Quaresma, Páscoa... tradições e religiões... estamos na época da Festa do Divino, uma festa tradicional em Penha, desde os primórdios, segundo o livro "Penha: Relicário do Divino", da escritora Maria do Carmo R. Krieger e do qual extraio alguns pequenos trechos:
(...) Provocando o imaginário, surge a pergunta: como era Penha antigamente?
(...) O lugar Itapocorói ocupava destaque na região; tornar-se-ia conhecido de tantos quantos navegavam pela região, haja vista ter sido parada obrigatória para abastecimento entre São Francisco do Sul e a Ilha de Santa Catarina, no litoral catarinense. (Foto ao lado:Eduardo Bajara de Souza - Penha)
Localizado numa enseada, Itapocorói, foi ocupado no início de 1777 por portugueses açorianos e teve ao seu nome acrescentado Armação, pois abrigou as sedes administrativas e industriais de processamento das baleias caçadas na região, transformando-se em Armação de Itapocorói.
(...) Visconde de TAUNAY (1926:69) escreveu sobre os panoramas marítimos estupendos e inesquecíveis que encontrou durante suas viagens por Santa Catarina, quando anotou que “tive o ensejo de realizar algumas das mais lindas viagens de minha vida” (1880 e 1885), ao passar no litoral de Penha:
“De um então guardo a mais violenta impressão, o da ponta de Itapocoroy, junto à velha armação para pesca da baleia, de que há restos ainda. Tentei descrevel-o nos meus Ceos e Terras do Brasil, mas quando releio as minha páginas e comparo o que disse ao que vi, vem-me o sentimento da pequenez humana ante a grandiosidade divina. Que painel aquelle! Quanta magnificência, serenidade e amplidão naquelles aspectos do Oceano bravio, a açoutar os penhascos da Ponta Negra e da Vigia?”
(...) Que tipo de gente veio para Penha, legando-nos o “jeito de ser açorian” ?
O português açoriano era criativo. Em Santa Catarina, aprendeu com os últimos carijós, índios que habitavam a região, o uso da mandioca, desenvolvendo engenhos que produziam farinha. Típico acompanhamento de pratos à base de peixes, a farinha de mandioca transformada em pirão é receita tradicional do litoral catarinense e não pode faltar na mesa do pescador artesanal, nas dos restaurantes e, mesmo, nas residências de não pescadores.
Esse português, muito religioso, era também de origem humilde (...) Apegou-se à religião católica como maneira de sobrevivência, transformando-a na Fé em louvor ao Divino Espírito Santo com tamanho fervor que as nove ilhas açorianas também são conhecidas como as Ilhas do Espírito Santo.
(...) A festa do Divino Espírito Santo teve origem em Portugal, quando a rainha Dona Isabel (1271-1336), casada com o Rei Dom Diniz, propagou a devoção ao Espírito Santo no país. (...) a rainha Isabel coroava um “Imperador”, que tomava o lugar do Rei, ocasião em que ela servia um banquete aos pobres e distribuía esmolas. Com tais gestos de caridade é fácil entender porque a cerimônia tornou-se peculiar entre pessoas carentes de Portugal.
(...) De Portugal, a Festa do Divino chegou às Ilhas dos Açores, através dos freis franciscanos e seus conventos, fortalecendo-se como tradição.
(...) Em Penha, porém, a Festa do Divino resulta num universo único, em que o espaço geográfico
abrigou e abriga atividades ligadas à tradição do evento, consolidando um forte sentimento de religiosidade. Fidelidade às origens, constância na espiritualidade, uma religião para exprimir a fé como dogma e crença na Santíssima Trindade são modelos do cristianismo presente na memória de um povo que cultua, além da função religiosa, um encontro social e o compromisso de celebrar tradições.
(...) Qual a função do Imperador?
É o Imperador quem administra toda a organização da Festa, auxiliado por súditos que o acompanharão durante todo o tempo do Império – período que dura um ano: desde a tarde de domingo quando é aclamado no cargo, até a segunda-feira, Oitava do Divino, do ano seguinte...
(Fonte: Krieger, Maria do Carmo Ramos, Penha: Relicário do Divino, 1ª Ed, Oficina Birô de Criação, 2018)



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