sexta-feira, 18 de junho de 2021

Penha de outrora T2E2: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau


A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA 

Tradução e revisão Mônica Funfgelt

15/06/2021

Este (Manoel), um belo rapaz de 24 anos, forte e saudável, não comentava nada sobre sua própria cabana construída de paus de palmito e paredes preenchidas com barro. O chão era de terra crua. Algumas esteiras e tapetes de palha, serviam de assoalho. A fumaça percorrera o casebre e pintara tudo de preto. Uma mesa frágil e um banco velho era o que havia de mobília.

Além de Manoel, o mais velho, via-se ainda uma infinidade de crianças cujo número sequer os pais saberiam precisar. Os menores andavam totalmente nus enquanto que as meninas um pouco mais velhas vestiam apenas alguns trapos com mais furos do que propriamente tecido. É preciso admirar a destreza com que tal peça de roupa podia ser usada sem cair do corpo.

O pai, uma criaturinha miúda e raquítica, era tão preguiçoso e fraco que muito pouco contribuía para o sustento da família. A mãe era descuidada e suja. Seus cabelos aparentavam nunca terem sido penteados e o coçar constante sugeria, ainda, que havia outras coisas.

Somente Manoel era asseado e banhava-se frequentemente, ao contrário de sua família que nem até o mar ia, embora este, estivesse a uma distância de menos de trinta passos do casebre. Suas vestes eram compostas apenas de camisa e calça, no entanto não eram esburacadas nem tampouco havia remendos. Era admirável que o rapaz, que fora criado naquele ambiente, não aparentava aquele desleixo. A única razão deveria ser mesmo a sua paixão por Acaricia. Ele via o quão encantadora ela era, em suas vestes simples, e não queria sobressair-se.

Pedro Ricaço de nada sabia sobre o namorico da sua filha com Manoel, até que um dia desses a mãe de Acaricia, Dona Elvira, lhe abriu os olhos, “bobagem” retrucou ele, “ como você pode pensar que aquilo um dia daria em alguma coisa, o mendigo Manoel e Acaricia. Há de ser convir que ele é um belo rapaz, porém meu genro é diferente”.

“Então”, ponderou a esposa, “quer dizer que você já tem um candidato?”

“Decerto que sim”! Pois você conhece o vendeiro Hypólito, de Gravatá. Ele tem um filho, Bento. Dia desses, quando aportei lá, naquela minha viagem para Itajaí, o pai fez algumas insinuações de que estava querendo se aposentar e se ausentar por mais tempo das suas lavouras de café e deixar o seu negócio a cargo do filho. Por conta disso, o rapaz precisaria urgentemente ser casado. O pai ainda reforçou que um dia desses gostaria de nos fazer uma visita.

“Mas marido”, vociferou a esposa, você não está pensando em entregar a nossa linda menina para o Bento, está? O caipira corcunda e acanhado que engana os fregueses, para quem nada é sagrado, que nunca se confessa e ainda fala mal de todos! Esqueceu-se de como ele se portou no funeral do falecido Antônio, quando lutou capoeira no meio dos enlutados e, quando chegou no cemitério e  jogou futebol com uma das caveiras caídas que então lançou em direção à cabeça de um menino fazendo-o chorar alto. Toda a cerimônia fora tumultuada e faltou pouco para ele que ele levasse uma bela surra. Somente a consideração pelos mortos impediu as pessoas de fazê-lo.

“O que”, retrucou Pedro, “isso é arrogância juvenil, Acaricia vai mudar isso quando ele for o marido dela. Pense, a herança de Hypólito está estimada em cinco contos, além do mais  Bento é seu único filho e a mãe já é falecida há 10 anos”.

“Sim”, disse Dona Elvira, “pois ele vive com a empregada doméstica com quem tem outros quatro filhos”. “Mulher tola, eles nem herdarão nada! Veja bem, nossa filha tirará a sorte grande com este casamento”.

“Ah”. “Ah”, suspirou dona Elvira, “não me parece bem isso. Além disso, a Acaricia também deve ser questionada ”.

“Era só o que faltava”. Ela que fique feliz se nós arranjarmos um bom casamento. A mulher silenciou.

continua...

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