O ano: 1984. Ano em que mudamos de Blumenau para Florianópolis, no mês de janeiro. Novos ventos, novos rumos, novas perspectivas. E enfim tínhamos um lugar mais promissor para as terapias e o desenvolvimento do Vinícius, o filho portador de Síndrome de Down.
E foi desta Ilha que acompanhei a grande travessia, talvez maluca travessia no Atlântico, de Amyr Klink. Santos sejam louvados... mas como alguém, em sã consciência, faria uma travessia tão alucinada, de um ponto da África até o Brasil?
- Tá, ele tem um barco a motor... ou à vela...
- Não! É de remo...
- Remo?...
E as notícias pelos jornais, rádio e televisão não paravam de noticiar a aventura e eu ficava cada vez mais curiosa.
- Ele vai ser engolido pelos tubarões... não tem como. Num barco de remo?
Ou vai ser tragado pelas imensas ondas do Atlântico. Pensa: um barquinho que é um tiquinho de tamanho, enfrentando a voracidade do oceano. Tem noção do perigo?...
- O barco é todo fechado. Tipo cápsula. Quando avista o perigo, se fecha na cápsula...
- Mas... e como vai atracar no Brasil, sem motor, sem saber onde está indo... vai se perder na imensidão do mar...
- Nada! Está tudo planejado, tudo calculado...
- Calculado???
- Sim! Cartas náuticas, bússolas e o mais importante: as correntes marítimas! São elas que vão conduzir o caminho.
- Mas nunca ninguém fez uma viagem assim. E a comida? E as horas? Sem comissário de bordo... só piloto, simples remador. Convenhamos, um piloto muito ousado. Que Deus o acompanhe. Amyr, no seu livro "100 dias entre céu e mar" descreve assim a partida:
"O dia começou a nascer, envolto em uma neblina baixa que fazia as altas dunas do deserto parecerem nuvens sobre o horizonte."
Os conselhos antes da partida, para desistir, foram muitos. Mas houve também, quem o incentivou, tudo por causa do "dossiê amarelo". E os dias foram se passando e as notícias acompanhando o quanto dava, de todo seu trajeto. As perguntas eram inúmeras e as respostas sempre as acompanhavam. Então, ficávamos sabendo de como dormia, como comia, como planejava os dias, as tempestades, os tubarões, as ondas gigantescas... Houve um dia em que se perguntou, em voz alta, já em alto-mar:
"Que diabo vim fazer aqui, neste lugar maluco?"
Ficamos sabendo que o barco tinha um dispositivo que não permitia virar; ou, se virasse, desvirava. Não emborcaria nunca. Os 'lastros' eram para isso, o que foi um verdadeiro alívio para esta espectadora. E uma surpresa saber que um dispositivo assim pudesse existir. A engenharia e a engenharia naval são realmente fantásticas! E Amyr conta detalhes de sobrevivência, como por exemplo, o acondicionamento dos mantimentos, as ferramentas e ferramentinhas, rádios, âncora, diário, cama, travesseiro, fogão... até uma carta trouxe para ser entregue no Brasil: Sedex? "Poste até às 10hs e será entregue em 100 dias!!!" - E assim aconteceu.
"O mar fazia muito barulho e foi difícil dormir. Volta e meia alguma onda passava por cima, enchendo o cokpit." (p.58)
Meu pai foi remador num clube de remo, em Blumenau. Era apaixonado pelo remo. Suas últimas palavras, no leito de morte, foram sobre o clube. Quando jovem, ele e alguns amigos começaram a construir um barco, tal era a paixão deles pelo mar. Em casa tínhamos uma batera, uma canoa, que era usada tanto no rio quanto nas enchentes que assolavam Blumenau. Ela era ótima, toda de madeira e era larga, o que permitia boa flutuação e acomodar várias pessoas. Muitas foram as travessias de pessoas, de um lado da rua para o outro, nesta batera, em dias de enchente.
Então quando ficamos sabendo da aventura de Amyr, era comum entabular conversas a respeito. Lembro que meu pai tinha respostas para muitas dúvidas que surgiam, pela proximidade que ele tinha com a navegação.
E aconteceu, agora em julho de 2026, a ida à FLIP, a convite da filha Heloisa. Ficamos de terça à domingo em Paraty, aproveitando tudo o que era possível, pois a programação foi maravilhosa e bem
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| Marina, esposa de Amyr |
extensa. E numa destas tardes, assistimos uma das mesas. A Mesa seria às 15hs, mas para não perder lugar, nos acomodamos num dos bancos às 14hs e não arredamos pé. Eu estava 'seguindo' minha filha e nem me dei conta do assunto. Perto de começar a Mesa, alguém estava online com Tamara Klink, no celular, mostrando a plateia e trocando informações sobre o evento. Foi então que fiquei sabendo onde tinha me metido... que Mesa era aquela! E era Marina, mãe de Tamara, que estava mostrando à filha aspectos do que seria a Mesa e que travava dum documentário sobre sua viagem ao Ártico. Tamara estava na Noruega, por isso não estava presente no evento. Era visível a felicidade de mãe e filha por aquele momento tão especial. E o documentário foi simplesmente maravilhoso. Como não comprar "Bom dia, Inverno!" depois de conhecer um pouco de sua história?
E, sabendo que Amyr estaria autografando na FLIP, lá fomos nós para mais uma fila em busca do seu autógrafo no livro dele, também adquirido. Sabia que existe arco-íris da lua? Amyr viu! E viu mais: Dourados, baleias, tubarões, tartarugas, gaivotas e mais gaivotas... ah, a ilha de Santa Helena: imperdível a tensão em torno da ilha de Santa Helena, da Costa dos Esqueletos... das muitas tempestades e ondas.
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| Amyr autografando |
Há uma carga de tensão que prende a leitura. E quando então a gente está mergulhado na aventura, lá vem uma dose de humor! Como não rir e sorrir, depois de quase ser tragado pelas ondas magníficas, tão bem descritas, quase naufragando entre África e Brasil... como por exemplo, quando fala do seu fogão:
"Gastando uma carga de gás por semana, eu ainda poderia cozinhar por seis meses, talvez até abrir uma restaurante especializado em desidratados e frutos do mar!"
Há 42 anos acontecia a aventura de Amyr, numa travessia louca, numa época em que não havia GPS e toda parafernália eletrônica que temos hoje em dia. Foram exatamente 100 dias. A chegada!... me surpreendeu. Lembro de alguns detalhes, comentados em 1984. Mas agora, conheci os detalhes descritos pelo Amyr. Aventura, sonho realizado, tensão e humor permeiam os capítulos de "100 dias entre céu e mar". Inimaginável!
Se vale a leitura? Demais!...
Em Paraty, eu e minha filha tivemos a oportunidade de conhecer Marina e Amyr e o barco IAT/Paraty, famoso barco que proporcionou a famosa travessia.