados nas águas do mar. O vilarejo é muito antigo, a pequena igrejinha de São João Batista surgiu antes da de Itajaí. No passado, Armação foi uma estação de baleeiros portugueses [o autor escreve holandeses] que fabricava uma espécie de bacon de baleia para cozinhar alimentos. Hoje ainda você pode ver os restos das instalações, como a casa grande na qual o óleo era derretido e depois armazenado em barris de madeira. Algumas panelas enormes de ferro, redondas, estão 'enterradas' na areia da praia. A Casa Grande, cujas ruínas foram vistas até 1918, servia de casa para os portugueses [ele insiste em holandeses]. As vértebras e as costelas de baleias foram preservadas até agora, parcialmente desgastadas. Elas serviam de poltrona para os moradores, enquanto que os ossos de costela serviam de arranjo para o caramanchão, que dá uma impressão bonita e original.

Os habitantes da Armação são, em geral, pescadores pobres que vivem de forma singela. Você pode vê-los pescando com tarrafas, as redes de lançamento, a qualquer hora do dia ou da noite. Já os encontrei com águas até os quadris nas noites de luar no inverno, bastante frio, tentando ganhar a comida [ração] para o dia seguinte. É incrível como essas pessoas podem aguentar uma jornada da pescaria. São muito despretensiosos. Peixe, e peixe sempre, seco ou fresco, é a comida, mais a farinha de mandioca, café com bastante açúcar, banana e laranja. Às vezes, tem carne bovino nos dias festivos, quando a população de compradores se reúne para abater uma cabeça de gado. É ruim o ganha pão para a família quando o pescador morre. Herdam grande miséria porque a maioria das famílias é ricamente abençoada de filhos e, então, vão depender da sorte dos vizinhos que já não tem o suficiente para si próprios. Essa desnutrição resulta em doenças. Além disso, a doença de vermes é comum em toda a costa litoral.

Um desses pescadores era rico para os padrões populares. Era chamado de Pedro Rico, ou Pedro Ricaço. Dificilmente ele conseguiria muito dinheiro assim. Tinha uma boa propriedade, um lote de terras, de posse do governo da qual era ocupante de longa data, e de lá não poderia ser expulso, vários barcos grandes e pequenos, muitas canoas e as redes grandes de arrasto e de espera de peixe. Em geral, ele não comentava isso aos pescadores pobres que não podiam comprar uma daquelas tão cara, no valor da metade da venda do peixe capturado. Em junho, na temporada da tainha, milhares desses peixes eram pescados e os pescadores eram obrigados a pedir sua ajuda em troca de uma porcentagem de venda. Os peixes eram vendidos em peças, e depois defumados nas cidades vizinhas. Além disso, Pedro Ricaço tinha outro tesouro, que não podia ser avaliado em dinheiro, a sua linda filha Acaricia! Ela tinha 18 anos de idade, olhos feitos cerejas, cabelos cacheados escuros, tez levemente acastanhada, uma boca adorável e esguia, muito parecida com o cervo brasileiro, a moça linda! Em resumo, uma beleza que se destacava entre os brancos do litoral, quase todos afetados por vermes de Mal da Terra. Certamente, ela foi galanteada  pelos jovens da praia, mas seu coração já tinha escolhido um, e como muito acontece, por um dos mais pobres: o pescador Manoel Castro!

Agradecimento especial à escritora e professora Maria do Carmo R. Krieger, 

por ter me direcionado a este texto.

Foto: Capela de São João Batista, Armação do Itapocoroy, Penha-SC. 

Crédito foto: Lincoln Cirpiano, 2013. 

sábado, 24 de abril de 2021

Rio Negrinho: Monumento ao Colonizador


Na data de hoje são comemorados os 141 anos de Rio Negrinho, cuja colonização é polonesa. Parabéns Rio Negrinho!!! Em homenagem, transcrevo trechos da escritora e amiga Dolores Maria Vellasques para esta data, rememorando o Monumento ao Colonizador:

"Primeiro local de orações em Rio Negrinho.

Neste exato lugar, se reuniram os primeiros habitantes de São Pedro, hoje Colônia Olsen, mais ou menos em 1904, levantaram uma cruz de madeira, e aos sues pés rezaram o primeiro terço comunitário, com muita fé, devoção e amor.

Por isto, ao passar por ali, lembre deste monumento único, tire o chapéu, suba a escadaria, chegue mais pertinho do céu e, aos pés da cruz, em silêncio reze e você escutará as orações daquele dia, irá rever a cena magnífica daquele primeiro monumento, em que muitos corações se elevaram para o infinito, e clamaram bençãos, proteção, segurança, saúde e muito mais. Talvez rolaram lágrimas de saudades, pois de onde um dia vieram, havia igrejas, missas, etc.


No final das orações compartilhavam suas dificuldades, seus sucessos e projetavam a construção da Igreja, da Escola, o que tudo realizaram.

Aqueles tempos, era apenas uma picada, por onde passavam as tropas de mulas, que não demorou muito, virou uma estrada estreita, curvas, morros, barro nos dias de chuva, mas era uma estrada abençoada, pois por ali já passavam os carroceiros, carregados de madeira, erva-mate, que logo mais abaixo, encontravam a então Estrada Imperial Princesa Dona Francisca, ainda de terra e seguiam em direção a Joinville, onde vendiam suas cargas, carregavam retorno como: café, sal , açúcar, tecidos, etc.

Mais tarde, muito mais tarde, já em 1980, um filho desta terra, o sr José Kormann, um dos netos destes pioneiros,  com o lucro da venda do seu livro 'Rio Negrinho que conheci', construiu este Monumento ao Colonizador, que relembra todos os acontecimentos passados, com um muro de arrimo, com figuras e uma poesia de sua composição.

Este monumento foi inaugurado em 24/04/1980. Era Prefeito nesta ocasião o sr Paulo Beckert, Governador Jorge Bornhausen, deputados, entre eles Genesio Tureck, que nasceu aí na Colônia. O vereador Oscar Correa Vellasques, com sua esposa (eu, Dolores Maria Vellasques) dentre outros."

A escritora Dolores Maria Vellasques e eu, Ellen Crista da Silva



quinta-feira, 22 de abril de 2021

Penha de outrora T1E7: Festa do Divino - uma tradição presente

 

Quaresma, Páscoa... tradições e religiões... estamos na época da Festa do Divino, uma festa tradicional em Penha, desde os primórdios, segundo o livro "Penha: Relicário do Divino", da escritora Maria do Carmo R. Krieger e do qual extraio alguns pequenos trechos:

(...) Provocando o imaginário, surge a pergunta: como era Penha antigamente?

(...) O lugar Itapocorói ocupava destaque na região; tornar-se-ia conhecido de tantos quantos navegavam pela região, haja vista ter sido parada obrigatória para abastecimento entre São Francisco do Sul e a Ilha de Santa Catarina, no litoral catarinense.   (Foto ao lado:Eduardo Bajara de Souza - Penha)

Localizado numa enseada, Itapocorói, foi ocupado no início de 1777 por portugueses açorianos e teve ao seu nome acrescentado Armação, pois abrigou as sedes administrativas e industriais de processamento das baleias caçadas na região, transformando-se em Armação de Itapocorói.

(...) Visconde de TAUNAY (1926:69) escreveu sobre os panoramas marítimos estupendos e inesquecíveis que encontrou durante suas viagens por Santa Catarina, quando anotou que “tive o ensejo de realizar algumas das mais lindas viagens de minha vida” (1880 e 1885), ao passar no litoral de Penha:

“De um então guardo a mais violenta impressão, o da ponta de Itapocoroy, junto à velha armação para pesca da baleia, de que há restos ainda. Tentei descrevel-o nos meus Ceos e Terras do Brasil, mas quando releio as minha páginas e comparo o que disse ao que vi, vem-me o sentimento da pequenez humana ante a grandiosidade divina. Que painel aquelle! Quanta magnificência, serenidade e amplidão naquelles aspectos do Oceano bravio, a açoutar os penhascos da Ponta Negra e da Vigia?”

(...) Que tipo de gente veio para Penha, legando-nos o “jeito de ser açorian” ?

O português açoriano era criativo.  Em Santa Catarina, aprendeu com os últimos carijós, índios que habitavam a região, o uso da mandioca, desenvolvendo engenhos que produziam farinha. Típico acompanhamento de pratos à base de peixes, a farinha de mandioca transformada em pirão é receita tradicional do litoral catarinense e não pode faltar na mesa do pescador artesanal, nas dos restaurantes e, mesmo, nas residências de não pescadores.

Esse português, muito religioso, era também de origem humilde (...) Apegou-se à religião católica como maneira de sobrevivência, transformando-a na Fé em louvor ao Divino Espírito Santo com tamanho fervor que as nove ilhas açorianas também são conhecidas como as Ilhas do Espírito Santo.

(...) Era apreciador da cultura e do lazer, com paixão pelo próprio jeito de ser açoriano, descobrindo também no trabalho com conchas e escamas de peixe um artesanato incomum.

(...) A festa do Divino Espírito Santo teve origem em Portugal, quando a rainha Dona Isabel (1271-1336), casada com o Rei Dom Diniz, propagou a devoção ao Espírito Santo no país. (...) a rainha Isabel coroava um “Imperador”, que tomava o lugar do Rei, ocasião em que ela servia um banquete aos pobres e distribuía esmolas. Com tais gestos de caridade é fácil entender porque a cerimônia tornou-se peculiar entre pessoas carentes de Portugal.

(...) De Portugal, a Festa do Divino chegou às Ilhas dos Açores, através dos freis franciscanos e seus conventos, fortalecendo-se como tradição.

(...) Em Penha, porém, a Festa do Divino resulta num universo único, em que o espaço geográfico


abrigou e abriga atividades ligadas à tradição do evento, consolidando um forte sentimento de religiosidade. Fidelidade às origens, constância na espiritualidade, uma religião para exprimir a fé como dogma e crença na Santíssima Trindade são modelos do cristianismo presente na memória de um povo que cultua, além da função religiosa, um encontro social e o compromisso de celebrar tradições.

(...) Qual a função do Imperador?

É o Imperador quem administra toda a organização da Festa, auxiliado por súditos que o acompanharão durante todo o tempo do Império – período que dura um ano: desde a tarde de domingo quando é aclamado no cargo, até a segunda-feira, Oitava do Divino, do ano seguinte...

(Fonte: Krieger, Maria do Carmo Ramos, Penha: Relicário do Divino, 1ª Ed, Oficina Birô de Criação, 2018)

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Anotações de uma imigrante polonesa - Na Zdrowie!


 No texto de Maria do Carmo R. Krieger, publicado no periódico TAK, há anotações sobre o Natal então recém vivido pela autora das anotações, no Brasil:

"Anotações de uma imigrante polonesa Esse é um ensaio literário a partir de situações concretas, vividas pelos primeiros imigrantes poloneses, baseadas em fatos reais. Com dados obtidos a partir de documentos oficiais da Colônia Príncipe Dom Pedro (Arquivos da Sociedade Amigos de Brusque/SAB), escrevi como se fossem anotações de um diário, pontuando memórias e fatos.

1869, agosto, 25 Para mim, poderia ser janeiro. Ano novo vida nova. Não é no Ano Novo que a gente faz promessas, repensa a vida, quer começar tudo diferente? Pois aqui estou, nessa terra chamada Brasil! O que me aguarda? Nenhuma surpresa será maior que a da chegada ao porto de Itajahy, no litoral catarinense: baús, trouxas e todo um carregamento de teres e haveres espalhados, à espera de seus donos. Na bagagem eu trazia uma imensa saudade da Polônia, explicada por aquele aperto no coração, pelas lágrimas, pela distância da pátria-mãe que, afinal, não havia sido nada gentil comigo, a ponto de me fazer emigrante. Da tralha recolhida no porto e levada para as carroças, a constatação de que algumas louças haviam se transformado em cacos: pratos, xícaras sem alças, aquela travessa de servir pierógui, lascada. Descobri, mais tarde, que as xícaras não fariam falta: nas canecas, mais robustas, o café, bebida quente à base de grãos, teria outro sabor.

Setembro, 10 Verde que te quero verde! Olho à minha volta e é o que vejo. Fomos assentados em lotes de terras numa encosta de morro: o relevo faz toda a diferença. Como trabalhar a terra? O lugar chama-se Colônia Príncipe Dom Pedro, na Província de Santa Catharina, Sul do Brasil. O sistema de governo é Imperial, na pessoa de D. Pedro II, mas o território pertence a Portugal. Fica no Hemisfério Sul e estamos agora quase na primavera. Flores são poucas. Só as que os colonos alemães, da vizinha Colônia Itajahy, a 9 km, insistem em cultivar.

Setembro, 30 Finalmente uma oportunidade de trabalho. Os homens receberam pá, enxada, foice – ferramentas tão úteis quanto necessárias para lidar na floresta abrindo clareiras, construindo choupanas. Nas paredes dos lares, imagens de Nossa Senhora de Częstochowa, símbolo da religiosidade de nosso povo; ela olha por todos e estende suas bênçãos a nós, filhas/ filhos distantes. Assim, unidos em oração, fortalecemos nossas esperanças.

 Outubro, 15 Esperanças? De que e para que servem? Às vezes pergunto-me isso e vejo o rio Itajahy-Mirim passar, levando, com as cheias, os sonhos de uma plantação prestes a ser colhida. O Governo Imperial prometeu ajuda, a qual chegou em forma de víveres e alimentos, retirados no Armazém da Colônia Itajahy, mediante cupons de assistência emergencial. A manutenção governamental será até o próximo plantio.

Novembro, 2 Dia de Finados. Dia de lembrar os mortos. Nosso cemitério já recebeu algumas crianças polonesas, falecidas recentemente. Chamam o local de Cemitério dos Polacos e uma cruz de pedra, pequena e de mármore branco, sinaliza nossos sentimentos mais tristes.

Novembro, 18 Estou bem de saúde. O trabalho de abertura nas estradas envolve os homens, permitindo uma ajuda mensal e garantindo o sustento das famílias. As mulheres, como eu, fazem o serviço doméstico e cuidam das hortas. Além de costurarem, fazem pequenos remendos, cuidam das crianças e preparam as refeições. Conhecemos o aipim, uma rama que fornece alimentação forte. Descasca- -se, cozinha-se em água e sal. Substitui bem a batata, nosso alimento principal. Com aipim dá para fazer pão, bolo. Triturado, transforma-se em farinha de mandioca, com a qual se preparam outras receitas. Inclusive, quando a farinha é adicionada ao leite, engrossa e torna-se um delicioso mingau para as crianças.

Dezembro, 25 Natal. Na falta de vodca, ideal para países de clima frio, ergueu-se um brinde com uma bebida local, chamada cachaça. Extraída da cana-de-açúcar (que também fornece o açúcar), é uma aguardente tão forte quanto vodca e igualmente saborosa. Na zdrowie! Para lembrar o Pierniki (pão de mel típico do Natal polonês), improvisei o bolo com casca de laranja, fruta seca ao sol de dezembro, substituindo o damasco, da receita original. E não é que deu certo? Na mesa de Natal, coloquei o motivo que torna esta data uma das mais especiais para os cristãos católicos: uma pequena imagem de Jesus Menino, que repousa sobre palha de milho. Um toco de vela ilumina o ambiente. Já o pinheiro, cortado na floresta nativa quase no quintal de casa, tem enfeites de papel recortado: os wycinanki.

1870, Fevereiro Algumas pessoas pensam em desistir, ir embora. Para onde? Nosso lugar é aqui. Há promessas do Governador da Província e do Diretor da Colônia para os homens trabalharem em estradas e picadas. O espírito de luta, fortalecido pelo suor do trabalho diário dos nossos maridos, às vezes esmorece. É tudo tão diferente, outra cultura, há costumes tão diversos e, dizem, começaram a aparecer alguns índios, os primeiros habitantes do lugar. Nossos vizinhos, os imigrantes alemães, já receberam a visita de alguns deles. Dizem que são arredios (e não era para serem? Chegamos, tomamos conta do que era seu, assumimos um espaço geográfico repleto de árvores que foram derrubadas para criarmos o nosso espaço...) não só para conversarem (imagina linguajares diferentes: polonês, alemão, guarani – dos autóctones), mas não hesitam em matar, por sentirem-se ameaçados. Notícias dão conta de que um colono foi morto a flechadas enquanto estava em sua plantação. Por isso a direção da Colônia avisou para ficarmos atentos aos ataques.

Qualquer dia de março Quase perco a noção do calendário. Marcar os dias nem sempre é interessante do ponto de vista de quem plantou e espera pela safra: hoje choveu demais, ou: a seca prolonga-se, ou: as sementes não foram entregues, ou, simplesmente os dias não passam!

Julho, 19 O desânimo quer tomar conta de mim. Como estará minha família? Não vou entregar-me. Meu país não pode ficar como um quadro na parede, cuja paisagem só reproduz a imagem que desejo voltar a ver, antes que desapareça da minha lembrança. Ah! E quando viajar à Polônia trarei mais xales, tamancos, saias rodadas e enfeitadas. Porém não sei se haverá uma viagem de volta: o Governo Imperial alega que somos imigrantes espontâneos e não oficiais, como os alemães, listados e cadastrados nas Agências de Emigração, lá na Europa. A bem da verdade, também não sei se algum imigrante alemão retornou. Acho que não. É difícil e caro.

1871, Junho, 10 Hoje faz dois anos que embarcamos no navio Victoria, no porto de Hamburgo/Alemanha. O cansaço pela longa viagem marítima deixou-nos debilitados. No navio a comida era razoavelmente boa: serviam sardinhas, carne duas vezes por semana e, todos os dias, café pela manhã e chá à tarde. Conhaque, vinho, limões e remédios foram de grande utilidade na travessia do Oceano Atlântico, para resistirmos. Nós, mulheres, pouco víamos os maridos, pois fomos acomodadas em lugares diferentes e distantes. Conversávamos quando nos encontrávamos no convés, à luz do dia, apreciando a paisagem e as gaivotas, belas aves marinhas que acompanhavam a rota dos navios.


Agosto, 21
Soube que um professor da vizinha Colônia Blumenau, Sebastião Saporski, e o pároco da Igreja de São Pedro Apóstolo, de Gaspar, padre Antônio Zielinski – localidades próximas daqui – pensam em levar-nos para outra Província, a do Paraná. O esquema é à revelia do Governo Imperial que crê, depois de estarmos assentados, não ser necessária nossa transferência. Não há documento oficial autorizando a viagem e, segundo consta, D. Pedro II está passeando pelo Egito, não tendo recebido nenhuma pessoa com a qual tivesse conversado a respeito. Portanto, fica a dúvida pairando no ar.

Setembro, 18 Hoje recebemos notícias sobre nossa partida: as mulheres irão de carroça até o porto de Itajahy e de lá, ao porto de Paranaguá, no Paraná. Os homens, que sairão antes, irão a pé. Destino: o rocio curitibano. Dará certo? As promessas feitas quanto a melhores condições de vida serão cumpridas? Levo no bolso meu bloco de anotações a fim de registrar o que está por vir. No coração, novamente aquela sensação de angústia pelo desconhecido. Aguardem, pois darei notícias. Partiu Curitiba!"

Maria do Carmo Ramos KRIEGER É natural de Brusque/SC. Pesquisa/escreve sobre os primeiros imigrantes poloneses ao Brasil, chegados em agosto de 1869 à sua cidade.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

PRIMEIRO DE ABRIL!

Uma brincadeira que acontecia entre os poloneses era passar trote nos amigos e conhecidos. 
Conta a história que este costume teve início nas festas dos romanos ao Deus do Sorriso e do Contentamento, justamente no dia primeiro de abril, dia em que comemoravam o ano novo. Outros dizem, e supõe-se que equivocadamente, o costume teve início na Judéia, pois os judeus não acreditavam na Ressureição de Jesus Cristo. Diziam que Jesus Cristo tinha sido crucificado no dia 30 de março e ressuscitado dia 1º. de abril, fato que,  para os descrentes  consistia numa ‘mentira’. Ensinaram então, aos soldados, a mentir sobre este fato. A partir daí qualquer coisa que inventavam e que fosse absurda, era “1º de abril”.


Até os poloneses, antigamente, enviavam cartas com  notícias falsas: inventavam notícias falsas e as enviavam em cartas! Ou então enviavam apenas um cartão com as palavras “Prima Aprilis”. Muita gente crê muito facilmente em qualquer coisa... e assim riam das pessoas que se deixavam iludir facilmente. Diz-se que foi assim que nasceu o “1º. de abril”. E mais: dizia-se que no dia primeiro de abril não se deve acreditar em nada, para não ser enganado. E que também não se deve ler nada, pois que escrevem apenas bobagens, mentiras!  Devia-se acreditar nisto:  que a volta da primavera neste dia dá uma alegria para todos. E como todo mundo fica feliz, a primavera se mostra com sorriso ! E nada dá tanta vontade de rir como uma coisa inocente, sem malícia.

quinta-feira, 26 de março de 2015

COMO OS CAMPONESES COMEMORAVAM A PÁSCOA COM OS PATRÕES

É conhecido o costume dos camponeses poloneses de recolher os ovos e levá-los à casa do patrão.
Esses camponeses, em certa  localidade, juntaram-se e elegeram um deles para ser o representante perante o patrão e a família, por ocasião da Páscoa. Este representante deveria desejar ‘boas festas’ em nome de todos os camponeses. Estes, por sua vez, repetiriam em coro as palavras de seu representante. E assim caminhou o orador, o representante, em direção ao castelo do patrão. Lá já aguardavam-nos o patrão e toda a família.
Este representante, com a cesta de ovos em seus braços, tomou a dianteira de seus amigos e começou a falar: “nós, servidores de Deus e de sua excelência, viemos para desejar boa Páscoa”. E então os amigos camponeses repetiam suas palavras, completando: “para sua esposa, filhos, netos eavós.”  E o orador continuou: “ Saúde, e os anos mais prósperos de sua vida.” E o povo repetia, completando: “para sua esposa, filhos, netos e avós.”  E o orador: “Que Deus abençoe vossa excelência no campo e na estrebaria; na casa e no pomar.”  E o povo repetia, completando: “para sua esposa, filhos, netos eavós.”  Então o orador se dirigiu ao patrão, carregando a cesta de ovos, seguido pelos amigos camponeses.

Ao dar o último passo antes de entregar a cesta, o cadarço do sapato desatou e um dos camponeses pisou nele. O orador tropeçou ao dar o passo e caiu ao chão, deixando cair a cesta e quebrando-lhe todos os ovos. Ao se levantar não se conteve e soltou um xingamento: “Que os diabos te carreguem”... e a turma toda atrás repetiu e completou: “para sua esposa, filhos, netos e avós.”

terça-feira, 24 de março de 2015

A MAIS ANTIGA INFORMAÇÃO SOBRE “PISANKI”

Wincenty Kadlubek  era um bispo de Cracóvia e na crônica que escreveu no séc. XIII, dizia serem os poloneses um povo sem muita firmeza, muito subsmissos, posto que sempre estavam obedecendo ordens de alguém. Por outro lado, eram também muito brincalhões e espirituosos. Assim, sempre brincavam com seus patrões como se brincassem com ovos pintados; apesar de terem mais receio ao brincarem com seus patrões, pois eram apenas trabalhadores. 
O bispo, com certeza, tinha na mente os ovos de páscoa-pisanki. Esse costume, que de lá  chegou aos nossos dias, vem da seguinte brincadeira: duas pessoas pegam cada um na mão direita um ovo e batem um na mão do outro os ovos. O vencedor é aquele cujo ovo não quebrou. E foi assim que compreendeu essa crônica antiga, escrita em latim, dito por este bispo, descrevendo sobre esses ovos de páscoa (pisanki), como um costume que se usea atualmente ainda na Rússia. Esse costume de bater os pisanki não acontecia só na Russia, mas também na Polônia, entre a dinastia Piast. 

terça-feira, 17 de março de 2015

CHAPEUZINHO VERMELHO

(Uma paródia dessa Manezinha da Ilha)

Era uma vez uma rapariga lá das banda do Ribeirão da Ilha que gostava de catá ostras e mariscos com seu pai. A mãe criava galinhas e cuidava duma vaquinha. De tempos em tempos, a rapariga levava uma baciada de ostra , marisco e semente de galinha, sempre com um “pão-por-Deus”, que sua mãe preparava com esmero, para  sua vózinha que morava lá do outro lado da Ilha, no Rio Vermelho. A véia, coitada, perdeu o marido que era proeiro e saiu pra pescar no meio do mar  e nunca mais voltou. O abestado saiu numa quadra ruim e foi no que deu. Deu a casca! E a véia não se aprecatou. A rapariga levava então essa baciada porque a véinha tinha muito jeito com frutos do mar. No começo ia no calcanhar mesmo, de pé-discalço,  mas depois, com as linha de ônibus, passou a usar deste conforto.

Pois vai que naquele dia ela tomou o ônibus de novo, e foi-se estrada afora, primeiro subindo o morro que leva prá ‘Mole’, prá ‘Barra’ e depois contando os Pinus da Reserva Florestal, até chegar cá embaixo, perto da travessa ........ onde então morava sua vó.  Essa, sempre esperava a netinha, ‘côsa fôfa’, como ela mesmo dizia, com um café corrido e uma tigelada de pirão de’água feito com farinha do Engenho do Tião. Ou então com a tal da primiana de café. Uma vaca mugia no quintal da véia, único bem que seu Amâncio deixou em vida prá véinha, fora a casinha que era de tauba e ripa.

E assim ia. Vez por vez. E a rapariga, por felicidade deste destino que Deus lhe deu, deixava tudo que era top-model no chinelo, de tão linda que era a danada. E prá não dá quemôri no lindo cabelão, com esse sóli quentado da Ilha, cobria-o com um lenço de renda, vermelho, que tia Idalina tinha feito no bilro. Êta que a rapariga era bonita prá diabo! Tinha cintura fina, daquelas só conseguidas com colete de barbatana de baleia... dava uma inveja prás outra!

Mas vai que numa dessas andanças prá casa da vó, meio aluada das idéia, não se deu conta e quando tava indo, acabou foi parando no terminal da Praça XV, lá no centro da cidade. Ô vida mardita! Como essa guria azedou! E quase que desmaiô quando se deparou com a imensidão daquela Catedral. Mas, fazê o quê, né verdade? O outro ônibus ia demorar mesmo, então resolveu ir se benzer na Catedral.  Quando saiu, como tava desprevinida de dimdim, resolveu vender sua baciada. Veio um e olhou de esguelha... A rapariga não contou até trex: “Qués fazê poco caso, compra uma cabra!!!” Quase mofou c’as pomba na balaia, bem alí debaixo da véia figuêra,  mas fez uns troco e tomou o ônibus pro Rio Vermelho. Isso já ia quase anoitecendo e o sóli quase botou fogo no céu, de tão vermelho que ficou. O ônibus foi. Ia indo, ia indo e ... de repente, a rapariga se encantou com um monte de luzinha que brilhava coms raio do sóli: alí, logo alí, entre o Monte Verde e o Saco Grande; não sabia que era aquilo, mas, ah! não podia deixar de olhar! Desceu do ônibus e deu de cara, assim, com um baita dum lobo, feito estauta, e que brilhava com um monte de “brilhinho”! É que a estauta era toda, todinha coladinha de espelhinho, pedaços de espelho e que brilhavam com aquele sóli que aí batia. A rapariga ficou enfeitiçada. Parecia mandinga de bruxa. 

Ficou mis tarde. O sóli já tinha se deitado e a lua trazia um clarão tão forte que continuava brilhando no Lobão da Lupus. Era sexta e o pessoal do bailão na discoteca já tava chegando. Gostou da música: parecia com a música das festas na Lagoa. Talvez fosse ter uma procissão, ou talvez era festa com Boi-de-Mamão. Esperou. O lobão, era figura que ficava bem na entrada da Lupus Beer, uma baita discoteca da Ilha. Manezinha que era, nunca tinha vista nada igual. Ficou ali, vadiando, olhando extasiada! 

Foi quando chegou, de repente, nem se sabe como nem di onde, um cara, numa tremenda Harley Davidson, muito sarado, muito arretado mas também muito chapado e que foi logo entrosando conversa mole com a coitadinha. Ele tava que mais parecia um pudim de cachaça. Ela, deslumbrada que tava, não contou até trex: foi logo subindo na baita máquina do carinha e ia saindo dalí, da Lupus, na carona da tal máquina quando deu de cara com um primo de Caçador. Esse sim, um rapaji-ômi, esse manjava quem era o táli da moto, e foi logo chamando o cara de tudo. Pegou pelo pescoço e não contou até tres: foi uma pendenga feia. Foi sim. O mandrião, entre um sopapo e outro, caiu max... logo si alivantou. Não se sabe qual dox dox apanhou mais, porque o primo de Caçador era esquentado por natureza, como é o pessoal do oeste; e o cara da moto sabia Capoeira... Parecia inté que ox dox tavam cum Quibinga nox corno. O circo tava armado: a ratatulha toda fazendo torcida em volta deles. Vai que um deles pegou dum canivete e deu um taio no outro. Mas prá graça de Jejuje, a rapariga tava salva das garras do mal-encarado! O táli da moto tava tomado, max o primo tava cu’s iscorno que era uma vergonha! “Tás tolo, primo! Vamu s’imbora!” Gritou a prima e os dois se foram pela estrada, bem sózinhos, onde o caminho era longe, era deserto...

O primo conhecia algumas benzeduras e “amarrou a bruxa” e a rapariga caiu alí mesmo, estatelada, parecia que tinha “baixado o santo” na dita. Passado o suxto, ficou em estado de fado. Ficou foi, com medo de uma tunda, e assim, ficou o dito pelo não dito, e depois de tudo explicado, foram-se os dois pra casa da vó, coitada, que tava braba que nem sei...reinava mais que o diabo, quase se passando de fome. Não tinha nem sobra prá fazê uma roupa-velha e a querosene da pomboca tava si acabando... só tinha um fiozinho de luz... Mas ia indo pricurá ricurso, quando o tal primo chegou e salvou-a também! Ficou todo mundo feliz e no dia seguinte arresolveram empinar pipa de rabiola de papéli cororido pra ver qual subia mais, já que tinha dado uma refrega de vento boa! A véia trouxe uma pratada de coxa-de-velha e ofereceu pru primo: “Si quéx, quéx, si num quéx, dix. Adispois num dix qui ô no di.”
E taí, rezistrada a xtória da rapariga de lenço de renda vermelha! Era uma vez. E foi-se!