No texto de Maria do Carmo R. Krieger, publicado no periódico TAK, há anotações sobre o Natal então recém vivido pela autora das anotações, no Brasil:
"Anotações de uma imigrante polonesa Esse é um ensaio
literário a partir de situações concretas, vividas pelos primeiros imigrantes
poloneses, baseadas em fatos reais. Com dados obtidos a partir de documentos
oficiais da Colônia Príncipe Dom Pedro (Arquivos da Sociedade Amigos de
Brusque/SAB), escrevi como se fossem anotações de um diário, pontuando memórias
e fatos.
1869, agosto, 25 Para mim, poderia ser janeiro. Ano novo
vida nova. Não é no Ano Novo que a gente faz promessas, repensa a vida, quer
começar tudo diferente? Pois aqui estou, nessa terra chamada Brasil! O que me
aguarda? Nenhuma surpresa será maior que a da chegada ao porto de Itajahy, no
litoral catarinense: baús, trouxas e todo um carregamento de teres e haveres
espalhados, à espera de seus donos. Na bagagem eu trazia uma imensa saudade da
Polônia, explicada por aquele aperto no coração, pelas lágrimas, pela distância
da pátria-mãe que, afinal, não havia sido nada gentil comigo, a ponto de me
fazer emigrante. Da tralha recolhida no porto e levada para as carroças, a
constatação de que algumas louças haviam se transformado em cacos: pratos,
xícaras sem alças, aquela travessa de servir pierógui, lascada. Descobri, mais
tarde, que as xícaras não fariam falta: nas canecas, mais robustas, o café, bebida
quente à base de grãos, teria outro sabor.
Setembro, 10 Verde que te quero verde! Olho à minha volta e
é o que vejo. Fomos assentados em lotes de terras numa encosta de morro: o
relevo faz toda a diferença. Como trabalhar a terra? O lugar chama-se Colônia
Príncipe Dom Pedro, na Província de Santa Catharina, Sul do Brasil. O sistema
de governo é Imperial, na pessoa de D. Pedro II, mas o território pertence a
Portugal. Fica no Hemisfério Sul e estamos agora quase na primavera. Flores são
poucas. Só as que os colonos alemães, da vizinha Colônia Itajahy, a 9 km,
insistem em cultivar.
Setembro, 30 Finalmente uma oportunidade de trabalho. Os
homens receberam pá, enxada, foice – ferramentas tão úteis quanto necessárias
para lidar na floresta abrindo clareiras, construindo choupanas. Nas paredes
dos lares, imagens de Nossa Senhora de Częstochowa, símbolo da religiosidade de
nosso povo; ela olha por todos e estende suas bênçãos a nós, filhas/ filhos
distantes. Assim, unidos em oração, fortalecemos nossas esperanças.
Outubro, 15
Esperanças? De que e para que servem? Às vezes pergunto-me isso e vejo o rio
Itajahy-Mirim passar, levando, com as cheias, os sonhos de uma plantação
prestes a ser colhida. O Governo Imperial prometeu ajuda, a qual chegou em
forma de víveres e alimentos, retirados no Armazém da Colônia Itajahy, mediante
cupons de assistência emergencial. A manutenção governamental será até o
próximo plantio.
Novembro, 2 Dia de Finados. Dia de lembrar os mortos. Nosso
cemitério já recebeu algumas crianças polonesas, falecidas recentemente. Chamam
o local de Cemitério dos Polacos e uma cruz de pedra, pequena e de mármore
branco, sinaliza nossos sentimentos mais tristes.
Novembro, 18 Estou bem de saúde. O trabalho de abertura nas
estradas envolve os homens, permitindo uma ajuda mensal e garantindo o sustento
das famílias. As mulheres, como eu, fazem o serviço doméstico e cuidam das
hortas. Além de costurarem, fazem pequenos remendos, cuidam das crianças e
preparam as refeições. Conhecemos o aipim, uma rama que fornece alimentação
forte. Descasca- -se, cozinha-se em água e sal. Substitui bem a batata, nosso
alimento principal. Com aipim dá para fazer pão, bolo. Triturado, transforma-se
em farinha de mandioca, com a qual se preparam outras receitas. Inclusive,
quando a farinha é adicionada ao leite, engrossa e torna-se um delicioso mingau
para as crianças.
Dezembro, 25 Natal. Na falta de vodca, ideal para países de
clima frio, ergueu-se um brinde com uma bebida local, chamada cachaça. Extraída
da cana-de-açúcar (que também fornece o açúcar), é uma aguardente tão forte
quanto vodca e igualmente saborosa. Na zdrowie! Para lembrar o Pierniki (pão de
mel típico do Natal polonês), improvisei o bolo com casca de laranja, fruta
seca ao sol de dezembro, substituindo o damasco, da receita original. E não é
que deu certo? Na mesa de Natal, coloquei o motivo que torna esta data uma das
mais especiais para os cristãos católicos: uma pequena imagem de Jesus Menino,
que repousa sobre palha de milho. Um toco de vela ilumina o ambiente. Já o
pinheiro, cortado na floresta nativa quase no quintal de casa, tem enfeites de
papel recortado: os wycinanki.
1870, Fevereiro Algumas pessoas pensam em desistir, ir
embora. Para onde? Nosso lugar é aqui. Há promessas do Governador da Província
e do Diretor da Colônia para os homens trabalharem em estradas e picadas. O
espírito de luta, fortalecido pelo suor do trabalho diário dos nossos maridos,
às vezes esmorece. É tudo tão diferente, outra cultura, há costumes tão
diversos e, dizem, começaram a aparecer alguns índios, os primeiros habitantes
do lugar. Nossos vizinhos, os imigrantes alemães, já receberam a visita de
alguns deles. Dizem que são arredios (e não era para serem? Chegamos, tomamos
conta do que era seu, assumimos um espaço geográfico repleto de árvores que
foram derrubadas para criarmos o nosso espaço...) não só para conversarem
(imagina linguajares diferentes: polonês, alemão, guarani – dos autóctones),
mas não hesitam em matar, por sentirem-se ameaçados. Notícias dão conta de que
um colono foi morto a flechadas enquanto estava em sua plantação. Por isso a
direção da Colônia avisou para ficarmos atentos aos ataques.
Qualquer dia de março Quase perco a noção do calendário.
Marcar os dias nem sempre é interessante do ponto de vista de quem plantou e
espera pela safra: hoje choveu demais, ou: a seca prolonga-se, ou: as sementes
não foram entregues, ou, simplesmente os dias não passam!
Julho, 19 O desânimo quer tomar conta de mim. Como estará
minha família? Não vou entregar-me. Meu país não pode ficar como um quadro na
parede, cuja paisagem só reproduz a imagem que desejo voltar a ver, antes que
desapareça da minha lembrança. Ah! E quando viajar à Polônia trarei mais xales,
tamancos, saias rodadas e enfeitadas. Porém não sei se haverá uma viagem de
volta: o Governo Imperial alega que somos imigrantes espontâneos e não
oficiais, como os alemães, listados e cadastrados nas Agências de Emigração, lá
na Europa. A bem da verdade, também não sei se algum imigrante alemão retornou.
Acho que não. É difícil e caro.
1871, Junho, 10 Hoje faz dois anos que embarcamos no navio
Victoria, no porto de Hamburgo/Alemanha. O cansaço pela longa viagem marítima
deixou-nos debilitados. No navio a comida era razoavelmente boa: serviam
sardinhas, carne duas vezes por semana e, todos os dias, café pela manhã e chá
à tarde. Conhaque, vinho, limões e remédios foram de grande utilidade na
travessia do Oceano Atlântico, para resistirmos. Nós, mulheres, pouco víamos os
maridos, pois fomos acomodadas em lugares diferentes e distantes. Conversávamos
quando nos encontrávamos no convés, à luz do dia, apreciando a paisagem e as
gaivotas, belas aves marinhas que acompanhavam a rota dos navios.
Agosto, 21 Soube que um professor da vizinha Colônia
Blumenau, Sebastião Saporski, e o pároco da Igreja de São Pedro Apóstolo, de
Gaspar, padre Antônio Zielinski – localidades próximas daqui – pensam em
levar-nos para outra Província, a do Paraná. O esquema é à revelia do Governo
Imperial que crê, depois de estarmos assentados, não ser necessária nossa
transferência. Não há documento oficial autorizando a viagem e, segundo consta,
D. Pedro II está passeando pelo Egito, não tendo recebido nenhuma pessoa com a
qual tivesse conversado a respeito. Portanto, fica a dúvida pairando no ar.
Setembro, 18 Hoje recebemos notícias sobre nossa partida: as
mulheres irão de carroça até o porto de Itajahy e de lá, ao porto de Paranaguá,
no Paraná. Os homens, que sairão antes, irão a pé. Destino: o rocio curitibano.
Dará certo? As promessas feitas quanto a melhores condições de vida serão
cumpridas? Levo no bolso meu bloco de anotações a fim de registrar o que está
por vir. No coração, novamente aquela sensação de angústia pelo desconhecido.
Aguardem, pois darei notícias. Partiu Curitiba!"
Maria do Carmo Ramos KRIEGER É natural de Brusque/SC.
Pesquisa/escreve sobre os primeiros imigrantes poloneses ao Brasil, chegados em
agosto de 1869 à sua cidade.