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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Contos Poloneses: O Basilisco


O Basilisco 

Havia uma vez uma velha e abandonada ruína na rua Krzywe Kolo, na parte antiga da cidade de Varsóvia. Todos sabiam que em algum lugar no porão da casa havia um grande tesouro. Contudo, o tesouro era guardado por um monstro chamado Basilisco que tinha a cabeça de um galo e o corpo de um réptil, com escamas tão duras e fortes que espada de cavaleiro algum era capaz de cortar. No entanto, mais perigosos eram seus grandes olhos vermelhos e amarelos, que matavam qualquer um que os olhasse diretamente. Todos os que haviam sido corajosos o suficiente para entrar na casa em busca do tesouro morreram quando olharam naqueles olhos.

Um dia duas pequenas crianças, um menino e uma menina, irmãos de uma família pobre, se perderam na cidade. Eles vagaram pelas ruas da cidade de mãos dadas até que começou a chover. Para fugir da chuva buscaram abrigo em uma casa velha que não tinha portas. O que eles não sabiam é que aquela era a casa de Basilisco!

Dentro da casa as crianças viram apenas poeira e antigos móveis quebrados. Enquanto eles decidiam o que fazer ouviram um barulho arrepiante de algo subindo as escadas do porão. Assustados eles se esconderam atrás de uma antiga penteadeira.

Basilisco subira as escadas porque ouvira barulhos no andar de cima. Olhou o quarto mas não olhou atrás da penteadeira, pois pensou ser um lugar muito pequeno para um homem adulto se esconder. As crianças espiaram e viram-no, mas seus temíveis olhos não olhavam na sua direção. Sem achar ninguém no andar de cima, o monstro praguejou, rosnou e deslizou de volta para o porão.

Agora as crianças sabiam do perigo que corriam, pois já tinham ouvido sobre o monstro e seu tesouro. A primeira coisa que pensaram foi sair correndo e fugir o mais depressa que pudessem. Mas no chão, atrás da penteadeira, havia um velho espelho quebrado; ao vê-lo o menino teve uma ótima ideia. Ele disse para sua irmã correr para o lado de fora e esperá-lo, mantendo os olhos longe da casa. Quando ela já havia saído, o menino pegou o maior pedaço do espelho que conseguiu e foi com ele até o topo das escadas, segurando-o em frente ao seu rosto. Ele sentia muito medo, mas pensava em seus pais, tão pobres, e em como seria bom poder levar-lhes o tesouro. Então ele bateu o pé com força no chão de madeira e gritou “Basilisco! Basilisco, seu grande lagarto, venha me pegar!”

Na mesma hora o monstro saltou escada acima. Saindo da escuridão do porão para a luz do andar de cima, o Basilisco olhou em volta e seus olhos encontraram o seu reflexo no espelho. Assim que encontrou o seu próprio olhar, caiu morto!

Quando o povo de Varsóvia descobriu que o Basilisco não existia mais, exaltaram o menino por sua bravura e inteligência. Depois ajudaram as duas crianças a voltar para casa com o tesouro e entregar para seus pais, que ficaram surpresos. A velha casa foi demolida e um restaurante fino foi construído no seu lugar, na rua Krzywe Kolo. O nome do restaurante é “Sob o Basilisco”.

Até hoje, quando uma pessoa olha para outra de um jeito maldoso, as pessoas na Polônia dizem que ela tem um “olhar de Basilisco”.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Contos Poloneses: Noite de São João


NOITE DE SÃO JOÃO

Desde há muito tempo o povo eslavo mantém viva a celebração, ao ar livre, dia 23 de junho, a primeira noite do verão.
A Polônia se tornou uma nação cristã no ano de 996 e, a partir de então, esta noite passou a chamar-se “Noite de São João”. Era sempre uma época de muita diversão, magia e romance; além dos festejos de boas-vindas aos meses vindouros, meses de calor. Alguns dizem que nestas noites os demônios e as bruxas saem das trevas para pregar peças e se divertir.

Assim que o sol se põe, grandes fogueiras são acesas ao longo das margens de lagos e rios. Os jovens, seguindo a tradição, pulam por cima das fogueiras demonstrando coragem e ousadia. As moças se vestem com vestidos longos e de cor clara. Trazem coroas de flores nas cabeças e cantam e dançam em volta das fogueiras.  Então, armas atiram: é o sinal em que as moças solteiras atiram suas coroas nas águas e sua sorte poderá estar lançada, dependendo do caminho que as coroam fizerem sobre as águas. Os jovens solteiros tentam pegar as coroas, com varas compridas, em pequenos barcos ou mesmo pulando na água e nadando em busca de alguma. Conta a lenda que o jovem possuidor de uma dessas coroas se casará com sua respectiva dona. Muitos casais iniciam seu namoro nesta noite alegre e festiva.

Há muito tempo atrás, um jovem muito pobre e desajeitado, de nome Jasiu (Jack em polonês) morava perto do rio Narew. Jasiu não tinha sorte na Noite de São João, pois era muito lento e não conseguiu pegar a coroa de sua amada. Para piorar a situação, tinha chamuscado sua calça nova ao pular uma fogueira. Estava muito triste quando, no caminho de volta pra casa, encontrou uma senhora muita velha. “Pobre Jasiu”, disse a velhinha. “Mas, talvez esta lhe seja uma noite de sorte! Na floresta há uma planta que floresce apenas uma vez no ano, e é na Noite de São João! Esta planta tem uma flor vermelha e, quem colher esta flor, tem direito a fazer um pedido.”

Sem mesmo agradecer a velha senhora, Jasiu correu pela floresta adentro, à procura da flor. Não demorou muito para encontrar a flor mágica! Colheu-a e gritou: “Desejo ser muito rico!” No mesmo instante viu-se vestido como um príncipe, com todos os seus bolsos cheios de ouro e moedas.

Jasiu retornou à cabana do seu pobre pai, mas nenhum dos parentes o reconheceu. Se aproveitando da situação, também não lhes disse quem era. Em vista disso, foi à cidade desfrutar do seu ouro, deixando sua família com nada mais que uma moeda.

Os anos se passaram e Jasiu continuava rico, até que um dia sentiu muita solidão e saudades de casa. Decidiu retornar à casa paterna, mas seus pais já tinham morrido na pobreza e todos os amigos tinham ido embora. Jasiu emagreceu tal qual um graveto, de tanta tristeza. Sofreu o resto de sua vida, ressentido por sua fortuna e falta de solidariedade. Aprendera muito tarde que ninguém pode ser feliz, a não ser que compartilhe tudo o que tem com os outros.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Contos Poloneses: A Torre de Popiel


A TORRE DE POPIEL

Há muito tempo atrás havia um rei muito ganancioso chamado Popiel, que não se importava com o bem-estar dos seus súditos. Sua esposa, Hilderica, era tão gananciosa quanto ele e ainda mais cruel. Popiel sempre fazia tudo o que ela o aconselhava a fazer.
O castelo de Popiel ficava às margens do Lago Goplo, próximo a cidade de Kruszwica. Uma imponente torre fora construída em uma ilha no meio do lago e era lá que Popiel guardava todos os grãos que coletava dos camponeses, como pagamento dos impostos.
Houve um ano de tempo ruim, e as colheitas não foram boas. O povo estava faminto, mas o rei Popiel se recusava a dar-lhes parte dos grãos que tinha em sua torre. Como Popiel tinha muitos irmãos, o povo começou a pensar em matá-lo e fazer um de seus irmãos rei.
Quando os espiões de Hilderica lhe contaram o que o povo andava comentando, ela mandou seu marido convidar todos os familiares para um grande banquete. Ela planejava envenená-los todos, pois assim não haveria ninguém para reinvindicar o trono. Popiel ficou horrorizado e a princípio se recusou a participar do plano, mas acabou convencido. Na noite do banquete o rei e a rainha receberam calorosamente os seus convidados, no entanto serviram-nos com vinho envenenado. Todos os doze convidades morreram e Popiel ordenou que jogassem os corpos no lago.
Na mesma noite a cidade foi atacada por milhares de ratos famintos. Os ratos não conseguiram achar nada para comer nos campos secos e assim alimentavam-se de qualquer resto de comida que conseguiam achar em Kruszwica, enquanto o povo da cidade fugia para se proteger. Então os ratos correram para o castelo, atraídos pelos corpos que haviam sido jogados no lago. Os guardas fugiram enquanto os roedores corriam para dentro do castelo pelas portas e janelas. “Rápido,” gritou Hilderica “Nós temos que ir para a torre no lago, lá os ratos não podem nos seguir!”
Popiel e sua esposa tomaram um barco e remaram para a ilha, mas os ratos nadaram atrás deles, cobrindo a superfície do lago de cinza. Os ratos queriam os grãos que cheiravam de dentro da torre e assim, dia e noite roíam a porta de madeira com seus pequenos e afiados dentes, até que conseguiram abrir buracos nela. Os perversos monarcas morreram de uma maneira terrível e por anos as ruínas da torre permaneceram para lembrar seu egoísmo.

domingo, 26 de abril de 2020

Contos Poloneses: O Tesouro de Boruta


O TESOURO DE BORUTA
Na cidade de Lódz, tempos atrás, morava um cavaleiro chamado Wiktor, cuja força e coragem fizeram-no conhecido por toda a Europa. Depois de longos anos de treino e prática se tornara um mestre na arte da espada e conquistara tantas vitórias que seus inimigos fugiam quando vinha desafiá-los. Todos os outros cavaleiros e nobres poloneses tinham o cuidado de não provocá-lo. No entanto, Wiktor tinha um fraco por comidas, bebidas e belas moças. E tolamente acabou gastando todo o seu dinheiro com banquetes e festas para seus amigos. Tão logo gastou tudo o que tinha, perdeu suas terras e ficou tão pobre que teve de vender seu cavalo para comprar comida.

Naquela época, um demônio chamado Boruta habitava as ruínas do Castelo Leczyca, nas proximidades de Lódz. Ninguém se atrevia a chegar perto do castelo, embora todos bem soubessem que Boruta tinha todo o seu tesouro escondido nas profundezas das masmorras.
Como o cavaleiro precisava de dinheiro, decidiu pegar o tesouro de Boruta. Ele tinha tanta confiança em si mesmo, em suas habilidades e em sua força, que não teve medo algum quando entrou sozinho no castelo e seguiu pelos labirintos das masmorras adentro. Depois de vagar por um bom tempo, Wiktor entrou em uma câmara cheia de ouro e prata. Havia uma coruja empoleirada sobre a pilha de tesouros. Era Boruta, que se transformara quando sua mágica lhe avisara que Wiktor havia entrado no castelo. O demônio também conhecia a fama de Wiktor e tinha medo de atacá-lo.

“Talvez você nunca mais encontre esta câmara” disse a coruja. “É melhor levar uma boa quantia do tesuro!” Wiktor encheu uma grande sacola com ouro e quando estava prestes a sair, a coruja guinchou: “Leve mais, leve mais! Por que não ser o homem mais rico da Polônia?” O cavaleiro encheu mais uma sacola e quando se virou para a porta a coruja gritou mais uma vez: “Leve mais! Leve mais! Por que não ser o homem mais rico do mundo?” Ao ouvir isso, o cavaleiro ficou ganancioso, encheu uma terceira sacola e ainda estufou os bolsos com moedas. Então, cambaleante, quase incapaz de carregar todo o tesouro, saiu da câmara do tesouro enquanto a coruja o observava e ria.
Wiktor ficou perdido por muitos dias e noites no labirinto sob o castelo, mas continuava carregando suas sacolas com dinheiro, sem deixar sequer uma moeda para trás. Quando  finalmente conseguiu sair do castelo, o inverno havia chegado. Ele seguiu quase se arrastando para casa, sempre carregando o pesado tesouro nas costas.

Embora não tenha se tornado o homem mais rico do mundo, agora era um cavaleiro muito rico. Mas o frio e o peso do ouro haviam destruído sua coluna e sua saúde para sempre. Wiktor nunca se recuperou e jamais voltou a levantar uma espada novamente. Os outros cavaleiros já não o respeitavam mais e as belas moças admiravam apenas o seu dinheiro.
E lá na sua câmara de dinheiro o Demônio Boruta apenas ria e ria.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Contos Poloneses> O Corneteiro e os Tártaros


O CORNETEIRO E OS TÁRTAROS

Há muito, muito tempo atrás, era possível avistar-se a cidade de Cracóvia do alto das duas torres de Mariacki, a Igreja de Santa Maria. Um sentinela munido de sua corneta estava sempre a postos num pequeno recinto próximo ao topo das torres. O sentinela vigiava a cidade durante o dia e durante a noite. Quando ele avistava um princípio de incêndio ou qualquer outra emergência, tocava imediatamente sua corneta. Assim, alertava as pessoas que circulavam na Praça do Mercado e nas proximidades da Igreja a respeito do perigo. Então, ele descia rapidamente e fazia saber às pessoas o local do incidente e estas podiam, assim, extinguir as chamas do incêndio ou prestar o auxílio que ora se fazia necessário. O homem, a quem tinha sido confiada a tarefa de sentinela, levava esta incumbência muito a sério. Ele sabia que o povo de Cracóvia dependia dos seus toques de corneta em tempos de perigo.

No século 13, os violentos Tártaros invadiram o país, destruindo campos e cidades, saqueando e matando. Numa noite santa, enquanto a maioria dos moradores estava na Igreja, uma horda de Tártaros entrara furtivamente na cidade, com o intuito de atacar de surpresa. No entanto, o jovem sentinela avistou-os da torre, avançando sorrateiramente pelas sombras. Soprou a corneta  em alto e claro tom., o que fez com que os moradores de Cracóvia saíssem correndo da Igreja em defesa de seus lares.

Irritados, os Tártaros lançaram suas flechas para cima, na torre, em direção ao sentinela. O jovem valente e intrépido continuou a soar o alarme até que, de repente, foi atingido por uma flecha no pescoço. O sentinela caiu morto, mas o inimigo já estava batendo em retirada frente à coragem dos moradores. Assim, a cidade foi salva.

Deste dia em diante, outros sentinelas ocuparam o posto na torre, tanto de dia quanto de noite. A cada hora este corneteiro toca um pequeno hino chamado “The Hejnal”. O hino é tocado quatro vezes: uma vez em direção ao oeste, outra vez em direção ao sul, depois em direção ao leste e, finalmente, em direção ao norte. E cada vez que toca o hino, encerra-o repentinamente com uma nota alta, em honra ao sentinela que deu sua vida pelos cidadãos de Cracóvia.

Se você estiver em Cracóvia e observar a torre de Mariacki, poderá ouvir e comprová-lo.



quinta-feira, 23 de abril de 2020

Contos Poloneses: O Dote da Rainha Kinga


O DOTE DA RAINHA KINGA

Num dia do século XI, o rei da Hungria trouxe para a princesa Kinga, sua filha, a feliz notícia que ela se casaria com o p´rincipe da Polônia, de nome Wladislau, o Tímido. “E o mais importante”, disse o velho rei, “você terá o que desejar como dote”.
 da noiva entrega ao novo marido para partilharem juntos em sua vida. Em geral o dote de uma princesa é uma fortuna em ouro e jóias. Mas, para espanto de seu pai, Kinga disse: “a única coisa que desejo para meu dote é uma mina de sal.”

Nestes tempos o sal era muito caro e importante porque era a única coisa que as pessoas tinham para conservar os alimentos. A Hungria se tornou um reino rico por causa de suas minas de sal. O rei não podia dar nenhuma destas preciosas minas, mesmo para sua amada filha; e ela foi para a Polônia com muitas outras doações e sem o dote que ela tanto desejava.



Ora, o dote é uma doação, um presente de matrimônio que a família
Quando chegou à Polônia, indagou se alí havia minas de sal. Foi-lhe dito que havia uma pequena mina perto da vila de Wieliczka, mas todo o seu sal havia sido retirado. Ela então pediu para que pudesse visitar a mina. As pessoas daquela vila, que empobreceram porque a mina há muito não lhes provinha mais trabalho, reuniram-se perto da mesma a fim de receber a visita real. Imaginem a surpresa deles quando a princesa tirou do dedo seu anel de noivado e arremssou-o no interior da mina!

“Por favor, cavoquem na mina para encontrá-lo”, disse a princesa ao povo. “Aquele que o encontrar receberá um prêmio”. Se você procurar pelo anel, cave o mais profundamente possível e tente encontrar sal porque nosso país necessita muito de sal.

Semanas mais tarde, nos festejos das bodas de Kinga e Wladislau, o povo de Wieliczka anunciou um novo e enorme depósito de sal encontrado na mina e  de presente ofereceram ao casal um enorme bloco de sal. Em seu interior estava o anel de noivado de Kinga! Ninguém ousou reivindicar o prêmio; o povo de seu novo país deu à rainha o seu dote.


O sal das minas polonesas foi comercializado em todo o mundo por ouro, especiarias, prata e cetim. O país tronou-se rico e todas as pessoas viviam melhor por causa do sal. A mina de Wieliczka desenvolveu-se com tres milhas de túneis e produz sal até aos dias de hoje. Além disso, numa enorme galeria, nas profundezas da mina, os mineiros construiram uma linda capela e lhe deram o nome de rainha Kinga, sua protetora.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Contos Poloneses: O Dragão de Wawel


O DRAGÃO DE WAWEL


Tempos atrás, em uma carverna nos pés a Colina Wawel, morava um terrível dragão cuspidor de fogo. Este dragão vagava pelos campos livremente, comendo ovelhas e gado, e assim os camponeses não tinham coragem de pastorear os animais perto de suas lavouras no rico e verde vale próximo ao Rio Vistula. Muitos bravos cavaleiros cavalgaram em busca de combater o monstro, mas o dragão cuspia rios de fogo que matava os cavaleiros antes mesmo que suas lanças e espadas estivessem perto o suficiente para tentar atacar o dragão.
O rei então enviou mensageiros por toda a Europa, anunciando que o homem que livrasse o seu país deste terrível dragão teria a mão de sua bela filha em casamento e se tornaria rei daquelas terras após a sua morte. Cavaleiros e Nobres vieram de todas as partes em busca desta bela recompensa; no entanto, um após o outro, eram mortos e devorados pelo dragão, bem como seus cavalos. As pessoas temiam sair de suas casas e o reino foi ficando cada vez mais pobre.
Então um dia um jovem aprendiz de sapateiro chamado Krak veio diante do rei anunciar que tentaria matar o dragão. “Todos são bem-vindos a tentar”, disse o rei infeliz, “mas você não tem nem armadura, nem cavalo, nem sequer uma espada”. “Eu tenho apenas o meu conhecimento e minhas ferramentas de sapateiro” Krak respondeu, “mas armadura e espadas até hoje não ajudaram e, além disso, eu tenho um plano que pode acabar com esta temível criatura”. Então o rei desejou a Krak boa sorte, e a princesa desejou sucesso ao jovem e belo rapaz.
Krak comprou um carneiro morto de um açogueiro e abriu-lhe a barriga com a sua faca de sapateiro. Depois, encheu o animal com enxofre, pó do qual os fósforos são feitos, e costurou-o de volta com sua linha de sapateiro. Krak deixou o carneiro no caminho da caverna do dragão para o rio e escondeu-se atrás de uma pedra para observar.
Depois de algum tempo o dragão saiu de sua caverna. Ele era ignorante e ganancioso, e quando viu o carneiro morto, engoliu-o de uma vez só, sem sequer parar para pensar em como o carneiro viera parar ali. O enxofre fez o fogo na barriga do monstro ficar muito quente. Então ele correu até o rio e bebeu, bebeu, até que ficou estufado como um balão. Deitou-se de costas e resmungou.
Krak saltou detrás da pedra e chamou o dragão e jogou pedras nele. O dragão tentou curpir fogo no rapaz, mas a água havia apagado o fogo dentro dele e agora tudo o que conseguia fazer era arrotar fumaça. Mesmo assim, o dragão se esforçava e continuava tentando, até que, estufado como estava, explodiu com um estrondo que foi ouvido a milhas de distancia. O povo estava enfim livre dele!
Krak casou-se com a princesa e, depois que o rei morreu, tornou-se rei. Construiu um castelo no topo da Colina Wawel e todos os reis da Polônia ali viveram por centenas de anos. Em volta da colina o povo construiu a cidade que chamou-se Krakóvia, em homenagem ao novo rei. A caverna do dragão ainda pode ser vista hoje em dia e, perto do rio, há uma bela estátua do dragão, marcando o lugar em que a inteligência ganhou da força.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Contos Poloneses: A Rainha do Báltico


A RAINHA DO BÁLTICO


 Há muito, muito tempo atrás, o Mar Báltico era governado por uma formosa rainha de nome Jurata que vivia num palácio de âmbar abaixo das ondas. Ela era muito amada e bela de se olhar, com seus longos cabelos dourados e olhos verdes da cor do mar, que mesmo Percun, o terrível deus dos trovões e relâmpagos, apaixonou-se e não permitia que suas tempestades perturbassem as águas do reino.

Jurata era gentil e bonita, e instituiu leis para proteger suas criaturas marítimas. Uma das leis proibia  qualquer um de armar redes para capturar muitos peixes de uma só vez. Embora a rainha gostasse de comer linguado frequentemente servido no jantar, ela ordenara aos serviçais que preparassem apenas metade de cada peixe e que libertassem a outra metade, a qual permanecia viva por causa de sua mágica. Esta é razão do linguado ter uma forma estranha até hoje.

Nas costas do Báltico vivia um jovem pescador que tinha espírito atrevido e descuidado, além de pouco bom senso. Sabendo da lei de Jurata, secretamente lançou armadilhas com redes na cabeceira de um rio e pescou grande quantidade de peixes que vendeu aos moradores da região. E ele gastou a maior parte do dinheiro com a confecção de finas roupas para si mesmo.

A rainha ficou muito zangada quando seu peixe falou-lhe sobre as redes. Ela deciciu nadar até a praia, atrair o pescador para dentro das águas e afogá-lo. Mas quando Jurata viu o jovem esbelto em suas novas roupas, apaixonou-se no mesmo instante, assim como ele apaixonou-se por ela. E todas as noites ela nadava até a praia para encontrar o seu amado.

No entanto, Jurata havia violado sua própria lei, pois os deuses haviam dito que seres mágicos devem amar apenas os da sua própria espécie. Percun estava enciumado e furioso. Destruiu o palácio de âmbar com Jurata em seu interior e ela mesma nunca mais foi vista. Percun então aprisionou o jovem pescador no fundo do mar. Mesmo quando sopram fortes ventos de tempestade sobre as ondas do mar, o jovem pescador pode ser ouvido, clamando por seu amor perdido. Tudo o que sobrou do palácio de Jurata são os fragmentos de âmbar que o mar sempre lança nas praias do Báltico.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Conto Polonês: Os 3 Irmãos


OS TRÊS IRMÃOS
                Há anos passados uma tribo estava migrando pelo mundo à procura de um lugar que fosse seu lar. O velho chefe morreu durante a jornada e as pessoas da tribo foram deixadas aos cuidados de seus três filhos cujos nomes eram: Lech, Czech e Rus. Lech era o primogênito e assim tornou-se o chefe; mas seus irmãos ficaram enciumados e frequentemente os três discutiam sobre qual deles seria o melhor líder.
                Após meses de exaustiva viagem, a tribo chegou ao topo de uma pequena montanha numa terra de verdes campinas. No topo da montanha havia um carvalho gigante e, acima de sua copa, voava uma enorme águia branca.
                “Esta águia é um bom sinal dos deuses”, falou Lech aos irmãos. “Subirei a árvore e olhar em volta”.
                Assim que Lech subiu na árvore encontrou o ninho da águia entre os galhos mais altos. A águia sobrevoou próximo a ele e não o deixou aproximar-se do ninho; mas ele subiu o suficiente para avistar milhas adiante e em todas as direções do horizonte.
                Ao norte Lech avistou um vasto oceano. A leste ele via uma planície extensa e terra fértil; e ao sul havia cadeias de montanhas nas quais se podia apascentar ovelhas e gado. Ao oeste havia uma densa floresta escura.
                Lech desceu da árvore e narrou aos irmãos o que havia visto. Czech disse-lhes que desejava ir para o sul e Rus arguiu que o leste era o melhor caminho. Finalmente os três irmãos decidiram separar-se. Czech e Rus foram seguidos pelas pessoas que concordavam com eles; mas a maioria permaneceu com Lech e perguntaram-lhe qual caminho planejava seguir.
                “Bem, ficaremos justamente aqui!” Respondeu-lhes.
                Assim, ali começaram a construir uma cidade sobre a montanha e Lech escolheu a águia branca com as asas abertas como emblema. Deram o nome de “Gniezno”, que significa “ninho” na antiga língua eslava. A cidade tornou-se a capital do país, chamado de “Lechits”, por causa de seu líder. Com o passar do tempo o país ficou conhecido por Polônia, porque “pole” significa campo, ou, campina.
                Os outros irmãos fundaram nação no sul e no leste e ainda levam seus nomes: Czechoslovakia e Russia. Embora eles tenham originado de um único povo, seus descendentes nem sempre foram vizinhos cordiais, tal qual os tres irmãos; e as nações tem enfrentado desavenças.