sexta-feira, 11 de setembro de 2026

11 Setembro 2001: meu pai esteve lá...


 Há 25 anos, meu pai esteve nos Estados Unidos, no dia do ataque às Torres Gêmeas do WTC. Mas, para contar essa vivência de meu pai, precisamos saber como foram os dias, as semanas anteriores.

Em julho de 2001 as "Teresa's", mãe e filha, tia e prima, viajaram para o Brasil, mais precisamente para Santa Catarina, com o fim de visitar mais uma vez a família Neuwiem. Mais do que isso: Teresa-mãe passaria um tempo a mais com sua única irmã, minha mãe Janina; ou Yanka, como era conhecida por muitos. Visitaram parentes e amigos e, depois de alguns dias, Teresa-filha voltou para os USA. 

Teresa-mãe ficou hospedada na casa dos meus pais, em Blumenau. Isto foi inédito na vida da minha mãe, que desde 1949 nunca mais ficara tanto tempo em companhia da irmã. E era sempre uma alegria muito grande, quando a visitava em Wilmington. Teresa veio ao Brasil pela primeira vez em 1988 e, nesta segunda vez, veio para ficar mais tempo, mais um mês, na verdade. 

Com os parentes, no Brasil

E então, quando setembro pronunciava a Primavera, meu pai Ingomar acompanhou-a de volta ao seu lar, me Wilmington. Este era o plano: Teresa-mãe ficaria na condição do cunhado acompanhá-la de volta para casa. Teresa era fluente em inglês, polonês e alemão, mas não no português.

Ok, dia marcado, mala empacotada, os dois embarcaram em Florianópolis rumo São Paulo e depois rumo Nova York. Tudo bem, tudo tranquilo. Meu pai ficava feliz cada vez que podia ajudar algum amigo ou parente. E se precisasse viajar, sim, faria isto também!

Os primeiros dias foram ótimos, com passeios e visita a amigos. Barbecue, hot-dogs e muito mais encantaram meu pai. Mesmo tendo passado o susto que passou, sempre expressava gratidão por estes momentos... 

Com os parentes, nos USA


Mas... passados alguns dias, o terror e o pavor se instalaram em nossas vidas quando os noticiários comunicavam o ataque ao World Trade Center.

Lembro que eu estava na sala da Administração da escola que os filhos frequentavam, pois fazia parte da Comissão Financeira, quando o administrador interrompeu nossa reunião e correu atrás de uma TV:

    - aconteceu alguma coisa em Nova York. E é sério.

Não sei como, uma TV foi localizada, ficamos estupefatos com o que se via e a reunião terminou por alí mesmo. Não havia clima para decidir mais nada.

Dias depois, como aluna do Curso de Letras, na UFSC, enquanto assistia uma palestra, um dos professores do Curso sentou do meu lado e comentou sobre o ataque:

    - você viu o que aconteceu em Nova York?

    - meu pai está lá...

    - o que? Como? - respondeu ele, sem entender nada...

    - ele viajou para levar minha tia de volta para casa. E o atentado aconteceu. Ele está apavorado. Não sabe se vai poder voltar no dia marcado.

Os aeroportos estavam todos fechados. Meu pai chorava cada vez que falávamos ao telefone:

    -isto aqui é um 'estado de guerra'... estou desesperado...

Mantínhamos contato frequente, para lhe dar suporte. Mas nós aqui, também precisávamos de suporte, pois não suportávamos a ideia dele não poder voltar. Desejávamos que tudo se resolvesse logo, e que poderíamos enfim estar juntos de novo.  

Foram dias intermináveis de angústia. Os parentes deram todo suporte necessário, do lado de lá, na questão de aeroportos, passagem, etc. Acolheram-no com muita atenção.

Enquanto isso, também procurávamos saber das possibilidades de viagem, etc.


 Ao dia marcado meu pai conseguiu embarcar e voltar ao Brasil, voltar para casa... Chorou muito, ao desembarcar... fui buscá-lo no aeroporto. Um enorme sentimento de alívio invadiu nossos corações, almas e corpos. A ficha ainda não tinha caído, sobre o que realmente acontecera... isto levou meses, anos, para acontecer.

E, não bastasse todo esse susto, esse desespero durante aqueles dias, ao chegar em casa, meu pai se deu conta que estava sem a 'pochete' (bolsa de cintura)... puxando pela memória, se deu conta de ter tirado no banheiro do aeroporto em São Paulo e não pegou de volta.  E lá se foram os poucos dólares e documentos... 


Teresa-mãe e Teresa-filha





sexta-feira, 28 de agosto de 2026

GOETHE e seus 277 anos... (Sérgio Campregher)


 Neste 28 de agosto comemoram-se os 277 anos de Joahnn Wolfgang von Goethe. 

Coincidências à parte, é também o dia de nascimento de minha avó paterna Emilie Schulz, nascida Blank, em 1904.

E o amigo Sérgio Campregher, escritor, historiador e membro do IHGSC-Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, postou o seguinte sobre Goethe:

Johann Wolfgang von Goethe, o gigante da literatura alemã nasceu em 28 de agosto de 1749, em Frankfurt am Main. Esta medalha comemorativa (da foto acima), foi encomendada pelo filho de Goethe, e cópias foram distribuídas aos convidados nas celebrações de seu 80o. aniversário, em 1829. Ao retratá-lo à maneira de uma figura do Renascimento, a medalha sintetiza o gosto e a afinidade do Goethe pela arte e pela literatura daquele período.

Faleceu em 22 de março de 1832, em Weimar. Foi escritor, poeta.

Aclamado gênio no Segundo Reich, suas ideias foram fundamentais para a instauração da República de Weimar, após a Primeira Guerra Mundial. Já na Alemanha Nazista, sua obra fora deixada de lado, pois suas ideias humanistas não cooptavam com a ideologia nazista.

Monumento em Viena

Grande interessado em culturas, Goethe não deixou de observar aspectos da cultura brasileira. Em sua biblioteca constavam 17 títulos de obras que tratavam do Brasil, além de estarem registrados empréstimos de livros do tema na biblioteca de Weimar.

Na literatura, Goethe influenciou autores de renome como Machado de Assis e Guimarães Rosa.

          

Lago di Garda-Itália

Educados, inicialmente, pelo próprio pai e, depois, por tutores contratados, Goethe e sua irmã receberam uma ampla educação que incluía o estudo de francês, inglês, italiano, latim, grego, ciências, religião e desenho. Goethe teve aulas de 
aulas de violoncelo e piano, além de dança e equitação. O contato com a literatura se deu desde a infância, através das histórias contadas por sua mãe e da leitura da Bíblia. A família tinha uma biblioteca que continha mais de 2000volumes.




Goethe começou sua viagem à Itália em 1786, tendo anteriormente interrompido três tentativas de fazer tal viagem. Ele viajou (quase sempre sozinho) de Carlsbad via Eger, Regensburg, Munique, Mittenwald, Scharnitz, Seefeld, Zirl, Innsbruck e Brenner, Bolzano, Trento no Lago di Garda (Torbole e Malcesine), em seguida para Verona, Vicenza, Pádua, Veneza, Ferrara, Cento, Bolonha, Loiano, Perugia, Terni e Città Castellana quanto tomou rumo a Roma, onde permaneceu por quatro meses. Ele então dirigiu, juntamente com o pintor Johann Heinrich Wilhelm Tischbein, via Velletri e Fondi para Nápoles. Ficou por lá quase cinco semanas, fez duas excursões ao Vesúvio e visitou Pompéia, Caserta, Cápua, Herculano e Paestum. Em seguida ele navegou para a Sicília, onde visitou Palermo, Alcamo, Castelvetrano, Sciacca, Girgenti, Caltanissetta, Catânia, Taormina e Messina. Seu retorno levou-o novamente a Nápoles, novamente a Roma. Aqui permaneceu por quase um ano, visitou a área circundante e dedicou-se ao estudo da antiguidade, especialmente exercícios práticos de pintura e desenho e a continuação de sua obra literária antes de ir à Páscoa no caminho de volta para Weimar. Ele encontrou Siena, Florença (que ele havia acabado de tocar na jornada da impaciência para finalmente chegar a Roam), Bolonha, Modena, Parma, Piacenza e Milão - estações que, no entanto, não são comentadas em sua jornada italiana.

Goethe e Schiller

A alegria e o amor são as duas grandes asas para os grandes feitos. Foi extraordinário poeta, dramaturgo, romancista, cientista e homem de Estado.


Mausoléu de Goethe, em Weimar. Capela russa ortodoxa Maria Madalena em Weimar, edificada em 1860. Ao lado da Capela, mausoléu de Goethe e Schiller. 

Agradecimentos ao historiador Sérgio Campregher pelo texto que tão bem nos dá uma visão da vida de Goethe e pela permissão em postar/publicar neste Blog.

Algumas da publicações de Goethe: *Os sofrimentos do Jovem Werther
                                                            *A Teoria das Cores
                                                            *As afinidades Eletivas
                                                            *Fausto (I e II)
                                                            *Os anos de Aprendizado de Wilhelm Meister

E se quiser conhecer "A viagem de Goethe ao Brasil", a Amazon tem exemplar por R$ 11.990,00.😲












 







sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Amyr Klink na FLIP - cenas de uma escritora

O ano: 1984. Ano em que mudamos de Blumenau para Florianópolis, no mês de janeiro. Novos ventos, novos rumos, novas perspectivas. E enfim tínhamos um lugar mais promissor para as terapias e o desenvolvimento do Vinícius, o filho portador de Síndrome de Down. 

E foi desta Ilha que acompanhei a grande travessia, talvez maluca travessia no Atlântico, de Amyr Klink. Santos sejam louvados... mas como alguém, em sã consciência, faria uma travessia tão alucinada, de um ponto da África até o Brasil?

- Tá, ele tem um barco a motor... ou à vela...
- Não! É de remo...
- Remo?...

E as notícias pelos jornais, rádio e televisão não paravam de noticiar a aventura e eu ficava cada vez mais curiosa. 

- Ele vai ser engolido pelos tubarões... não tem como. Num barco de remo? 
Ou vai ser tragado pelas imensas ondas do Atlântico. Pensa: um barquinho que é um tiquinho de tamanho, enfrentando a voracidade do oceano. Tem noção do perigo?...
- O barco é todo fechado. Tipo cápsula. Quando avista o perigo, se fecha na cápsula...
- Mas... e como vai atracar no Brasil, sem motor, sem saber onde está indo... vai se perder na imensidão do mar...
- Nada! Está tudo planejado, tudo calculado...
- Calculado???
- Sim! Cartas náuticas, bússolas e o mais importante: as correntes marítimas! São elas que vão conduzir o caminho. 
- Mas nunca ninguém fez uma viagem assim. E a comida? E as horas? Sem comissário de bordo... só piloto, simples remador.  Convenhamos, um piloto muito ousado. Que Deus o acompanhe. Amyr, no seu livro "100 dias entre céu e mar" descreve assim a partida:

    "O dia começou a nascer, envolto em uma neblina baixa que fazia as altas dunas do deserto                     parecerem nuvens sobre o horizonte."


 Os conselhos antes da partida, para desistir, foram muitos. Mas houve também, quem o incentivou, tudo por causa do "dossiê amarelo". E os dias foram se passando e as notícias acompanhando o quanto dava, de todo seu trajeto. As perguntas eram inúmeras e as respostas sempre as acompanhavam. Então, ficávamos sabendo de como dormia, como comia, como planejava os dias, as tempestades, os tubarões, as ondas gigantescas... Houve um dia em que se perguntou, em voz alta, já em alto-mar:

    "Que diabo vim fazer aqui, neste lugar maluco?"

Ficamos sabendo que o barco tinha um dispositivo que não permitia virar; ou, se virasse, desvirava. Não emborcaria nunca. Os 'lastros' eram para isso, o que foi um verdadeiro alívio para esta espectadora. E uma surpresa saber que um dispositivo assim pudesse existir. A engenharia e a engenharia naval são realmente fantásticas!  E Amyr conta detalhes de sobrevivência, como por exemplo, o acondicionamento dos mantimentos, as ferramentas e ferramentinhas, rádios, âncora, diário, cama, travesseiro, fogão... até uma carta trouxe para ser entregue no Brasil: Sedex? "Poste até às 10hs e será entregue em 100 dias!!!" - E assim aconteceu.

"O mar fazia muito barulho e foi difícil dormir. Volta e meia alguma onda passava por cima, enchendo o cokpit." (p.58)

Meu pai foi remador num clube de remo, em Blumenau. Era apaixonado pelo remo. Suas últimas palavras, no leito de morte, foram sobre o clube. Quando jovem, ele e alguns amigos começaram a construir um barco, tal era a paixão deles pelo mar. Em casa tínhamos uma batera, uma canoa, que era usada tanto no rio quanto nas enchentes que assolavam Blumenau. Ela era ótima, toda de madeira e era larga, o que permitia boa flutuação e acomodar várias pessoas. Muitas foram as travessias de pessoas, de um lado da rua para o outro, nesta batera, em dias de enchente. 

Então quando ficamos sabendo da aventura de Amyr, era comum entabular conversas a respeito. Lembro que meu pai tinha respostas para muitas dúvidas que surgiam, pela proximidade que ele tinha com a navegação.


E aconteceu, agora em julho de 2026, a ida à FLIP, a convite da filha Heloisa. Ficamos de terça à domingo em Paraty, aproveitando tudo o que era possível, pois a programação foi maravilhosa e bem 
Marina, esposa de Amyr

extensa. E numa destas tardes, assistimos uma das mesas. A Mesa seria às 15hs, mas para não perder lugar, nos acomodamos num dos bancos às 14hs e não arredamos pé. Eu estava 'seguindo' minha filha e nem me dei conta do assunto. Perto de começar a Mesa, alguém estava online com Tamara Klink, no celular, mostrando a plateia e trocando informações sobre o evento. Foi então que fiquei sabendo onde tinha me metido... que Mesa era aquela! E era Marina, mãe de Tamara, que estava mostrando à filha aspectos do que seria a Mesa e que travava dum documentário sobre sua viagem ao Ártico. Tamara estava na Noruega, por isso não estava presente no evento. Era visível a felicidade de mãe e filha por aquele momento tão especial. E o documentário foi simplesmente maravilhoso. Como não comprar "Bom dia, Inverno!" depois de conhecer um pouco de sua história?

E, sabendo que Amyr estaria autografando na FLIP, lá fomos nós para mais uma fila em busca do seu autógrafo no livro dele, também adquirido. Sabia que existe arco-íris da lua? Amyr viu! E viu mais: Dourados, baleias, tubarões, tartarugas, gaivotas e mais gaivotas... ah, a ilha de Santa Helena: imperdível a tensão em torno da ilha de Santa Helena, da Costa dos Esqueletos... das muitas tempestades e ondas. 

Amyr autografando




















Há uma carga de tensão que prende a leitura. E quando então a gente está mergulhado na aventura, lá vem uma dose de humor! Como não rir e sorrir, depois de quase ser tragado pelas ondas magníficas, tão bem descritas, quase naufragando entre África e Brasil... como por exemplo, quando fala do seu fogão:

"Gastando uma carga de gás por semana, eu ainda poderia cozinhar por seis meses, talvez até abrir uma restaurante especializado em desidratados e frutos do mar!" 







Há 42 anos acontecia a aventura de Amyr, numa travessia louca, numa época em que não havia GPS e toda parafernália eletrônica que temos hoje em dia. Foram exatamente 100 dias. A chegada!... me surpreendeu. Lembro de alguns detalhes,  comentados em 1984. Mas agora, conheci os detalhes descritos pelo Amyr. Aventura, sonho realizado, tensão e humor permeiam os capítulos de "100 dias entre céu e mar". Inimaginável! 

Se vale a leitura? Demais!...





 Em Paraty, eu e minha filha tivemos a oportunidade de conhecer Marina e Amyr e o barco IAT/Paraty, famoso barco que proporcionou a famosa travessia.