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sexta-feira, 8 de março de 2024

A Roda da Vida


Hoje, em homenagem às Mulheres, no seu dia...

Ela, com chapéu
de aba bem redonda, 
me deu um papel...
Sentei no banco
redondo do Cruzeiro
e enrolei o dedo no lápis...
O menino correu em volta...
Os poetas cantaram em círculo...
O sol se pôs...
lentamente...

 
Assim corre o mundo
em seu círculo...
Corre o menino no seu mundo...
Corre a mulher de chapéu no seu dia...
Assim vamos seguindo, a roda da vida.

(Ellen Crista da Silva)

 


terça-feira, 5 de março de 2024

Poema: A Vaga e o Catamaran



E me debruço na janela da varanda
e vejo passantes seguindo em seus
passos firmes,
assim, tão cedo,
em mais um dia de trabalho...
 
    E lá ao longe, do mar,
    Alguém me acena de um catamaran...
 
E me debruço, e corre a imaginação
A buscar no recôndito daquelas
Almas viandantes,
Um vestígio de paz,
Pela lágrima que escorre lenta...
 
    E lá ao longe, do mar,
    Alguém me acena de um catamaran...
 

E em outro olhar me perco a perguntar,    

Quantos sonhos
construídos,
destruídos,
Teimam em seguir este caminho...
 
    E lá ao longe, do mar,
    Alguém me acena de um catamaran...        

Me debruço uma última vez,    
E ouço o clamor que brota
Da ânsia
De ter, de ser, de ver-te
Mais uma vez, nesta vida...
 
    E lá ao longe, do mar,
    Alguém me acena de um catamaran...
 
O dia parte, enfim, na bruma da noite
E continuo debruçada na janela,
Porque lá de longe
Me vem e me beija
E se debruça comigo... na janela...
A perscrutar caminhos...
 
    E lá ao longe, no mar,
    Alguém atraca, enfim, seu catamaran...
 


domingo, 14 de janeiro de 2024

POEMA À 25ª BIENAL

Parece que nada faz sentido
Mas cada detalhe faz sentido.
Parece que não diz nada,
Mas cada detalhe diz algo.
Parece incompreensível... mas
tem uma compreensão profunda.

Rápido veloz... vídeo-filme.
Um lapso no tempo-fotos!
A arte corre desenfreada,
marca um instante: explora,
adapta, põe e sobrepõe fotos.
Imagens entrecortadas.


Como? Não sei. Mas vi.
Imaginação transportada à tela.
É a própria tela.
O sonho é quase real: torna-se arte
palpável, tangível, visível.
Fantasia não é + fantasia: em
tridimensão nos toca, incita, e nos
enlaça nas suas “impossibilidades”.

Alcança e nos toca, num segundo
choca, estupefata, acelera o cárdio,
tumultua o cerne do corpo...
Assusta!... e fascina!...
Incrível  arte essa: “neo”. Neo?
“Pós”. Tudo é pós.

Numa sala branca, apenas vento.
Ou relógios nas quatro paredes. Ou
dobraduras e designs em papel.
Noutra, telas da moça cadavérica.
Ou espelhos superpostos criam
espaços supérfluos infindos.


Ou a eteridade do vermelho.


        Metrópoles sob o olhar de artistas,
        de poetas, cinegrafistas, escritores.
        Sob o doce e crítico olhar, rígido e
        analítico, desses seres que
        complementam ou realçam a
        angústia de quem nelas vive.

“Iconografias Metreoplitanas”-porque
não ‘retratos urbanos’?
Vitalizamos no ‘pós’. No consumo.
Na rapidez. Antidiscurso e poesia
concreta. Ética, estética, elitismo. Um
tanto de individualismo, outro tanto de
alegoria, happenings, paródias e
pastiche. Pop arte e verso livre.


Livre! Somos tão livres 
quanto o artista amarrado 
com papel higiênico...
Livres para pensar, desde que
adequadamente inseridos no
contexto de cada sala branca.

Livres para ser.
Desde que se viva a ideologia dos
ideologistas. Impasse e Impulso.
Paixão e Prazer. Consumo. De
adereços, quinquilharias, chicletes,
letras, botões, chips e chips.

E surge a emergência: emergência
política, de saúde, de dinheiro.
Metropolitana. Estourou a conta, o
cano, a veia. Sociedade emergente.
Mais consumismo. Tudo é droga,
até a droga da droga.

Caem fronteiras. Caem muros.
Permanecem divisas invisíveis:
países emergentes emergem em
“iconografias metropolitanas”
Com suas iconografias.
Metropolitanas.

Por fim, o suave aroma
do fim de tarde da Av. Paulista!
O suave colorido do sol
se infiltra às luzes de faróis e
escritórios. Uma cena exótica...
Um cenário fascinante! Pós!


quarta-feira, 9 de agosto de 2023

"O Lado Avesso" (Norma Bruno)

Feiras, eventos, congressos tem dessas: encontrar, reencontrar e conhecer pessoas que são sempre muito especiais. Foi o que aconteceu comigo no FloripaQuilt 2023. A abertura da Feira contou com a participação da Poetisa Norma Bruno, declamando seu poema "O Lado Avesso". Tudo a ver com aquele momento, aquela feira que todos os anos nos presenteia com tanta variedade e riquezas de produtos e artes: patchwork, quilting, bordados, feltragem, tear, rendas açorianas, etc. 
Gratidão imensa por ter conhecido Norma, escritora com tanta sensibilidade, capaz de transcrever em palavras o que sentimos tão assim, no cotidiano.


Norma Bruno estava prestes a lançar seu livro "Noites Insones", no qual consta o poema do título acima e que tinha tudo a ver com aquele momento do FloripaQuilt:

"Entre as antigas bordadeiras é lei: bordado se
olha primeiro no avesso. Segundo a tradição,
bordado bem feito é aquele em que não se
diferencia o avesso do direito, tal o grau de perícia
e perfeição do trabalho.
Pois eu desisti de perseguir a perfeição faz tempo
e isso vale para todos os aspectos da minha vida.
Bordar, para mim, é, sobretudo, um prazeroso
exercício de liberdade e assim seja!
Daí que, nos últimos tempos, coloquei o bordado
a serviço da Poesia, o que equivale dizer: adotei
o bordado com causa e como causa.
Nesse contexto, o lado avesso, como também o
direito, é assunto da bordadeira e seu bordado,
uma relação íntima e inexpugnável. É um 
registro do processo, dos caminhos percorridos
em perseguição à beleza, ao sonho, um registro
de embates, da luta, mas também da dança
entre agulha, linha e pano, fala dos riscos,
dos desvios, das marcas do que foi feito, do
que foi desfeito e do que deu pra refazer, dos 
imprevistos e dos improvisos até o bordado
chegar ao fim que, como na Vida, é sempre o 
lugar de um outro começo.
Portanto, tira a mão do meu avesso!"





terça-feira, 30 de novembro de 2021

Tirando da Prateleira: "Talvez" (Vitória A. Treméa)

 


Quando o ser humano se dispõe, o propósito divino se cumpre. E foi assim quando conheci a jovem e adolescente Vitória: com seus 14 anos já tinha um arquivo de poemas inéditos, maravilhosos! E tive o prazer de ser a escolhida para lê-los em primeira mão... com olhar crítico para serem, quem sabe publicados.

Li com atenção e dedicação, um por um. De uma riqueza divina, foram organizados e enviados à editora Nova Letra. Dias e semanas de planejamento, discussão, revisão, visitas à gráfica e... finalmente, o livro publicado!

"Talvez" fosse muito cedo... Vitória tinha apenas 14 anos! 

"Talvez" fosse a hora certa...tanta inspiração merecia ser pública...

"Talvez" fosse este o propósito de Deus. E se foi, cumprido está. Missão cumprida!

Vitória tem este nome não é por acaso: sua mãe teve um parto complicado e foi dito aos seus pais, Aldo e Evani, que o bebê não andaria, não falaria, não ouviria... seria um deficiente pra toda vida. E assim recebeu o nome de Vitória, pois os pais consideraram seu nascimento uma benção. Não aceitaram o diagnóstico médico e partiram em busca de tratamentos e terapias. 

Vitória foi crescendo e vencendo cada desafio, contrariando o diagnóstico. E mais: teve a arte de escrever, sob o olhar e as mãos de Deus, aprimorada. 

Vitória anda, fala, vê, ouve... com uma perspicácia que lhe é própria. Vivenciou muitas fases de preconceito, tanto no meio familiar, de amizades e escolar. Mas venceu, cursou até o Ensino Médio, com êxito. E se mostrou capaz de ingressar na Faculdade. Vitória faz juz ao nome. É vencedora!

Na página 21 de seu livro "Talvez", encontra-se o seguinte poema:

Eu sou de Deus

Claro que é bom estar bem vestido
Disso eu não duvido
Mas não importa a minha roupa
O que importa é o que eu sou
O que importa é o meu coração cheio de amor
e não minha cor
Não importa a deficiência
Bom é ter um mais de paciência
Não importa o que eu tenho ou de onde eu venho
Porque sou de Deus e Ele me ajuda
a realizar os sonhos meus


E esta escritorinha, agora já adulta, continua sua jornada, seu propósito: publicando mensagens valiosas através do Instagram e, inclusive, com lives. 

"Talvez" nada disso tivesse acontecido, não fosse a força e a coragem de seus pais, a fé e a certeza de que juntos superariam todos os desafios. E Vitória absorveu essa força e coragem. Nunca esmoreceu na fé. 



terça-feira, 22 de setembro de 2015

A lenda do Lago (e dos sonhos de poetas)




A lenda do Lago
(E dos sonhos de poetas)

Alcançando a colina, avista-se o Lago, e, se a sorte bater,
Vê-se o Congresso refletido em suas águas...
Mas isto, depois de percorrer caminho entre arvoredos e matas do cerrado.
E ao alvorecer, lá ao longe, no horizonte,
vê-se a bruma compacta da seca. Escura. Quase cinza.
Sabe-se que a seca se avizinha.
Sabe-se que as Caliandras não temerão em florir e colorir-se de vermelho
entre a palha dos matos.
Sabe-se que os Palipalans também não hesitarão em dançar ao som seco do vento.
Sabe-se que os poetas não se recusarão a observar tão flagrante natureza.
Tão fértil, tão sedutora, tão farta.... mesmo na seca.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Aqueles poetas se criaram em meio a uma mesma cultura, embora em espaços geográficos distintos. Longe do cerrado. Havia uma distância marcada e fronteiriça. Havia diferenças.
Casaram, e tiveram filhos.
E um decidiu-se por ser feliz, e deixar que seu companheiro também fosse feliz.
O outro decidiu ser feliz e tentar fazer feliz seu companheiro.
E um decidiu novamente ser feliz, e deixar seu companheiro, igualmente, ser feliz.
O outro decidiu ser feliz e tentar fazer feliz seu companheiro.
Buscaram, de certa forma, a provisão de sua felicidade.
Esqueceram de buscar em si mesmos, a provisão de sua felicidade.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

E rumaram de seus lugares. Seus antigos lugares ficaram no passado,
guardados no íntimo, selados numa ‘caixa de recordações’.
Rumaram para lugares distantes, vencendo serras e escarpas.
Viram as paisagens se alterarem pelo caminho:
Passaram-se os Manacás-da-serra, e houve lugar para os Buritis.
Se apaixonaram pela natureza e por aquele imenso Lago, manso, quase imóvel, a espelhar as nuvens naquelas manhãs de outono...
Rumaram sem rumo certo. Rumaram com certeza incerta. Rumaram na esperança de novas esperanças.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Consolidaram algumas certezas. Outras não. Alguns traíram e outros foram traídos. Alguns amaram e outros foram amados.
Alguns invadiram espaços... e almas. Outros foram sensivelmente tocados.
Alguns versejaram. Outros escutaram. Outros ainda, navegaram milhas no Lago num barco sem leme, com rumo, com prumo e vela. E vento. E brisa...
Consolidaram-se as sementes como as sementes de Caliandras ao vento. Que caem na terra e florescem mesmo na seca. No outono. No cerrado.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Passaram-se alguns tempos. Novamente se fez sexta. Novamente se versava. E se ouvia atentamente. Se conversava atentamente.
E se debruçavam, os poetas, sobre o parapeito da vida, a relembrar os fatos guardados naquela ‘caixa de recordações’... se debruçaram sobre o parapeito da vida, a questionar... a indagar... a comentar... a constatar. A constatar.
Poetas constatam. Poetas visionam e constatam.
Poucos os ouvem. Pois visionam e não há quem os compreenda.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Eis que naquele dia, ousaram percorrer o Lago. Ousaram transpassar as águas de março daquele Lago calmo, sereno, azul em seu reflexo de outono.
E se estenderam pela margem, sobre a relva das margens, a observar o imenso sol que se ia. Se ia no horizonte. Sem montanhas. Não há montanhas no cerrado. Há nuvens multicores.
Nuvens de crista rendilhadas com cores fortes e brilhantes.
Há raios multicores e fortes, de um sol que tenta se prender pra não cair na linha do horizonte. E grita em cores berrantes sua angústia de cair. E de ir-se. Por fim deixa-se cair. Deixando em seu vazio a noite escura.
Mas eis que surge, do outro lado do horizonte, por trás de um cálido, pálido e rosado horizonte, a lua do equinócio de outono.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Foram-se os poetas. Foram-se pela madrugada, trovando e versando.
O Lago aguarda, a cada estação, as trovas e os versos de outono. Aguarda e melodia calmo, solitário, em reflexos de luzes e construções. No reflexo distante do Congresso. Duas torres. Duas poesias. Dois sonhos.
Onde ficaram seus versos? Onde ficaram os poetas das manhãs e das tardes?
Onde ficaram os sabores das almas apaixonadas, ousadas e cheias de projetos? Cheias de aventurescas buscas? Talvez... tenham ido buscar, em si mesmos, a provisão de sua felicidade.
O Lago nunca mais os viu... mas aguarda seu retorno, a cada outono... nos raios de lua a refletir no Lago... nos raios de sol nos fins de tarde.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

(Autora: Ellen Crista da Silva)

domingo, 8 de março de 2015

A RODA DA VIDA

Ela, com chapéu
de aba bem redonda,  
me deu um papel...
Sentei  no banco
redondo do Cruzeiro
e enrolei o dedo no lápis...
O menino correu em volta...
Os poetas cantaram em círculo...
O sol se pôs...
lentamente...

Assim corre o mundo
em seu círculo...
Corre o menino no seu mundo...
Corre a mulher de chapéu no seu dia...
Assim vamos seguindo, a roda da vida.


Texto e foto: Ellen Crista da Silva