A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA
Tradução e revisão
Mônica Funfgelt
15/06/2021
Passado um mês Manoel já conseguia andar com a ajuda de uma bengala. Após
14 dias o pai de Bento o levou ao médico, já que estava enxergando muito pouco
com aquele olho machucado. O clínico fez um exame minucioso e chegou a
conclusão que também com aquele olho, que teve ferimentos leves, não havia mais
muito o que fazer, ainda assim não quis lhe tirar totalmente as esperanças e
recomendou a Bento que tivesse paciência, que talvez, com o tempo, houvesse
alguma melhora. No entanto Bento já havia percebido, pela expressão de
seriedade do médico, que ele iria ficar completamente cego.
E após chegar em casa, com seu espírito destroçado, ele confessou a
tentativa de assassinato, solicitando que fosse levado logo à prisão porque à
essa altura tanto fazia se estivesse lá ou em qualquer outro lugar. Álvaro Ribeiro,
porém, sugeriu que tudo fosse tratado como um acidente com o que, de pronto,
Manoel também concordara o que evitou gritarias e maiores confusões.
“Para você ver” disse dona Elvira ao marido, “é uma dádiva de Deus, Ele não
quer que a nossa Acaricia se case com Bento”. “Bem”, respondeu Pedro, “é claro
que ela não deve escolher o caolho, mas se ela acha que vai conseguir ficar com
o Manoel agora, está muito enganada”. “Dona Elvira comentou isso com a filha e
ela, que já tinha renovado suas esperanças, voltou a ficar deprimida.
Uma grande euforia reinava entre os pescadores da Armação. Nas suas redes
havia uma quantidade de pequenos
tubarões-martelo, corvinas, pescadas, robalos, bagres, arraias e, nas linhas de
pesca, cinco grandes tubarões foram capturados. Esse tubarões, chamados de Cações,
precisam primeiramente, antes de tirar-lhes os anzois, ser mortos a pauladas,
pois é impossível trazê-los até a canoa. Eles são tão grandes e pesados que
parecem porcos obesos.
Exceto pelo esqueleto, a carne não tem espinhos, não tem gosto ruim, mas
parece não ser saudável se você viver exclusivamente dela. Você retira a pele
do tubarão e depois seca a carne. Do fígado extrai-se o óleo. Este tipo de
tubarão dá à luz filhotes vivos. Para os pescadores, a rica captura significa
um aumento nos seus ganhos. Não era de se admirar que à noite todos quisessem
colocar novas redes e varas de pesca. Navega-se um bom trecho mar adentro, pois
os tubarões amam águas mais profundas, um hábito que só pode mesmo ser
agradável para os veranistas.
Também Pedro Ricaço teve de ir, já que havia pouco pessoal para ajudar e
Manoel lhe fazia falta. Ao anoitecer tudo começou e esperava-se que em breve
todos retornariam. Manoel havia recebido ofertas de alguns pescadores para
acompanhá-los, mas teve que recusar porque seu ferimento na perna ainda não
estava completamente curado. Uma fogueira era mantida na praia para que, se os
pescadores fossem surpreendidos pela escuridão, eles pudessem encontrar o
caminho de volta.
Subitamente formou-se uma grande ventania. A inquietação tomou conta do
lugar. Os homens, as mulheres e as crianças estavam na praia e comentavam o
assunto. Permaneceu-se noite adentro, que estava escura como breu. O vento
transformou-se em uma tempestade e nenhum barco voltara. Por fim, aqueles que
esperavam rumaram de corações partidos para suas casas. Naquela noite, com
exceção dos jovens, nenhum outro ser humano conseguiu fechar os olhos.
Bem cedo, ao raiar do dia, a praia estava novamente lotada. Nenhum barco
havia aportado. Pessoas choravam e gesticulavam. Por volta do meio dia o
telegrafista da Penha trouxe um telegrama endereçado à Alvaro Ribeiro, que
dizia que quatro barcos haviam chegado ao porto de São Francisco e seus
proprietários tinham sido mencionados. As famílias envolvidas ficaram muito
felizes. Só dona Elvira e a filha estavam desesperadas na praia, o telegrama
nada dizia sobre Pedro Ricaço. Manoel consolou-as, dizendo que o pai estaria em
algum lugar a salvo. Mas seu consolo não funcionou, porque nem mesmo ele
realmente acreditava naquela possibilidade.
A tempestade estava acalmando. Manoel não aguentava mais ver o sofrimento
daquelas mulheres e disse que iria, pelo menos uma vez com seu pequeno barco a
vela, navegar até a Ilha do Diabo, que estava a uma distância de, talvez, umas
duas milhas entre Armação e Penha. “Queres que eu também perca você, Manoel?”,
protestou Acaricia.
Mas a mãe convencera o jovem. Ele se despediu delas e empurrou sua canoa
para a margem. Seu pai, o velho Castro, insistia em ir junto. “Mesmo que eu não
consiga remar muito, estarei no comando, apenas me leve com você, meu filho”.
Com esforço a arrebentação fora vencida e debaixo de forte balançar as
velas foram içadas. A maré ainda estava bastante alta. Assim, aquela pequena
casca de noz voou em direção à Ilha do Diabo. Esta surgia e exibia uma gruta
com formações rochosas como estalactites algumas das quais, infelizmente,
haviam sido arrancadas por ganância ou ignorância.
continua...
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