terça-feira, 5 de março de 2024
terça-feira, 28 de junho de 2022
Leitura de Férias: "A Folia do Divino" (Sarita Santos)
"Este é um livro sobre a Festa do Divino Espírito Santo em Penha, no Litoral Catarinense. Mas é também um livro que evidencia a intensa e profunda conexão de um folião com essa tradição secular.
O homem é Picucho Santos, cuja devoção à folia do Divino dá testemunho da fé e da dedicação que tem inspiradoa realização da festa por quase 200 anos.
Esta obra, organizada por sua filha Sarita Santos, é um dos legados do popular folião que teve a preocupação de registrar a história eos cantos, de onde surge este livro que revive, a partir das memórias deste poeta e pescador, a beleza e o fervor de uma das maiores festas religiosas de Santa Catarina." (Contra-capa do livro)
Fico feliz quando encontro autores, escritores, que rememoram e documentam em seus escritos aspectos da cultura local. O fato de anotarem, compilarem e transformarem tudo isto em pesquisa, em livros ou qualquer outro meio de conservação das anotações, permite que as vivências de uma cultura se perpetuem. E assim essas vivências não ficam apenas no imaginário popular, mas deste, ficam registrados para sempre.
Somos o que somos porque outros nos antecederam. Viveram. Riram, choraram, brincaram e trabalharam muito. Merecem nosso respeito e merecem que suas memórias sejam registradas. Graças aos escritores, isto é possível, pois não deixam passar em branco, mas deixam 'preto no branco' oque um dia foi. Gratidão a eles.
E gratidão especial à escritora Maria do Carmo Ramos Krieger, que me cedeu o convite para o Lançamento de livro de Sarita Santos.
segunda-feira, 11 de outubro de 2021
Ciranda Cirandinha, vamos todos respeitar
E no Dia da Criança, quem recebeu o presente fui eu!
Uma antologia da Academia de Letras do Brasil de SC, Seccional Penha Anísio dos Santos, abordando os mais diversos assuntos sobre educação e cultura da criança e do adolescente.
Relatos, histórias, defesa de direitos, pandemia, inserção na sociedade, brincadeiras, diferenças e mais, muito mais.
Que maravilha o mundo poder desfrutar de uma livro neste naipe. Parabéns aos Organizadores, Coordenadores e autores.
Meus agradecimentos à escritora Maria do Carmo Krieger, pelo presente e pelo texto "Crianças e Adolescentes inseridos na sociedade. Como trabalhei o tema na Escola".
Boa leitura a todos!
quinta-feira, 24 de junho de 2021
Penha de outrora T2E7: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau
A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA
Tradução e revisão
Mônica Funfgelt
15/06/2021
Depois de um mês, o casamento foi celebrado. No dia anterior, a mãe de
Manoel tomou banho e deixou que as crianças inspecionassem-lhe os parasitas
para depois fazer o mesmo com eles. O velho Castro mantinha sua bússola em
ângulo com o céu, mas nada o fazia entrar no mar para se banhar, pois afirmava
que por conta disso havia contraído Beri-Beri.
Armação inteira participou da festa, até os turistas combinaram de dar ao
jovem casal um presente útil, nada de copinhos de licor. O velho Castro
embriagou-se tanto na festa, que começou a discursar e se deixou viver.
Os trajes de festa dos convidados pareciam um tanto inapropriados. Era
aceitável que aqueles pescadores que não dispunham de um terno preto, chegassem
vestindo calça de riscado e camisa e tivessem os pés descalços, agora, Pedro
Ricaço que por avareza nunca foi capaz de comprar um terno decente, usar o
velho uniforme de soldado do pai que havia lutado na guerra do Paraguai e que
havia guardado de lembrança, comido pelas traças, com distintivos de todas as
cores, isso sim era bizarro.
Manoel também não tinha nada além de um terno de riscado um pouco melhor,
no entanto um daqueles veranistas compadeceu-se e emprestou-lhe um fraque
preto, que não combinava muito bem com o chapéu de palha, já que Manoel não dispunha de outro acessório
mais compatível para cobrir a cabeça. Somente a noiva estava bem vestida, mesmo
não usando véu nem cauda. Aliás, ela teria ficado linda em qualquer figurino.
Um padre veio de Itajaí para celebrar o casamento na igreja da Armação.
Esta fora decorada lindamente com folhas de palmeiras pelos jovens. Após a
cerimônia as pessoas seguiram pela praia até a casa de Pedro Ricacho onde a
mesa do banquete foi posta ao ar livre. A comida estava excelente - carnes,
aves, peixes, lagosta, caramujos, mexilhões e outras iguarias agradaram a
todos. Havia cachaça em abundância. A comunidade fez um trabalho incrível, a
maioria deles jejuou por dias para então poder se fartar.
No final foram todos para a praia. Uma gaita de boca
deu o tom à festa. Também apostaram-se carreiras. Dois velhos pangarés
desempenharam o papel de cavalos de corrida que foram montados sem sela por
dois jovens. Mas a carreira nunca acabou, porque os dois cavaleiros, cheios de
cachaça, despencaram dos nobres corredores como sacos de farinha. Então, outros
tentaram, com o mesmo sucesso. No final, apostava-se naquele que cairia por
último. Foi muito divertido. Finalmente, formou-se uma grande cavalgada entre
os jovens, e então, tarde da noite, todos se foram com grande alegria. Por
muito tempo, a linda festa de casamento, onde tudo foi tão gostoso, foi assunto
de conversa dos moradores de Armação.
Pedro Ricaço deu aos pais e irmãos de Manoel uma linda casinha. O velho
Castro recebeu a supervisão das redes, que, se necessário, também tinha de
consertar e deixar em boas condições de uso. Manoel tornou-se sócio do sogro e tempos
depois único dono da peixaria quando Pedro Ricaço decidiu se aposentar. O
infeliz Bento atormentou o pai para vender o negócio e se mudar para Joinville.
Ele não queria ouvir sobre a felicidade de seu antigo inimigo.
Lá ele aprendeu cestaria. Ele ainda
consegue enxergar um pouco com um olho. O trabalho é seu consolo.
FIM
quarta-feira, 23 de junho de 2021
Penha de outrora T2E6: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau
A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA
Tradução e revisão
Mônica Funfgelt
15/06/2021
Finalmente eles se aproximaram e olharam em volta para tentar localizar
algum resquício do barco desaparecido. Eles notaram uma mancha escura, que,
meio escondida atrás dos penhascos, revelou ser a forma de um ser humano. Mas
atracar onde o corpo jazia era impossível. Eles evitaram as ondas e ancoraram
no lado norte da ilha, o que, se não foi bom, permitiu que aportassem. Eles se
esforçaram para prender o barco à raiz de uma árvore e retornaram por uns 10
minutos para ver quem era a pessoa e se ainda poderia receber ajuda.
Era Pedro Ricaço. Ele ainda se movia mas, quando os pescadores tentaram
levantá-lo, perceberam que o seu pé estava gravemente ferido. As ondas haviam
lançado suas espumas sobre o acidentado e nada se via da embarcação e dos dois
outros marinheiros. O velho Castro, que gostava de tomar uns goles, estava de
posse de sua garrafa de cachaça que chamava de bússola o que, desta vez, foi
realmente providencial. Pedro tomou um pouco daquele aguardente o que fez com
que melhorasse e finalmente, com um pouco de
esforço, pudesse falar. “Oh, ele disse, vocês são meus salva-vidas, sim,
eu não teria acreditado nisso, tenho muito que lhes compensar!” “Não se
aborreça caro Pedro, é melhor contar como tudo aconteceu e onde estão seus dois
companheiros”, falou Manoel.
“Devo presumir que infelizmente eles se afogaram. Fomos surpreendidos pelo
vento. Uma terrível rajada virou nosso barco antes que pudéssemos pegar as
velas. Primeiro, segurei-o com meus dois camaradas, mas apenas por um curto
período de tempo, quando uma onda me separou do barco e dos meus companheiros.
A princípio tentei nadar, mas não sabia para onde ir, não conseguia ver nada da
terra, então me joguei de costas e me deixei flutuar. É um milagre nenhum
tubarão ter me visto. Quanto tempo eu estive vagando, seja por horas ou apenas
minutos, não sei. Eu lutei desesperadamente e estava prestes a parar de me
mover quando ouvi o rugido das ondas nas proximidades. Fui pego por elas e
arrastado para a ilha rochosa e assim devo ter quebrado meu pé.
Com um esforço desesperado, levantei-me um pouco para que a maré não
pudesse mais me atingir, e então minhas forças chegaram ao fim. Devo ter
desmaiado há muito tempo porque não sei muito sobre a noite. Meu corpo dói como
se estivesse todo quebrado”.
Observou-se então ao redor como se poderia trazer Pedro para a terra firme.
Não seria pela Armação. O vento novamente soprava mais forte e era impossível
cruzar contra o vento com aquele barco pequeno. Mesmo se alguém realmente
quisesse ousar, demoraria muito e nas condições em que se encontrava a vítima,
ele não iria aguentar. Então Manoel deu um pulo. “Tive uma ideia”. Logo foi até
até o barco, aproximou-se da vela e escalou até o topo da ilha. Aí ele acenou e
balançou a vela em direção à Penha por um tempo até que do outro lado também
acenaram. Se ao menos eles entenderam o que eu quis dizer, pensou Manoel, e
desceu da colina para se juntar aos outros a quem ele se reportou.
Na Penha um barco havia desencalhado. Depois de uma hora, estava na ilha.
Pedro Ricaço foi carregado até o barco em uma maca feita de galhos e cipós.
Dali, as duas embarcações atravessaram para a Penha. Uma vez lá, um mensageiro
foi enviado para a família porque o homem ferido não resistiria ser transportado
até em casa. Um pescador com conhecimento médico aplicou no pé o curativo de
emergência.
A esposa e a filha vieram imediatamente. A alegria delas ao verem aquele
que se acreditava estar perdido foi grande. Depois de um dia de descanso, Pedro
foi levado cuidadosamente para casa, onde o médico, a quem naquele meio tempo
haviam chamado, esperava para tratar do hematoma e das feridas. A cura
prosseguiu normalmente. Mas enquanto ainda estava doente, Pedro Ricaço mandou
buscar Manoel e disse-lhe que ele era um sujeito e tanto com o coração no lugar
certo e que se quisesse ser seu genro certamente não faria nenhuma objeção.
Manoel ficou tão surpreso com a mudança de humor de Pedro que só conseguiu
gaguejar seu agradecimento, enquanto Acaricia se jogava no pescoço dos pais e
ria e chorava alternadamente. “Então,” disse Pedro, “apenas discuta todo o
resto com sua mãe. Eu quero ter minha paz agora. Mocinha, você está realmente
eufórica!”
continua...
terça-feira, 22 de junho de 2021
Penha de outrora T2E5: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau
A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA
Tradução e revisão
Mônica Funfgelt
15/06/2021
Passado um mês Manoel já conseguia andar com a ajuda de uma bengala. Após
14 dias o pai de Bento o levou ao médico, já que estava enxergando muito pouco
com aquele olho machucado. O clínico fez um exame minucioso e chegou a
conclusão que também com aquele olho, que teve ferimentos leves, não havia mais
muito o que fazer, ainda assim não quis lhe tirar totalmente as esperanças e
recomendou a Bento que tivesse paciência, que talvez, com o tempo, houvesse
alguma melhora. No entanto Bento já havia percebido, pela expressão de
seriedade do médico, que ele iria ficar completamente cego.
E após chegar em casa, com seu espírito destroçado, ele confessou a
tentativa de assassinato, solicitando que fosse levado logo à prisão porque à
essa altura tanto fazia se estivesse lá ou em qualquer outro lugar. Álvaro Ribeiro,
porém, sugeriu que tudo fosse tratado como um acidente com o que, de pronto,
Manoel também concordara o que evitou gritarias e maiores confusões.
“Para você ver” disse dona Elvira ao marido, “é uma dádiva de Deus, Ele não
quer que a nossa Acaricia se case com Bento”. “Bem”, respondeu Pedro, “é claro
que ela não deve escolher o caolho, mas se ela acha que vai conseguir ficar com
o Manoel agora, está muito enganada”. “Dona Elvira comentou isso com a filha e
ela, que já tinha renovado suas esperanças, voltou a ficar deprimida.
Uma grande euforia reinava entre os pescadores da Armação. Nas suas redes
havia uma quantidade de pequenos
tubarões-martelo, corvinas, pescadas, robalos, bagres, arraias e, nas linhas de
pesca, cinco grandes tubarões foram capturados. Esse tubarões, chamados de Cações,
precisam primeiramente, antes de tirar-lhes os anzois, ser mortos a pauladas,
pois é impossível trazê-los até a canoa. Eles são tão grandes e pesados que
parecem porcos obesos.
Exceto pelo esqueleto, a carne não tem espinhos, não tem gosto ruim, mas
parece não ser saudável se você viver exclusivamente dela. Você retira a pele
do tubarão e depois seca a carne. Do fígado extrai-se o óleo. Este tipo de
tubarão dá à luz filhotes vivos. Para os pescadores, a rica captura significa
um aumento nos seus ganhos. Não era de se admirar que à noite todos quisessem
colocar novas redes e varas de pesca. Navega-se um bom trecho mar adentro, pois
os tubarões amam águas mais profundas, um hábito que só pode mesmo ser
agradável para os veranistas.
Também Pedro Ricaço teve de ir, já que havia pouco pessoal para ajudar e
Manoel lhe fazia falta. Ao anoitecer tudo começou e esperava-se que em breve
todos retornariam. Manoel havia recebido ofertas de alguns pescadores para
acompanhá-los, mas teve que recusar porque seu ferimento na perna ainda não
estava completamente curado. Uma fogueira era mantida na praia para que, se os
pescadores fossem surpreendidos pela escuridão, eles pudessem encontrar o
caminho de volta.
Subitamente formou-se uma grande ventania. A inquietação tomou conta do
lugar. Os homens, as mulheres e as crianças estavam na praia e comentavam o
assunto. Permaneceu-se noite adentro, que estava escura como breu. O vento
transformou-se em uma tempestade e nenhum barco voltara. Por fim, aqueles que
esperavam rumaram de corações partidos para suas casas. Naquela noite, com
exceção dos jovens, nenhum outro ser humano conseguiu fechar os olhos.
Bem cedo, ao raiar do dia, a praia estava novamente lotada. Nenhum barco
havia aportado. Pessoas choravam e gesticulavam. Por volta do meio dia o
telegrafista da Penha trouxe um telegrama endereçado à Alvaro Ribeiro, que
dizia que quatro barcos haviam chegado ao porto de São Francisco e seus
proprietários tinham sido mencionados. As famílias envolvidas ficaram muito
felizes. Só dona Elvira e a filha estavam desesperadas na praia, o telegrama
nada dizia sobre Pedro Ricaço. Manoel consolou-as, dizendo que o pai estaria em
algum lugar a salvo. Mas seu consolo não funcionou, porque nem mesmo ele
realmente acreditava naquela possibilidade.
A tempestade estava acalmando. Manoel não aguentava mais ver o sofrimento
daquelas mulheres e disse que iria, pelo menos uma vez com seu pequeno barco a
vela, navegar até a Ilha do Diabo, que estava a uma distância de, talvez, umas
duas milhas entre Armação e Penha. “Queres que eu também perca você, Manoel?”,
protestou Acaricia.
Mas a mãe convencera o jovem. Ele se despediu delas e empurrou sua canoa
para a margem. Seu pai, o velho Castro, insistia em ir junto. “Mesmo que eu não
consiga remar muito, estarei no comando, apenas me leve com você, meu filho”.
Com esforço a arrebentação fora vencida e debaixo de forte balançar as
velas foram içadas. A maré ainda estava bastante alta. Assim, aquela pequena
casca de noz voou em direção à Ilha do Diabo. Esta surgia e exibia uma gruta
com formações rochosas como estalactites algumas das quais, infelizmente,
haviam sido arrancadas por ganância ou ignorância.
continua...
segunda-feira, 21 de junho de 2021
Penha de outrora T2E4: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau
A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA
Tradução e revisão
Mônica Funfgelt
15/06/2021
Até então, Manoel auxiliara Pedro Ricacho na puxada de rede. Após o
incidente na hospedaria da Penha, Pedro mandou dizer-lhe que não precisava mais
dos seus préstimos. Isso fora deveras desalentador para os enamorados, mas não
havia mais o que fazer. Desta forma, Manoel passou a pescar sozinho, mas sem
rede lograva pouco êxito, além de não receber o bastante para continuar
sustentando seus pais e irmãos.
O velho Castro procurava trabalho entre os veranistas que povoavam a
Armação nesta época do ano. Ele fazia aquilo muito a contragosto. Quando conseguia
algo, mal ganhava o magro salário de 2 Milréis. No entanto as pessoas tinham
compaixão e lhe davam algumas coisas, sim, ele recebia as sobras das refeições,
pão e outros alimentos os quais ele levava para a família.
Manoel fora até a Praia Brava com o caniço, a vara de bambu com arame em
vez de barbante, para pegar Garoupa. A Praia Brava é constituída por um
conjunto de rochas musgosas de arestas cortantes nas quais as ondas arrebentam,
formando espuma e redemoinhos. É ali que esses peixes preferem ficar. Claro, é
preciso habilidade e força para cansar um vilão tão rebelde depois que ele é
fisgado e o trazer para a praia. A Garoupa pesa até 20 quilos e é um dos peixes
mais saborosos que há.
Manoel estava em pé sobre uma daquelas pedras irregulares e escorregadias.
Sentira algumas fisgadas mas nenhuma mordida. Em seguida notara mais uma
fisgada e rapidamente arrancou a vara de pescar da água, então recebeu um
empurrão e, não conseguindo mais se segurar na rocha lisa, caiu de cabeça no
redemoinho. Ele ouviu um grito terrível e então o turbilhão de ondas o atingiu.
Manoel havia sido jogado em um caldeirão do qual não conseguiria mais
escapar sozinho, sem ajuda externa. Seu corpo fora jogado contra as rochas
afiadas pela rebentação, que subia e enchia novamente. Quando a onda recuou,
ele clareou a cabeça por um momento e conseguiu respirar mas, imediatamente
depois, a água mais uma vez trovejou sobre ele. Achando que tudo estaria
perdido, quando a água tornou a ficar mais rasa, uma vara de pescar lhe fora
alcançada, na qual se agarrou mecanicamente. Um homem estava na rocha segurando
a vara. Então a maré voltou. Manoel ficara submerso por pouco tempo e emergira.
“Segure-se”, gritou o salvador. “Agora, rápido, me dê sua mão, mas não solte a
vara!” Com mais um forte puxão Manoel estava a
salvo. Já não era sem tempo. Mal alcançou a rocha, desabou exausto e
sangrando profusamente.
O que havia acontecido? Deixei que o pescador Ignacio contasse. Assim ele
relatou:
“Eu estava em pé sobre uma rocha não
muito longe do local do acidente, mas não vi ninguém e não sabia que mais
alguém pescava por perto. Eu estava prestes a montar uma armadilha para peixes,
depois de ter cortado uns gravetos, quando ouvi um grito que abafou até mesmo
as ondas mais barulhentas. Este grito fora tão agudo e forte que permaneceu
ecoando em mim. Com o meu caniço na mão, corri ao local, e lá vi uma pessoa
deitada na pedra, contorcendo-se como se tivesse cãibras. Ao mesmo tempo, a
cabeça e o braço de outra pessoa emergiam do redemoinho, mas imediatamente eram
novamente engolidos pela maré. Com a ajuda da minha vara de pescar, salvei o
homem quase afogado quando a água baixou. Só depois disso me dei conta de
cuidar do outro. Então eu vi algo terrível. Bento estava sentado ali e lutava
para tirar um anzol do olho, o que é claro que não conseguira. Ele logo
desistiu e gritou que eu deveria ajudá-lo. Busquei água para verificar o quão
fundo estava aquele anzol, limpei-lhe o sangue e vi que nada poderia ser feito
sem ajuda médica, Bento obviamente estava com dores terríveis. ”
Ainda
conforme Ignacio.
Naquele momento chamaram Álvaro Ribeiro um velho
calmo e simpático que há 30 anos reside na Armação, que tinha poder de polícia
e era também o chefe político. Todos suspeitavam que por ali algo estaria
errado porque era sabido que os dois feridos eram inimigos ferrenhos. Álvaro
Ribeiro mandou levá-los para o primeiro abrigo, depois buscaria um médico que
só poderia vir de Itajaí à noite e, ainda,
tinha de avisar os pais dos dois.
Bento gritava por ajuda. Ele não suportava mais
aquelas dores terríveis. Queria um revólver para dar cabo de sua vida e, embora
ele soubesse que seu desejo jamais seria atendido por ningém, ele então pediu
cachaça, para anestesiar-se. A bebida foi-lhe entregue, afinal de contas algo tinha
de ser feito.
Seu pai estava muito desesperado e queria saber como havia acontecido o
acidente, mas Bento não dava informações suficientes. Finalmente, depois de
muitas horas, o médico veio a cavalo. Sabendo o que era, levava consigo cocaína
e morfina. Ele examinou, lavou, anestesiou o olho ferido e extraiu o anzol. O
outro olho também estava ligeiramente arranhado, mas o médico ainda não era
capaz de dizer se a visão havia sofrido algum dano. O olho cortado sumiu, é
claro. Desta feita deu a Bento um pouco de morfina em pó, arrumou algumas
compressas e se dirigiu a Manoel. Lavou suas feridas, enfaixou os piores
ferimentos e se retirou.
continua...
sábado, 19 de junho de 2021
Penha de outrora T2E3: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau
Tradução e revisão
Mônica Funfgelt
15/06/2021
Penha é uma
localidade distante aproximadamente a uma hora de Armação. Lá também existe uma
catedral barroca antiga, de estilo jesuíta, que deve ter a mesma idade daquela
da Armação. Nas proximidades da igreja tem uma hospedaria que, além de café e
cachaça, não tem muito a oferecer. Se você perguntar
sobre pão, manteiga, queijo, leite, salsicha, ovos, cerveja, vinho, você obterá
a resposta estereotipada “não tem”, não há nada lá. A cachaça é deplorável,
recém destilada da cana-de-açúcar contendo muito álcool. A única vantagem dali
é que por pouco dinheiro pode-se tomar um porre memorável.
Era dia de ano novo. Como as igrejas da Penha e da Armação não têm clero
próprio, um padre de Itajaí vem pregar e realizar outras ordenanças sagradas
nas festas da igreja, como Reveillon, Páscoa, Pentecostes e Natal. Quando não
aparecia nenhum padre em Armação e os fiéis ficassem sabendo que na Penha havia
missa, uma parte dos moradores, particularmente os jovens, iam até a igreja
vizinha. E hoje não foi diferente.
A missa havia terminado, os mais velhos voltavam para suas casas mas os jovens ainda queriam aproveitar um
pouco da diversão noturna e foram até a hospedaria. Bento e Manoel também
estavam lá. Acaricia e a mãe haviam ido visitar uma comadre. Alguns dias antes,
Bento e o pai estiveram na casa dos pais de Acaricia para conversar sobre os
planos para o enlace. Também a filha tinha sido chamada para firmar a questão.
Para desgosto de Pedro Ricaço, a filha lhe explicou que nunca iria ficar
com Bento, que preferia se afogar e se afastou aos prantos. O pai ficou furioso
e falou aos dois para que eles tivessem ainda um pouco mais de paciência e que
depois de algum tempo iria retomar a promessa.
Bento notara que Acaricia trazia um outro amor no coração e por pouco não
externou que Manoel era o felizardo. Então focou nele todo o ódio de sua alma
miserável. E já que não era dotado de um corpo avantajado ele comprava amigos
pagando em bebida. E hoje não foi diferente.
Bento pediu uma rodada de cachaça. Manoel estava sentado sozinho em um
canto olhando tristemente para a frente
afinal, depois da missa, Acaricia havia lhe sussurrado o que estava acontecendo
na casa dos pais dela.
“Que viva tudo o que nós amamos”, gritava Bento levantando o copo. Garçom,
mais uma rodada!” “E tu Bento, não
queres oferecer um brinde ao Manoel?” sussurrou um dos jovens. “O quê” gritou
ele, “o mendigo que beba água”, lançando um olhar de desprezo para Manoel. “Você
se refere a mim?” interpelou o outro. “Se a carapuça serviu”, gritou Bento contando com o apoio dos camaradas. “E
isso não tem a menor graça” voltando-se
à plateia, “este patife só quer roubar a minha noiva, a bela Acaricia”.
Mas, mal essas palavras escaparam de sua boca desdentada, Manoel deu um
pulo, jogou Bento no chão e, com um soco terrível, abriu caminho por entre os
amigos surpresos saindo apressado.
Já se podia ver as facas tilintando. Um negro que estava a serviço do pai
de Bento correu atrás dele para esfaquear Manoel, mas este já havia arrancado
um porrete da carroça de bois que estava na lateral da pousada e esperava seu
atacante, que então se contentou em lhe dar uma bronca ameaçando e prometendo a
Manoel, que em breve faria um buraco no corpo para que o sol pudesse passar.
Assim, Manoel criara em Bento um inimigo contra o qual tinha de se precaver.
À noite os enamorados se encontraram no bosque perto das bananeiras atrás
da casa de Pedro Ricaço. “Meu amado”, disse a jovem, “o que será de nós? Não
estou perdendo a esperança, mas quantas lutas terei que suportar! Oh, aquele
Bento inútil! Meu pai te considera um arruaceiro, e é evidente que o assunto foi mal
interpretado por ele.”
“Fique calma, meu anjo, ainda espero por uma feliz coincidência que quebre
a mente rígida de seu pai.”
“Oxalá que essa tua esperança fosse verdadeira, querido Manoel”, sussurrou
Acaricia. “Sobretudo prometa-me nunca
sair desacompanhado à noite e também de dia fique atento, pois Bento está
planejando vingança”.
Manoel prometeu: “ Ele que venha, se lhe coça o pelo”. Nas proximidades
alguma coisa se movimentou e então, após um beijo furtivo, os enamorados se
apressaram em seguir em direções opostas.
continua...
sexta-feira, 18 de junho de 2021
Penha de outrora T2E2: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau
A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA
Tradução e revisão Mônica
Funfgelt
15/06/2021
Este (Manoel), um belo
rapaz de 24 anos, forte e saudável, não comentava nada sobre sua própria cabana
construída de paus de palmito e paredes preenchidas com barro. O chão era de
terra crua. Algumas esteiras e tapetes de palha, serviam de assoalho. A fumaça
percorrera o casebre e pintara tudo de preto. Uma mesa frágil e um banco velho
era o que havia de mobília.
Além de Manoel,
o mais velho, via-se ainda uma infinidade de crianças cujo número sequer os
pais saberiam precisar. Os menores andavam totalmente nus enquanto que as
meninas um pouco mais velhas vestiam apenas alguns trapos com mais furos do que
propriamente tecido. É preciso admirar a destreza com que tal peça de roupa
podia ser usada sem cair do corpo.
O pai, uma
criaturinha miúda e raquítica, era tão preguiçoso e fraco que muito pouco
contribuía para o sustento da família. A mãe era descuidada e suja. Seus
cabelos aparentavam nunca terem sido penteados e o coçar constante sugeria,
ainda, que havia outras coisas.
Somente Manoel
era asseado e banhava-se frequentemente, ao contrário de sua família que nem
até o mar ia, embora este, estivesse a uma distância de menos de trinta passos
do casebre. Suas vestes eram compostas apenas de camisa e calça, no entanto não
eram esburacadas nem tampouco havia remendos. Era admirável que o rapaz, que
fora criado naquele ambiente, não aparentava aquele desleixo. A única razão
deveria ser mesmo a sua paixão por Acaricia. Ele via o quão encantadora ela
era, em suas vestes simples, e não queria sobressair-se.
Pedro Ricaço de
nada sabia sobre o namorico da sua filha com Manoel, até que um dia desses a
mãe de Acaricia, Dona Elvira, lhe abriu os olhos, “bobagem” retrucou ele, “
como você pode pensar que aquilo um dia daria em alguma coisa, o mendigo Manoel
e Acaricia. Há de ser convir que ele é um belo rapaz, porém meu genro é
diferente”.
“Então”,
ponderou a esposa, “quer dizer que você já tem um candidato?”
“Decerto que
sim”! Pois você conhece o vendeiro Hypólito, de Gravatá. Ele tem um filho,
Bento. Dia desses, quando aportei lá, naquela minha viagem para Itajaí, o pai
fez algumas insinuações de que estava querendo se aposentar e se ausentar por
mais tempo das suas lavouras de café e deixar o seu negócio a cargo do filho.
Por conta disso, o rapaz precisaria urgentemente ser casado. O pai ainda
reforçou que um dia desses gostaria de nos fazer uma visita.
“Mas marido”, vociferou a esposa, você não está pensando em
entregar a nossa linda menina para o Bento, está? O caipira corcunda e acanhado que engana
os fregueses, para quem nada é sagrado, que nunca se confessa e ainda fala mal
de todos! Esqueceu-se de como ele se portou no funeral do falecido Antônio,
quando lutou capoeira no meio dos enlutados e, quando chegou no cemitério
e jogou futebol com uma das caveiras caídas que então lançou em
direção à cabeça de um menino fazendo-o chorar alto. Toda a cerimônia
fora tumultuada e faltou pouco para ele que ele levasse uma bela surra. Somente
a consideração pelos mortos impediu as pessoas de fazê-lo.
“O que”, retrucou Pedro, “isso é arrogância juvenil, Acaricia vai mudar
isso quando ele for o marido dela. Pense, a herança de Hypólito está estimada
em cinco contos, além do mais Bento é seu
único filho e a mãe já é falecida há 10 anos”.
“Sim”, disse Dona Elvira, “pois ele vive com a empregada doméstica com quem
tem outros quatro filhos”.
“Mulher tola, eles nem herdarão nada! Veja bem, nossa
filha tirará a sorte grande com este casamento”.
“Ah”. “Ah”, suspirou dona Elvira, “não me parece bem isso. Além disso, a
Acaricia também deve ser questionada ”.
“Era só o que faltava”. Ela que fique feliz se nós arranjarmos um bom
casamento. A mulher silenciou.
continua...
terça-feira, 18 de maio de 2021
Penha de outrora T2E1: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote" de Blumenau
A linda ACARICIA, da Armação.
UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA
Tradução livre do jornal 'Der Urwadsbote', de Blumenau 18 de abril de 1922, com ajuda de dicionários e da internet, por Aloisius Carlos Lauth. Blumenau, 25/04/2021
A três horas de viagem do porto de Itajaí, encontra-se a enseada de Itapocoroy, que oferece abrigo aos navios durante as tempestades do mar. A bela Armação de Itapocoroy, é um balneário popular de veranistas que brincam despreocupados nas águas do mar. O vilarejo é muito antigo, a pequena igrejinha de São João Batista surgiu antes da de Itajaí. No passado, Armação foi uma estação de baleeiros portugueses [o autor escreve holandeses] que fabricava uma espécie de bacon de baleia para cozinhar alimentos. Hoje ainda você pode ver os restos das instalações, como a casa grande na qual o óleo era derretido e depois armazenado em barris de madeira. Algumas panelas enormes de ferro, redondas, estão 'enterradas' na areia da praia. A Casa Grande, cujas ruínas foram vistas até 1918, servia de casa para os portugueses [ele insiste em holandeses]. As vértebras e as costelas de baleias foram preservadas até agora, parcialmente desgastadas. Elas serviam de poltrona para os moradores, enquanto que os ossos de costela serviam de arranjo para o caramanchão, que dá uma impressão bonita e original.
Os habitantes da Armação são, em geral, pescadores pobres que vivem de forma singela. Você pode vê-los pescando com tarrafas, as redes de lançamento, a qualquer hora do dia ou da noite. Já os encontrei com águas até os quadris nas noites de luar no inverno, bastante frio, tentando ganhar a comida [ração] para o dia seguinte. É incrível como essas pessoas podem aguentar uma jornada da pescaria. São muito despretensiosos. Peixe, e peixe sempre, seco ou fresco, é a comida, mais a farinha de mandioca, café com bastante açúcar, banana e laranja. Às vezes, tem carne bovino nos dias festivos, quando a população de compradores se reúne para abater uma cabeça de gado. É ruim o ganha pão para a família quando o pescador morre. Herdam grande miséria porque a maioria das famílias é ricamente abençoada de filhos e, então, vão depender da sorte dos vizinhos que já não tem o suficiente para si próprios. Essa desnutrição resulta em doenças. Além disso, a doença de vermes é comum em toda a costa litoral.
Um desses pescadores era rico para os padrões populares. Era chamado de Pedro Rico, ou Pedro Ricaço. Dificilmente ele conseguiria muito dinheiro assim. Tinha uma boa propriedade, um lote de terras, de posse do governo da qual era ocupante de longa data, e de lá não poderia ser expulso, vários barcos grandes e pequenos, muitas canoas e as redes grandes de arrasto e de espera de peixe. Em geral, ele não comentava isso aos pescadores pobres que não podiam comprar uma daquelas tão cara, no valor da metade da venda do peixe capturado. Em junho, na temporada da tainha, milhares desses peixes eram pescados e os pescadores eram obrigados a pedir sua ajuda em troca de uma porcentagem de venda. Os peixes eram vendidos em peças, e depois defumados nas cidades vizinhas. Além disso, Pedro Ricaço tinha outro tesouro, que não podia ser avaliado em dinheiro, a sua linda filha Acaricia! Ela tinha 18 anos de idade, olhos feitos cerejas, cabelos cacheados escuros, tez levemente acastanhada, uma boca adorável e esguia, muito parecida com o cervo brasileiro, a moça linda! Em resumo, uma beleza que se destacava entre os brancos do litoral, quase todos afetados por vermes de Mal da Terra. Certamente, ela foi galanteada pelos jovens da praia, mas seu coração já tinha escolhido um, e como muito acontece, por um dos mais pobres: o pescador Manoel Castro!
Agradecimento especial à escritora e professora Maria do Carmo R. Krieger,
por ter me direcionado a este texto.
Foto: Capela de São João Batista, Armação do Itapocoroy, Penha-SC.
Crédito foto: Lincoln Cirpiano, 2013.
quinta-feira, 22 de abril de 2021
Penha de outrora T1E7: Festa do Divino - uma tradição presente
Quaresma, Páscoa... tradições e religiões... estamos na época da Festa do Divino, uma festa tradicional em Penha, desde os primórdios, segundo o livro "Penha: Relicário do Divino", da escritora Maria do Carmo R. Krieger e do qual extraio alguns pequenos trechos:
(...) Provocando o imaginário, surge a pergunta: como era Penha antigamente?
(...) O lugar Itapocorói ocupava destaque na região; tornar-se-ia conhecido de tantos quantos navegavam pela região, haja vista ter sido parada obrigatória para abastecimento entre São Francisco do Sul e a Ilha de Santa Catarina, no litoral catarinense. (Foto ao lado:Eduardo Bajara de Souza - Penha)
Localizado numa enseada, Itapocorói, foi ocupado no início de 1777 por portugueses açorianos e teve ao seu nome acrescentado Armação, pois abrigou as sedes administrativas e industriais de processamento das baleias caçadas na região, transformando-se em Armação de Itapocorói.
(...) Visconde de TAUNAY (1926:69) escreveu sobre os panoramas marítimos estupendos e inesquecíveis que encontrou durante suas viagens por Santa Catarina, quando anotou que “tive o ensejo de realizar algumas das mais lindas viagens de minha vida” (1880 e 1885), ao passar no litoral de Penha:
“De um então guardo a mais violenta impressão, o da ponta de Itapocoroy, junto à velha armação para pesca da baleia, de que há restos ainda. Tentei descrevel-o nos meus Ceos e Terras do Brasil, mas quando releio as minha páginas e comparo o que disse ao que vi, vem-me o sentimento da pequenez humana ante a grandiosidade divina. Que painel aquelle! Quanta magnificência, serenidade e amplidão naquelles aspectos do Oceano bravio, a açoutar os penhascos da Ponta Negra e da Vigia?”
(...) Que tipo de gente veio para Penha, legando-nos o “jeito de ser açorian” ?
O português açoriano era criativo. Em Santa Catarina, aprendeu com os últimos carijós, índios que habitavam a região, o uso da mandioca, desenvolvendo engenhos que produziam farinha. Típico acompanhamento de pratos à base de peixes, a farinha de mandioca transformada em pirão é receita tradicional do litoral catarinense e não pode faltar na mesa do pescador artesanal, nas dos restaurantes e, mesmo, nas residências de não pescadores.
Esse português, muito religioso, era também de origem humilde (...) Apegou-se à religião católica como maneira de sobrevivência, transformando-a na Fé em louvor ao Divino Espírito Santo com tamanho fervor que as nove ilhas açorianas também são conhecidas como as Ilhas do Espírito Santo.
(...) A festa do Divino Espírito Santo teve origem em Portugal, quando a rainha Dona Isabel (1271-1336), casada com o Rei Dom Diniz, propagou a devoção ao Espírito Santo no país. (...) a rainha Isabel coroava um “Imperador”, que tomava o lugar do Rei, ocasião em que ela servia um banquete aos pobres e distribuía esmolas. Com tais gestos de caridade é fácil entender porque a cerimônia tornou-se peculiar entre pessoas carentes de Portugal.
(...) De Portugal, a Festa do Divino chegou às Ilhas dos Açores, através dos freis franciscanos e seus conventos, fortalecendo-se como tradição.
(...) Em Penha, porém, a Festa do Divino resulta num universo único, em que o espaço geográfico
abrigou e abriga atividades ligadas à tradição do evento, consolidando um forte sentimento de religiosidade. Fidelidade às origens, constância na espiritualidade, uma religião para exprimir a fé como dogma e crença na Santíssima Trindade são modelos do cristianismo presente na memória de um povo que cultua, além da função religiosa, um encontro social e o compromisso de celebrar tradições.
(...) Qual a função do Imperador?
É o Imperador quem administra toda a organização da Festa, auxiliado por súditos que o acompanharão durante todo o tempo do Império – período que dura um ano: desde a tarde de domingo quando é aclamado no cargo, até a segunda-feira, Oitava do Divino, do ano seguinte...
(Fonte: Krieger, Maria do Carmo Ramos, Penha: Relicário do Divino, 1ª Ed, Oficina Birô de Criação, 2018)
sexta-feira, 9 de abril de 2021
Penha de outrora T1E6: Casa da Penha sempre cheia!
Verão entrava e férias na casa da Penha eram rotina! O Opa e a Oma tratavam de avisar parentes e amigos e providenciavam quem cuidasse das coisas na casa em Blumenau. Em geral era a tia Tina, uma das primas da Oma.
Então era hora de revisar o carro na garagem, um Ramona Verde-abacate, e de colocar as malas, mais os apetrechos e as caixas com víveres. Na Penha havia uma vendinha perto da casa, a venda do seu Zito. E mais outra, lá em cima atrás da igreja. Por isso era prudente e necessário levar junto na viagem, tudo que fosse preciso para cama, mesa, banho e despensa.
Os preparativos demoravam sempre alguns dias. Mas finalmente, carro com radiador abastecido, óleo conferido, passageiros acomodados, o Opa ligava o carro. Partiu Penha! Que alegria quando eu e meu irmão podíamos ir nessa. Outras vezes íamos depois, de carona com meus pais. E por lá ficávamos uma semana ou mais.
E sempre tinha visita: havia vezes em que tia Ruth e tio Ernesto vinham de Joinville e passavam a temporada conosco. E tia Joana, de São Leopoldo, também vinha passar férias em Santa Catarina. Visitava algumas das irmãs e por fim ficava conosco na praia. Tia Joana contava muitas histórias, muitos contos românticos, quase impossíveis, mas que tinham sempre um final feliz. A galera ali presente não desgrudava os olhos da tia até o final do conto. Tia Joana também era hábil em preparar um chimarrão adocicado, todas as tardes, enquanto conversávamos em volta do poço, debaixo da sombra do enorme jambolão, ali no quintal. Mate amargo a gente não aceitava muito, mas o chimarrão adocicado era tudo de bom!
Lembro de outro dia em que extrapolei na exposição ao sol e levei uma 'torrada' feia, fiquei muito vermelha, com muito calor e ardor na pele. Tia Joana cortou folhas verdes de bananeira e acomodou-as sobre as pernas, braços e barriga até murcharem totalmente. Então colocou novas folhas verdes de bananeira. O calor diminuiu muito, mas por várias noites sofri pra dormir. Assim era tia Joana: sabia remédios caseiros e muitas histórias que nos alegravam.
Tia Ruth e tio Ernesto, naqueles tempos idos, queriam melhorar seus conhecimentos e passaram a fazer o Artigo-99. Houve época em que este estudo era possível de ser acompanhado na televisão. No caso dos tios, era acompanhado por fascículos comprados em Bancas. Quando tinham tempo livre, ali na Penha, sentavam fora, no quintal e liam e estudavam, cada um ‘tomando o ponto’ do outro. Ou um fazia as perguntas e outro respondia. Exames concluídos, receberam os certificados. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!” (Na foto, Janka está botando bobies no cabelo da tia Joana, em São Leopoldo.)
As tias, primos e muitos outros parentes também faziam parte do ciclo de visitas ao ranchinho do Opa e da Oma, na Penha. Muitos tinham casa na Praia da Armação e assim, por vezes nós fazíamos visitas a eles. Lembro da visita dos Gruetzmacher, do tio Evald e esposa, tio Fred e tia Gisela e filhos. E muitos outros amigos e vizinhos de Blumenau que passavam férias conosco, como por ex., Mary e Edson e Elisabeth. Nós, adolescentes, por vezes acordávamos de madrugada e íamos à Prainha ver o nascer do sol.
Mas de manhã, depois do café, era hora de tomar banho no mar. À tarde, em geral, ia-se de novo. A decisão de ir pra Prainha, Bacia da Vovó, ou Praia Alegre, era feita na hora de sair. E foi numa dessas que fomos à Prainha, ali na Praia da Saudade e de repente demos de cara com uma tartaruga morta, boiando na beira da praia. Ao voltar pra casa, meu irmão e eu acomodamos a tartaruga numa das toalhas e a levamos pra casa, onde retiramos o casco e o deixamos secar por um bom tempo. Este casco ainda existe, como cúpula de luminária, na casa do meu irmão Harry.
Na foto ao lado, vê-se a casa, com as duas janelas de um dos quartos e uma das janelas 'projetantes' da varanda e que ficavam abertas com o auxílio de um sarrafo. Todo cuidado pro sarrafo não ser deslocado, era pouco. As janelas, de tábuas, eram pesadas.Boas e divertidas lembranças. Passamos algumas aventuras no tempo de infância e adolescênscia. Bons momentos, numa Penha em que não existia ainda a avenida Eugênio Krause, muito menos Beto Carrero. As ruas eram de chão batido, terra. O progresso veio e muitas delas foram calçadas. Outras foram asfaltadas. O comércio cresceu e muitas casas foram sendo construídas. Em 1973 o Opa partiu do nosso convívio e ficaram as boas e belas lembranças!
terça-feira, 6 de abril de 2021
Penha de outrora T1E5: Dona Glória, a dona do Casarão
Férias na Penha, na casa da Oma e do Opa, eram sempre motivo de alegria e uma felicidade indescritível! Tudo era muito simples na casa, mas tão envolvido de paixão e atenção dos avós, que não víamos a hora de viajar. O Opa tinha um carro antigo, um Ramona verde abacate e que precisava de pelo menos uma hora de preparação, antes de partir para a grande cruzada pela Rodovia Jorge Lacerda, BR 101, avenida Nereu Ramos (Penha) e, finalmente, estacionar na garagem da casinha verde da rua Abelardo Correia. Uma vez na garagem da casa, de lá só sairia pra viagem de retorno. Isto quer dizer que, onde quer que fôssemos, íamos a pé. Pra praia, pra casa de parentes ou vizinhos, pra venda da esquina etc. Tudo era feito a pé. E a caminhada até a Praia da Bacia da Vovó demandava um bom tempo, uma boa caminhada. No final a canseira era grande, mas a satisfação e alegria de ter ido era maior.
Uma das vizinhas era a Dona Glória. Na foto, é a senhora de short. A outra senhora é minha mãe. E eu estou bem na frente, em primeiro plano. Mas esta era a única foto com a Dona Glória. Ela tinha muitos filhos e era viúva. Moravam num casarão enorme, de dois pavimentos, quase em frente à casa dos avós. E era com os filhos dela que brincávamos quase todos os dias. Havia mais uns garotos na vizinhança, com quem também brincávamos. E outras vezes tínhamos visita de primos, amigos e parentes. Era sempre muito divertido. Menos na hora da sesta dos avós, depois do almoço. Éramos obrigados a ficar em total-silêncio-mudo, pois qualquer barulhinho acordava e incomodava principalmente a Oma. Nem folhear revistas se podia, pois o virar da página já fazia barulho. E não tínhamos sono pra dormir, ah não! De jeito nenhum! Queríamos brincar, aproveitar o dia, a tarde.
Foi numa dessas que escapamos na hora da sesta, nos juntamos a alguns filhos da Dona Glória (lembro da Jane, dos outros filhos não lembro mais os nomes) e resolvemos cruzar o Costão da Praia Alegre até a Bacia da Vovó. Sempre que íamos à Praia Alegre, víamos jovens e casais escalarem as pedras do Costão e seguirem caminho. Pois então resolvemos fazer o mesmo. Quanta irresponsabilidade infantil! Não tínhamos a mínima noção do quão longo era o caminho e das dificuldades como por exemplo, escalar paredões de rocha que acabavam no mar. A maré estava cheia, o que dificultava a travessia. Em outros momentos tínhamos que embrenhar pelo mato da margem, pois não havia praia, não havia areia que permitissem passar. E como não podíamos voltar, pois sabíamos das dificuldades que já tínhamos passado, a decisão foi seguir em frente. Noutro trecho encontramos uma cobra. E crianças menores estavam junto.
Finalmente chegamos ao topo das rochas que dão para a Bacia da Vovó. Que benção! Que sufoco, que gratidão sentimos quando alcançamos a praia. Então nos pusemos no caminho pra casa, mas desta vez pela estrada. Nada mais de Costão! Nunca mais! E nunca contamos esta façanha aos avós. Total-silêncio-mudo. Anos mais tarde, muito muito mais tarde, quando já casados, é que nos aventuramos a contar. Se antes tivéssemos contado, nunca mais poderíamos ir à praia passar férias com os avós. O segredo permaneceu com todos, por muitos anos.
segunda-feira, 5 de abril de 2021
Penha de outrora T1E4: Tudo bem, mas tem que passar na Bacia da Vovó...
Domingo é dia, de pescaria, lá vou eu de caniço e samburá... ou de bóia de borracha de câmara de pneu! 'Bora pra Bacia da Vovó, criar castelos e nadar na Bacia da Vovó. Este, um recando entre pedras, onde bate o mar, onde rebentam as ondas e, ao deslizar por sobre as pedras, já entra no circulo de pedras com suavidade. O que dá o nome a este recanto e que permite crianças brincarem e nadarem com segurança. Este recanto fica perto do costão da Praia da Bacia da Vovó, bem no final da praia. De mar aberto, a praia que é uma continuação da Praia da Saudade, tem ondas fortes e repuxo. Por isso a Bacia da Vovó é tão dignificada. Um descanso pras mamães apreensivas com a força do mar e das ondas. E de areia fina, muitas pedras no entorno e castanheiras que oferecem sombra, é um lugar convidativo pra passar o dia. Umas horas, pelo menos.Acima das pedras, no fundo da foto, aparece o telhado da última casa da rua de acesso à praia. E sobre as pedras, e entre as pedras, podia-se descansar e brincar. A praia é abundante em rochas que entram no mar, criando pequenas lagoas e corredeiras de águas do mar. Em algumas dessas lagoinhas mais fundas, com mais água, ficávamos a observar o mundo animal: peixes, caranguejos, conchas e até algas. Não era raro sermos surpreendidos por alguma onda brincalhona e acabávamos molhados. Que nem outro dia, quando foi tirada a foto aí embaixo:
sexta-feira, 2 de abril de 2021
Penha de outrora T1E3: Caminhadas por estradas de areia... por estradas da imaginação...
Há dois caminhos que levam à Bacia da Vovó, à Praia da Saudade, ao encontro de amigos que cantam e dançam Cat Stevens, Steven Wonder, Secos e Molhados, John Lennon e muitos outros. Como não se fascinar pela letra que diz "pensem nas mulheres, rotas alteradas/ Pensem nas feridas, como rosas cálidas" ou " os ventos do norte não movem moinhos..." Quem parou pra pensar na profundidade da letra? O que tudo estava intrínseco nestas palavras? E assim varavam-se os dias a filosofar sobre as recém lançados canções, seus cantores e bandas. O mundo girava delirante em torno. A lua nascia a leste e fugia no poente. O sol nascia de novo e se escondia de novo, enrubescendo o céu e enrubescendo nossas faces e mentes. Tímidas, complexas, inquietas e inquisidoras. Voilá... O mundo é belo e sempre será.
Ou então, o que dizer da leveza, da inteireza da letra de Steve Wonder: "You are the sunshine of my life..." Fosse quem fosse o escolhido, o amado, a amada, com certeza era o sol da vida, naquele momento.
Retornar então, aos recantos caminhados, vividos, passados em tempos remotos, mas nem tão remotos, é um brinde da vida. Refiz a caminhada à Bacia da Vovó, por este caminho que sai perto da igreja, no centro. Vi o Morro do Baú, em toda sua imponência divina, lá no fundo da paisagem. E rememorei cada casa ao longo do caminho, ao longo da descida à praia. Novas ruas foram abertas. Não existiam antes. E muitas, muitas casas permanecem.
Finalmente, chega-se à Bacia da Vovó. Muito mais povoada que no meu tempo de férias na casa do Opa e da Oma. Mas lindo, como sempre!
quarta-feira, 31 de março de 2021
Penha de outrora T1E2: o dia em que a maré subiu... subiu...
A casa do Opa e da Oma ficava na rua Abelardo Correia, bem em frente à fábrica de produtos pesqueiros da Hemmer. A meia-água já tinha virado uma casa de duas águas e era onde todo anos passávamos alguns dias das férias de verão.
Aquelas férias foram inesquecíveis... pois pisamos por algum tempo na água da 'enchente' da maré, ali no gramado dos fundos da casa. A foto registrou o momento. E na foto vê-se, ao longe, casas da avenida Nereu Ramos. Não havia casas no meio do caminho e nem a rua Joinville existia. Estávamos na segunda metade dos anos 60. Na foto ainda se veem alguns Pés-de-Silva, muito espinhentos, por sinal. O campo aberto, ali nos fundos, era, em anos passados, coberto destas árvores e outras. Um verdadeiro matagal. A foto da postagem de data anterior mostra bem o matagal.
E na foto à direita, vê-se o fluxo das águas enchentes da maré por sobre a avenida Nereu Ramos. Bem ao fundo, a ponte 'nova' sobre o rio. E a casa grande, branca, à direita, está localizada onde foi construída a fábrica de pescados Krause.Nesta foto já se veem obras do aterro que a fábrica Krause empreendeu. Enquanto o terreno não tinha sido cercado, ainda podíamos passar para a praia por este trecho. Quando cercaram, acabou a mordomia de se chegar à praia e ao mar... pelos fundo da casa. Particularmente neste dia da foto, voltamos apressados pra casa, pois um temporal estava se armando. Estão na foto: meus avós, meu irmão, mãe e o primo Renato.


















