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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

T1.E3-Minha primeira viagem de avião(1983)



 RELATO DE UMA VIAGEM: Argentina e Chile (1983)

         05 de março: Era sábado. E o dia ali do outro lado da Cordilheira começou efetivamente depois das 9hs. Ainda movidos pelo cansaço da longa viagem, nosso dia começou mais tarde, lá pelas 10hs, mas perdemos algum tempo, pois Viviana, conforme o combinado, não apareceu. Gilberto e seus amigos então prepararam um almoço para todos e ficamos ali à toa, jogando conversa fora. Pelas 15hs Gilberto e sua namorada Janete saíram conosco para mostrar um pouco de Santiago. Caminhamos a pé pelas ruas centrais e visitamos o Cerro Santa Lucia, um dos mais famosos de Santiago, com suas fontes, monumentos e um mirante a quase 1.000m de altitude. A vista lá de cima é espetacular, com os Andes formando o pano de fundo.

            No Chile, bem como na Argentina, são comuns as “parilladas”, um tipo de grelha que fica exposto em frente a restaurantes e estabelecimentos e onde são assados vários tipos de carne, para escolha do freguês. As “empanadas” também são bem famosas e são um tipo de pastel assado à chilena com muita mistura. Paramos numa das “parilladas” para beliscar alguma coisa e tomar uma cerveja. Ainda visitamos a igreja de São Francisco, uma das mais antigas e rústicas do Chile; o Palácio do Governo; os calçadões, dos quais Ahumada é o principal; a praça da Catedral e também vimos os músicos tocando clarinetas, ali, no meio da tarde, nas calçadas, dando um brilho todo especial ao ambiente. Era noite quando retornamos via metrô, aliás, um metrô moderno, limpo e muito confortável. Ao chegar no apartamento, já nos esperavam Viviana e seu noivo Carlos. Um tanto atrasados, mas, enfim, chegaram. Conversamos um tanto e ficou combinado de nos pegarem no dia seguinte, de manhã.

Santiago

06 de março
: O domingo foi reservado à família de Viviana e o aniversário de sua “madre”. Com um atraso nada confortável de 2hs, nossa amiga veio nos buscar. Depois de alguns sustos com o motorista, pai de Viviana, que parava com o sinal aberto e andava com o sinal fechado, chegamos sãos e salvos à casa de seus pais. Nos acolheram muito amigavelmente e serviram um almoço típico chileno. Um bom vinho do sul do país acompanhou a refeição e o papo fluiu muito legal. O povo chileno gosta muito do Brasil. Quem já visitou o país, diz que adorou. E quem ainda não visitou, diz que teria imenso prazer em conhecer. Isso se deve ao fato de, pela geografia incomum, os únicos vizinhos do Chile serem os argentinos, com quem não se entendem lá muito bem.

A tarde nos reservou novas e agradáveis surpresas: um passeio pelo Cerro San Cristobal, de rara beleza, urbanizado e com uma vista  maravilhosa. Visitamos também as comunas de Los Andes e Providência, bem como antigas casas dos santiaguinos ao pé da Cordilheira. Estas casas já estavam no limite urbano, porém não perderam a beleza e o requinte, bem cuidadas por seus proprietários, suas famílias abastadas. Visitamos também Catherine (Catita) conferencista da Ciência Cristã. À noite retornamos ao Cerro San Cristobal, para admirar a cidade iluminada.

Santiago

07 de março: Este dia foi reservado para ir ao Pacífico. Às 10hs partimos do Terminal de Santiago em direção á Cordilheira da Costa, um imenso paredão de rocha que separa a capital do litoral. Depois de 2hs, 120km e alguns túneis, chegamos à Viña del Mar, o colosso chileno do Pacífico. Esse balneário não é famoso à toa. Suas praias banhadas pelas ondas violentas do Pacífico, são enriquecidas, além da beleza natural, por castelos, pelo Cassino, pela Quinta Vergara, pela cultura e, sobretudo, pela hospitalidade do povo. Aqui reencontramos Sandra e Tatiana, nossas amiguinhas de Mendoza depois de ligarmos de um prelhão para a casa delas. Convite feito, convite aceito. Conhecemos seus pais Jorge Hernandez e Maria Eugenia e o irmão Jorge. A família nos acolheu com muito carinho e amizade e passamos momentos de felicidade por todo aquele dia e noite. Levaram-nos a conhecer Reñaca, Con-con, Costa Brava e Valparaíso que é porto e a segunda cidade mais importante do país. Conhecemos também o por de sol no Pacífico, embora estivesse meio nublado; o relógio das flores em Viña e o artesanato de cobre, maior riqueza do Chile. Muito gentilmente, a família nos acomodou em sua casa. À noite, Maria Eugenia serviu purê papas com salsicha.


Viña del Mar

08 de março: Despedimo-nos de nossos amigos e embarcamos novamente no Terminal de VIña del Mar, rumo à Santiago. Ao sair da cidade e subir a Cordilheira da Costa, ficaram para trás o Pacífico, Viña del Mar, nossos amigos. Um misto de alegria e recente saudade tomou conta do meu ser. E estávamos, a partir daí, verdade, começando a nossa viagem de volta ao Brasil. Durante o caminho, até surgiu a idéia de dar uma esticada, até o sul do Chile e da Argentina. Mas a Aerolíneas não aceitou transferir a passagem de Mendoza para Bariloche. O jeito foi continuar com o roteiro estabelecido: seguir de volta para Santiago, Mendoza, Buenos Aires e, finalmente, o Brasil.


A caminho da Cordilheira

09 de março: Todos os nossos gestos foram gestos de despedida. Esta, porém, não era mais forte que a saudade do Brasil e do Vinícius. Viajar é ótimo, conhecer novos lugares e pessoas é maravilhoso. Mas retornar para casa fazia muito sentido. Na verdade, o passeio estava ótimo, mas já estávamos loucos para voltar para casa e encontrar o filho Vinícius, que tinha ficado aos cuidados dos avós. Às 12:15 deixamos Santiago. Por volta das 15:30 começamos efetivamente a subir novamente os Andes. E eu, por receio de sofre a “puna” e por indicação de viajantes, comecei a roer uma cebola crua. O certo é que ninguém passou mal. Se foi por causa da cebola ou não, não se sabe. A paisagem nesta volta, continuava deslumbrante, bela e rara e eu nada satisfeita roendo a cebola, mas satisfeita pelo passeio. 

Porém nem tudo foram rosas: a alta velocidade empreendida pelo motorista, na descida Cordilheira, quase nos matou de susto e apreensão. Eram em torno de 20hs quando chegamos em Mendoza. Um último pôr de sol por detrás da Cordilheira deu seu aceno de adeus. Um espetáculo indescritível, o do pôr do sol.

Após nos hospedarmos no hotel, ainda deu tempo de fazermos um passeio pelo centro arborizado e iluminado desta bela cidade. Para encerrar a noite e comemorar o retorno à Argentina,  nada melhor que um lomo com papas fritas! E regada com uma boa cervejinha.

10 de março: Esta quinta feira começou muito cedo. Eram 3:30 da madrugada quando saímos do hotel à procura de um táxi. O voo econômico noturno da Aerolíneas estava marcado para as 5hs. Tudo certo, embarcamos e fizemos um voo tranquilo. Às 7hs estávamos em Buenos Aires. Tivemos um pouco de dificuldade para pegar um táxi para Quilmes, bairro onde nossos amigos Oscar e Marisa nos aguardavam em sua casa. A viagem de táxi foi relativamente cara, mas a recepção e acolhimento dos amigos compensou tudo.  

Meu relato datilografado acabou aqui. Creio que embarcamos de volta ao Brasil no dia seguinte, na sexta, não lembro mais. Mas me lembro bem, que chegando em Porto Alegre, nosso compadre Ado nos pegou no aeroporto e fomos para sua casa, em Canoas, onde Janete também já nos aguardava. Mil histórias correram ao sabor de chimarrão e churrasco. Que saudade do churrasco brasileiro! A única coisa que estávamos dispensando, eram as papas... pois era o que vínhamos comendo todos os dias da viagem. Nada contra as papas, mas tudo a favor de churrasco, arroz e feijão... só pra matar a saudade. E, ou sábado ou domingo, retornamos à Blumenau, onde morávamos. Saudades enormes do pequeno Vinícius! Foi muito bom tê-lo de novo nos braços! E o coração ficou cheio de gratidão por todos aqueles dias de viagem. Minha primeira viagem de avião... Pra mim, não foi fácil, pois o medo de voar me assaltava e me assaltou por muitos e muitos anos. A cada ruído diferente, a cada sacudida, turbulência, eu ficava ansiosa e queria saber o que estava acontecendo. 

Eu temia, eu tremia... mas quando estava lá em cima, nas alturas, e sentada junto à janela, onde prefria ficar, eu não perdia de olhar pra baixo... ver o mundo das alturas me encantava. E então o medo até sumia. Era ver o 'mapa' ao vivo e à cores! Tentava reconhecer os pontos geográficos. Indescritível sensação! 










terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

T1.E2-Minha primeira viagem de avião(1983)


RELATO DE UMA VIAGEM: Argentina e Chile (1983)

        03 de março (quinta): Por volta das 10:30 chegamos na estação ferroviária de Mendoza. Plantações de uva e muito poucos vilarejos nos contemplaram como paisagem, nesta viagem de trem pela vasta planície entre Buenos Aires e Mendoza.

            A estação ferroviária é bastante modesta e logo na chegada fomos abordados por alguns rapazes que ofereciam hotéis. Decidimos andar um pouco, antes de tomar qualquer decisão quanto à hospedagem, pois, segundo informações, o centro ficava a apenas 10 minutos, indo a pé. Depois de andar por algumas quadras com as ruas largas e fartamente arborizadas, paramos em uma agência de turismo e colhemos informações sobre hospedagem e a cidade. Ficamos sabendo que Mendoza estava em festa, pois estava acontecendo a Vindima 83. Por este motivo, os hotéis estavam todos lotados e nos indicaram o Hotel España. Não era dos melhores, e, embora tenhamos tentado encontrar outro, um pouco mais confortável, mas sem êxito na procura, voltamos ao España. Descansamos um pouco e às 15hs saímos para conhecer a cidade através de um Tour oferecido pela agência. Andamos de ponta a ponta, pelas ruas principais e secundárias. Paramos na Cantina Giol, a mais famosa casa de vinho; passamos pelo Palácio do Governo Provincial, pelas muitas praças e pelo Parque San Martin.

Estadio de Futbol
        Mendoza é uma cidade ímpar: situada ao pé da Cordilheira dos Andes, foi praticamente destruída por um terremoto na segunda metade do século XIX. Reconstruída, se tornou uma das cidades mais importantes da Argentina. O clima semi-árido não impede que suas ruas sejam cobertas por verdadeiros túneis de árvores; que os parques, sempre muito verdes, tenham flores mesmo no limiar do outono ou que exista um lago artificial com cerca de 10.800m2 em plena zona urbana. Esses pequenos milagres são possíveis por causa do desvio das águas dos rios formado pelo degelo das neves e que descem pela Cordilheira. Desvio esse que abastece canais a céu aberto, ao longo das calçadas, nas ruas do centro, e que permitem a irrigação dos jardins e assim dão vida e colorido à cidade. A chuva é tão rara que a população não costuma esperar por ela e por isso mesmo vai em busca da água da neve. Um dos maiores orgulhos dos mendocinos é o Parque General San Martin, pelo seu tamanho e pela sua beleza. Seus jardins são cortados em diversas direções por pequenas “calles” arborizadas e cada calle recebe o nome da árvore que a compõe. Assim, temos a calle dos Plátanos, a calle dos Cedros etc. Mas não é só isso: o parque, que segundo os medocinos é o maior da América Latina, ainda comporta em seu interior um lago artificial com 1.000m de extensão e 100m de largura; um Clube Náutico; um Zoológico; um Anfiteatro ao ar livre; uma Universidade; o Estádio de Futbol onde foi disputada a chave local da Copa de 78 e o Cerro da Glória onde há um enorme monumento esculpido em bronze sobre a montanha de mais de 1.000m de altura, ao pé dos Andes, e em homenagem ao libertador nacional.

            Já quase no final do passeio, quando conversávamos com a Guia, aproximou-se de nós uma garotinha com seus 13 anos. Identificou-se como Sandra Hernandez, chilena, e falou do quanto admirava os brasileiros. Sandra e Tatiana, a irmã menor, acompanhadas de seu ‘avolito’, ficaram entusiasmadas com nossa amizade. Ao final do passeio, nos passaram seu endereço e o convite para visitá-las, quando fôssemos a Viña del Mar. O sol então já estava se pondo por detrás da Cordilheira – eram quase 21hs.

            Estávamos extenuados pelo passeio em Buenos Aires, pela viagem de trem durante a noite e por este tour em Mendoza. Abateu-nos uma forte dor de cabeça. Estávamos no bagaço! Não tínhamos nem vontade de comer. Foi com esforço que comemos uma omelete, tomamos água mineral e caímos na cama feito dois condenados. No outro dia acordamos já às 10hs da manhã, atrasados, pois tínhamos que pegar o ônibus para Santiago às 11:30hs. A Portaria do Hotel garantiu que nos acordaria na hora solicitada, o que não aconteceu. Felizmente conseguimos arrumar as malas e tomar um bom café, café tipo exportação, bom demais, que aconteceu na Calle Las Heras, pois o Hotel não oferecia café da manhã.

            04 de março (sexta): Depois do café em um dos muitos restaurantes da Calle Las Heras, voltamos ao Hotel, apanhamos a bagagem, tomamos um ônibus (micro) e seguimos para o Terminal (Estação Rodoviária). A Calle Las Heras, quando iluminada, à noite, sob as frondosas árvores, mais parece um caramanchão gigante onde são espalhadas mesas e cadeiras para o público saborear o delicioso lomo, regado a vinho.

        Um detalhe que nos chamou a atenção, foi o fato de não haver cobrador no ônibus (micro). Era o motorista quem fazia todo o serviço. E tentou nos aplicar um golpe, não nos fornecendo o boleto, o ticket da passagem. Por causa disso quase tivemos problema quando a fiscalização entrou no micro e solicitou os boletos. Se não fosse por uma senhora, que testemunhou termos pago as passagens, estaríamos em apuros. A mendocina nos defendeu com tanta convicção, que o Fiscal acabou por nos dar o tal boleto e retirou-se.

           Já no Terminal, enquanto aguardávamos a hora do embarque,  vimos dois rapazes, um tanto esquisitos, cujas mochilas nos fizeram pensar tratar-se de montanhistas, alpinistas (ou melhor, andinistas!). Entramos no ônibus e os dois rapazes sentaram nas poltronas à nossa frente. Foi pelo meio-dia que o ônibus saiu do Terminal e começamos nossa viagem de Mendoza a Santiago do Chile. Quando os dois rapazes à nossa frente entabularam conversa, percebemos que um deles era brasileiro. Se chamava Gilberto e o outro era chileno e se chamava Andreas. Acabamos fazendo amizade. Aliás, foi Andreas que deu atenção especial para mim, na fronteira, na Aduana, entre Argentina e Chile, no ponto mais alto da estrada, quando me senti mal por causa do ar rarefeito. 

 
Trem na subida
        Quando partimos de Mendoza, percorremos um longo trecho de planície por mais ou menos 30 a 40 minutos. Então sentimos a proximidade da Cordilheira e o esforço cada vez maior do motor do ônibus: estávamos iniciando a subida dos Andes. O ponto mais alto seria a 3.000m de altitude. Tive uma estranhaa sensação: a estrada passava entre a Cordilheira e, à direita, à esquerda, nas costas e na frente, o que se viam eram apenas... os “Andes”! Em toda sua imponência e beleza.         Até mesmo o Rio Mendoza, que margeia a estrada, faz parte desse colosso árido que mais parece um pedregulho, rocha pura, do início e ao fim. Quando a estrada ainda fazia as primeiras curvas e os montes com picos gelados estavam ainda muito distantes, cheguei a pensar se a paisagem se tornaria monótona. Mas qual nada: a Cordilheira nos surpreendia a cada curva da estrada. A beleza dos montes rochosos, dos picos gelados, dos ribeirinhos que descem do alto, dos “Penitentes”, do distante “Aconcágua” majestoso, dos muitos túneis, dos sulcos na terrra que a neve deixa a cada inverno, da “Ponte de Los Incas”, da cidadezinha de “Uspallata” nos fascinava. Sentia-se também a diferença de temperatura, pois em Menodaze deixamos um clima de 30graus para um frio cortante e enfrentamos o vento gelado de “Las Cuevas”. E nos espantamos ao ver que um trem tentava nos acompanhar, percorrendo toda aquela altitude. Só que era muito mais lento que nós. Em certa altura, foi necessário usar suas cremalheiras para vencer a subida. Isto tudo ainda no lado argentino. Por mais que tudo isso seja mostrado em fotos ou se fale a respeito, nada se compara à emoção de cruzar os Andes, esse patrimônio da América e do mundo.

            A passagem pela Aduana não foi muito complicada. O que mais queriam, na verdade, era a propina para os maleros, os rapazes que retiram e recolocam as malas nos ônibus. Foi nesta passagem que me senti mal, enquanto aguardava a vez na fila. Imediatamente Andreas foi ao Posto Médico e fui imediatamente atendida pelos Carabineros de Chile. Fui levada para a enfermaria, deitada numa maca e coberta com grossos cobertores, pois eu tremia muito, como se estivesse com muito frio. Me deram café um café bem quente, alguma medicação e logo me restabeleci. Ficamos muito agradecidos aos Carabineros, em especial ao Tenente Olivares. 

Los Caracoles

            A descida do lado chileno foi mais rápida, porém não menos bela. Começou com a paisagem do Centro de Esqui de Potrerillos, ao redor do qual, apesar do verão, ainda havia muito neve. Sua principal atração é um lago que congela no inverno e permite ser esquiado. Alguns metros de descida e a estrada acontece toda em curvas de quase 180graus, os famosos “Caracoles”. É um espetáculo incrível que ficou para sempre gravado na memória. O verão já estava caminhando para o seu fim, mas a neve ainda estava presente e, por vezes, bem perto da estrada. É a chamada "neve eterna", pois não descongela nunca e proporciona um espetáculo da natureza. Um viajante de carro não se conteve, parou o carro, desembarcou e se dirigiu a um desses pontos de neve, agachou-se e tomou um punhado em suas mãos. Eu queria poder fazer o mesmo, mas o ônibus não podia parar.

            A vegetação em toda a Cordilheira não era das mais exuberantes. Somente depois de descer mais de 2.000m é que se viam as primeiras plantações e árvores às margens dos rios. A primeira cidade a aparecer do lado chileno foi Los Andes. Uma pequena cidade, logo ali, no início da subida da Cordilheira, no lado chileno. Mais duas horas de viagem e chegamos a Santiago, capital chilena e que não era muito diferente das grandes cidades do sul da América. Incomum foi o acesso feito pela famosa Rodovia Panamericana. O centro de Santiago tinha uma aparência de antigo, com prédios cinza-escuros dominando a paisagem. A parte moderna da cidade ficava na Comuna de Providência e era onde se concentravam os prédios com design mais moderno e um comércio grão-fino. As comunas que então dividem a capital, são um tipo de bairros com autonomia administrativa. 

        A convite de Gilberto, nos hospedamos em seu apartamento, pois Viviana, a amiga com quem tínhamos feito contato e que nos indicaria hospedagem, não foi possível localizar até aquele momento. No apartamento da rua Bela Vista-51, conhecemos os amigos de Gilberto: Patrício, Daniel e Gabriel. Todos eram universitários, como nós, e não foi difícil nos sentirmos bem, em casa. Patrício, também conhecido como “Pato”, preparou um chá (tê) e um lanche para nossotros. Um quarto do apartamento foi desocupado e cedido para nós. Horas depois tentamos novamente contato com Viviana e, contato feito,  ficou acertado dela nos visitar no dia seguinte.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

T1-E1-Minha Primeira Viagem de Avião (1983)

 

RELATO DE UMA VIAGEM: Argentina e Chile (1983)

28 fevereiro (segunda): saímos de Vacaria em direção à Porto Alegre, onde recebemos a confirmação de que o amigo Oscar nos esperava em Buenos Aires e a amiga Viviana nos esperava em Santiago do Chile.

01 março (terça): 9:00! Hora de despertar, pois uma longa viagem estava prestes a acontecer. Saímos ao comércio no centro de Canoas/RS para comprar alguns ‘recuerdos’ para nossos amigos e talvez para outros que iríamos conhecer ao longo da viagem.

            Às 10:30 nosso compadre Ado nos levou ao Aeroporto Salgado Filho. Ponto de partida desta primeira viagem internacional. Éramos praticamente os primeiros a chegar ao balcão da empresa e assim tivemos um rápido atendimento. Saímos então a passear pelo aeroporto, já que tínhamos tempo de sobra até o momento da chamada de nosso voo.  Então seguimos à alfândega e à sala de embarque. E foi ali que tivemos a surpresa de encontrar dois amigos de Túlio, o Pedro “Barrigas” e o Carlinhos. Estavam fazendo um roteiro parecido com o nosso e, como eram tarimbados viajantes do Cone Sul, nos ajudaram nos primeiros contatos com a língua, em Montevidéu, como nossos intérpretes.

            A viagem entre Porto Alegre e Montevidéu, pelo Boing da Cruzeiro, durou pouco mais de uma hora e foi muito tranquila. O aeroporto da capital uruguaia, Carrasco, era muito velho e desconfortável, retratando, provavelmente, a crise financeira que o país atravessava naquele momento. Aliás, os problemas econômicos foram, sem sombra de dúvida, os temas prediletos em todas as rodas de conversa nos doze dias de nossa viagem pelo Uruguai, Argentina e Chile.

            O trajeto do aeroporto até o centro de Montevidéu foi feito de táxi, já que o Carlinhos fez questão de andar de Mercedes! Em compensação, a corrida de 25km custou-nos a bagatela de Cr$ 10.000,00, aproximadamente 470 pesos uruguaios. Essa foi uma primeira lição: o câmbio sempre reserva surpresas para os viajantes. Chegando ao centro, nos dirigimos ao Banco do Brasil para receber a ordem de pagamento que havíamos remetido do Brasil. As surpresas continuaram, e nada agradáveis: havíamos adquirido U$1.000 em Blumenau, dos quais U$200 recebemos em espécie e U$800 fomos obrigados, por determinações legais, a remeter por OP (além dos 30% da máxi decretada três dias antes pelo governo, pagamos mais 25% de IOF e cerca de Cr$ 15.000,00 de taxas de telex e serviços). Foram duas OP, de 400U$ cada, para serem sacadas no BB de Montevidéu e que sofreram um desconto de 15U$ (480 pesos uruguaios ou Cr$ 11.000,00) referente a novas taxas que o banco cobrou. Só que o Banco do Brasil nos pagou em pesos uruguaios na cotação de 30 pesos por dólar. Depois de muita discussão com os funcionários do Banco, ficamos sabendo que poderíamos converter os pesos recebidos em dólares novamente, já que o câmbio no Uruguai é livre, porém, pagando 32 pesos por dólar. Ou seja, perdemos U$50, que somados com os U$15 das taxas, tivemos uma perda do U$65 (Cr$ 32.000,00 no câmbio oficial do Brasil). Para encurtar a história, o dólar no câmbio oficial no Brasil estava cotado, no dia da compra, em torno de Cr$ 380 e nós pagamos Cr$ 493 e, ao recebermos no Uruguai, depois de tantas taxas e perdas, ele nos saiu em torno de Cr$ 592,50. O Uruguai nos deu um susto: quando fomos tomar uma cervejinha com nossos dois amigos, vimos que 1 Barão convertido em pesos não pagava nem duas “loiras”. Dentro desse contexto, aproveitamos para passear pelo velho centro histórico da capital, uma vez que Oscar e Mariza nos esperavam, à noite, em Buenos Aires.

            Decididamente, nosso passeio nessa tarde cinzenta não conseguia emplacar, pois mal começamos a andar pelas ruas do centro, uma fina chuva e um ventinho enjoado tornaram-se uma indigesta companhia. Como se não bastasse a chuvinha, um cachorro buldog que vagava por aí, também resolveu nos fazer companhia. Apesar de tudo, tiramos boas fotos, sentamos nos bancos da praça e observamos os velhos e as crianças jogando comida para os pombos.

Às 18:00 retornamos de ônibus (micro) ao aeroporto. A bela paisagem amainou os percalços sofridos naquele dia. Lentamente percorremos as avenidas marginais do Rio da Prata, ornamentadas com belos jardins e casas, castelos e cassinos. O Rio também recebeu uma roupagem especial, com o colorido dos barcos atracados no iate clube.

            A taxa de embarque, no aeroporto, foi a última surpresa no Uruguai, em termos monetários: nos custou em torno de Cr$ 3.000,00 por pessoa.  O voo até a capital portenha foi pela Aerolíneas e durou cerca de 30 minutos, sem ao menos servirem um cafezinho. Aterrizamos no Aeroparque, no centro da cidade, e tivemos as bagagens rapidamente liberadas. Na saída da Aduana já nos esperavam Oscar e Mariza, amigos simpáticos e alegres. A viagem, de verdade, estava começando neste momento. Oscar dizia gostar muito do Brasil, o que nos fez sentir em casa, em companhia deles. Num primeiro passeio, naquela noite, levaram-nos para conhecer Buenos Aires:  a começar, pelo próprio Aeroparque, depois o Parque Palermo, Estádio do River, Planetário, Universidade, Avenida Corrientes, Avenida 9 de Julio, Obelisco, enfim, o centro do comércio mais agitado da América, segundo eles, com sua Calle Florida, Lavalle e outras. Como era segunda feira, dia de semana, Oscar nos levou para conhecer seu negócio, na Galeria do Metrô, sob o Obelisco.

            Quando então o cansaço se fez sentir, fomos ao Restaurante “Los Imortales”, na Calle de Los Cines, para degustar uma pizza à moda argentina. O último programa desta primeira noite agitada portenha, foi conhecer a casa destes amigos, onde também ficamos hospedados. Deixaram a casa à nossa disposição e se acomodaram na casa dos pais de Oscar.

            02 de março (quarta): às 9:00 acordamos com a campainha tocando. Oscar e Marisa estavam de volta, trazendo pães frescos para o café da manhã. Delicioso e consistente pão, sem bromato. Ambos faltaram ao serviço naquele dia, para ficar conosco, o que foi maravilhoso. Marisa era funcionária do Correio.

            Após o café, saímos para conhecer Buenos Aires, desta vez de dia. Começamos passando de novo pela loja de Oscar, na Galeria do Metrô. Depois seguimos para a Calle Florida com suas galerias e butiques. Em seguida, a 9 de Julio, Av. Corrientes, algumas ruas adjacentes, Praça do Congresso, Plaza de Mayo, Plaza San Martin, Torre de Los Ingleses, finalizando no terraço do Hotel Sheraton.

            Ao meio-dia paramos para almoçar e conhecer o famoso “lomo” (filé de gado, muito macio) acompanhado de “papas fritas” e regado com um bom vinho de Mendoza (o de Salta também é muito apreciado). O lomo, ou lomito, é o prato de carne preferido dos argentinos.

            Na parte da tarde passeamos pelos bairros do Once, Belgrano, zona portuária e o famoso bairro do Boca, onde estão os restaurantes italianos mais caros de Buenos Aires. Ao final do dia retornamos a Quilmes, para a casao de nossos amigos.  Fizemos um lanche, arrumamos nossas malas e seguimos para a estação dos Ferrocarriles de Retiro, onde embarcamos no trem as 20hs com direção à Mendoza. A viagem durou mais de 14 horas, através de uma paisagem monótona, por sobre uma planície ininterrupta ao longo dos quase mil quilômetros. Felizmente viajamos à noite e, apesar do cansaço, pois tínhamos caminhado muito durante o dia anterior, a viagem noturna evitou que perdêssemos um dia de passeio. Foi por orientação de Oscar que viajamos no trem noturno, pois nossa preferência era viajar de dia.