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segunda-feira, 8 de maio de 2023

Livro de Cabeceira: "tudo sobre o amor" (Bell Hooks)

 

E é nessas andanças pela vida que, de repente, nos colocam nas mãos um livro assim, tão incrivelmente fantástico a respeito do "Amor". E por ser tão maravilhoso é que não me contive e transcrevo algumas passagens marcantes. Gratidão pelo presente!!!

Diz Bell Hooks: "Em uma sociedade que considera falar de amor algo naïf, a proposta apresentada por bell hooks ao escrever sobre o tema é corajosa e desafiadora. E o desafio é colocarmos o amor na centralidade da vida. Ao afirmar que começou a pensar e a escrever sobre o amor quando encontrou "cinismo em lugar de esperança nas vozes de jovens e velhos", e que o cinismo é a maior barreira que pode existir diante do amor, porque ele intensifica nossas dúvidas e nos paralisa, bell hooks faz a defesa da prática transformadora do amor, que manda embora o medo e liberta nossa alma." (grifo meu) (09)

"A melhor definição de amor é aquela que nos faz pensar o amor como ação - conforme diz o psiquiatra M. Scott Peck, trata-se da "vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa". Nota-se que o espiritual aqui não está vinculado à religião, mas a uma força vital presente em cada indivíduo. Nesse sentido, a afeição seria apenas um dos componentes do amor. Para amar verdadeiramente devemos aprender a misturar vários ingredientes: cuidado, afeição, reconhecimento, respeito, compromisso e confiança (grifo meu), assim como honestidade e comunicação aberta. (...) Dessa maneira, ao pensar o amor como ação, nos vemos obrigados a assumir a responsabilidade e o comprometimento com esse aprendizado". (12)

"Nós aprendemos sobre o amor na infância, e que nossa família seja chamada funcional ou disfuncional, sejam nossos lares felizes ou não, são eles as nossas primeiras escolas de amor.(...) ...a autora demonstra o quanto o lar da família nuclear é uma esfera institucionalizada de poder que pode ser facilmente autocrática e fascista. Dessa maneira, continua ela, se queremos uma sociedade eticamente amorosa, precisamos desmascarar o mito de que abuso e negligência podem coexistir com amor". (13) 

"Começar por sempre pensar no amor como uma ação, em vez de um sentimento, é uma forma de fazer com que qualquer um que use a palavra dessa maneira automaticamente assuma responsabilidade e comprometimento. Somos com frequência ensinados que não temos controle sobre nossos "sentimentos". Contudo, a maioria de nós aceita que escolhemos nossas ações, que a intenção e o desejo influenciam o que fazemos. Também aceitamos que nossas ações têm consequências. Pensar que as ações moldam os sentimentos é uma forma de nos livrarmos de suposições aceitas convencionalmente, como a de que pais amam seus filhos, de que alguém simplesmente "cai" de amores sem exercer desejo ou escolha, de que existe algo chamado "crime passional", isto é, de que ele a matou porque a amava demais. Se nos lembrássemos constantemente de que o amor é o que o amor faz, não usaríamos a palavra de um jeito que desvaloriza e degrada o seu significado. Quando amamos, expressamos cuidado, afeição, responsabilidade, respeito, compromisso e confiança (grifo meu)". (55)

"Quando nos revelamos aos nossos parceiros e descobrimos que isso traz cura, e não dano, realizamos uma descoberta importante: relacionamentos íntimos podem ser um refúgio num mundo de aparências, um espaço sagrado onde podemos ser nós mesmos, como realmente somos.[...] Esse tipo de desvelamento - falar nossa verdade, compartilhar nossas lutas internas e revelar nossas arestas - é uma atividade sagrada, que permite que duas almas se encontrem e se toquem mais profundamente. (John Welwood)" (75)

"Muitas mulheres são casadas com homens que não as apoiaram quando decidiram investir em sua própria educação. (...) O marido e os filhos se mostravam desapontados quando a independência dela (uma mulher entrevistada) os forçava a aceitar mais responsabilidades em relação ao trabalho doméstico. No longo prazo, todos se beneficiaram. Sem falar que essas mudanças fortaleceram a autoestima dela de maneira que lhe mostraram como o amor-próprio tornou possível estar disponível para os outros de um jeito construtivo. Ela estava mais feliz e todos ao seu redor também." (98)

"Criar felicidade doméstica é especialmente útil para pessoas que moram sozinhas e estão aprendendo a amar a si mesmas. Quando nos esforçamos intencionalmente para tornar a nossa casa um lugar onde estamos prontos para dar e receber amor, cada objeto que colocamos ali aumenta o nosso bem-estar. (...) Como meu apartamento é muito menor que os lugares onde me habituei a morar, decidi levar apenas objetos que eu realmente amava - as coisas sem as quais eu sentia que não poderia ficar. É impressionante a quantidade de coisas das quais podemos nos desapegar. (...) Ao dar amor a nós mesmos, concedemos ao nosso ser interior a oportunidade de ter o amor incondicional que talvez tenhamos sempre desejado receber de outra pessoa. Quando interagimos com os outros, o amor que damos e recebemos sempre é necessariamente condicional. Embora não seja impossível, é muito difícil e raro que sejamos capazes de estender o amor incondicional aos outros, em grande parte porque não temos como exercer controle sobre o comportamento deles e não podemos prever ou controlar totalmente nossas reações a suas reações. Podemos, contudo, exercitar controle sobre as nossas. Podemos nos dar o amor incondicional que é o fundamento para a aceitação e a afirmação sustentadas. Quando nos damos esse presente precioso, somos capazes de alcançar os outros a partir de um lugar de satisfação, e não de falta. (...) A luz do amor está sempre em nós, não importa quão fria esteja a chama. Ele está sempre presente, esperando uma fagulha que o inflame, esperando que o coração desperte e nos leve de volta para a primeira lembrança de ser a força da vida dentro de um lugar escuro esperando para nascer - esperando para ver a luz". (106, 107)



















sábado, 8 de outubro de 2022

As Casas (Kahlil Gibran)


E
ntão, um pedreiro aproximou-se e disse:

"Fala-nos das Casas."

E ele respondeu, dizendo:

"Construí em vossa imaginação um abrigo distante da cidade antes de construirdes uma habitação dentro dela.

Pois tal como regresseis à vossa casa ao cair da noite, assim o faz vosso ser errante, eternamente distante e solitário.

Vossa casa é a extensão de vosso corpo.

Cresce ao sol e dorme na quietude da noite; e não deixa de sonhar. (...)

E dizei-me, povo de Orphalese, o que tendes nessas casas? E o que são as coisas que guardais a portas trancadas? Tendes paz, o ímpeto silencioso que revela vossa força? Tendes lembranças, os bruxuleantes arcos que se elevam nos cumes da mente? Tendes beleza, que conduz o coração das coisas feitas de madeira e pedra até a montanha sagrada?

Dizei-me: tendes tais coisas em vossas casas?

Ou tendes somente conforto, e a luxúria do conforto, aquele desejo sorrateiro que entra na casa como visita, torna-se hóspede, para logo tornar-se dono? (...)

Esse desejo embala-vos o sono apenas para poder zombar de perto da dignidade de vosso corpo. (...)

De fato, a cobiça pelo conforto trucida a paixão da alma e sibe um largo sorriso durante os funerais.


Mas vós, filhos do espaço, irriquietos em vosso repouso, não sereis capturados nem domados.

Vossa casa não será uma âncora, mas sim um mastro. Não será uma película cintilante que recobre a ferida, mas sim uma pálpebra que protege o olho. (...)

E, embora magníficas e esplêndidas, vossas casas não deverão guardar vossos segredos nem abrigar vossas aspirações.

Pois o infinito dentro de vós habita a mansão do céu, cuja porta é a névoa matinal, e as janelas, as canções e os silêncios da noite."




(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)