segunda-feira, 21 de junho de 2021

Penha de outrora T2E4: Artigo do Jornal "Der Urwaldsbote, ano1922" - Blumenau

 

A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA 

Tradução e revisão Mônica Funfgelt

15/06/2021

Até então, Manoel auxiliara Pedro Ricacho na puxada de rede. Após o incidente na hospedaria da Penha, Pedro mandou dizer-lhe que não precisava mais dos seus préstimos. Isso fora deveras desalentador para os enamorados, mas não havia mais o que fazer. Desta forma, Manoel passou a pescar sozinho, mas sem rede lograva pouco êxito, além de não receber o bastante para continuar sustentando seus pais e irmãos.

O velho Castro procurava trabalho entre os veranistas que povoavam a Armação nesta época do ano. Ele fazia aquilo muito a contragosto. Quando conseguia algo, mal ganhava o magro salário de 2 Milréis. No entanto as pessoas tinham compaixão e lhe davam algumas coisas, sim, ele recebia as sobras das refeições, pão e outros alimentos os quais ele levava para a família.

Manoel fora até a Praia Brava com o caniço, a vara de bambu com arame em vez de barbante, para pegar Garoupa. A Praia Brava é constituída por um conjunto de rochas musgosas de arestas cortantes nas quais as ondas arrebentam, formando espuma e redemoinhos. É ali que esses peixes preferem ficar. Claro, é preciso habilidade e força para cansar um vilão tão rebelde depois que ele é fisgado e o trazer para a praia. A Garoupa pesa até 20 quilos e é um dos peixes mais saborosos que há.

Manoel estava em pé sobre uma daquelas pedras irregulares e escorregadias. Sentira algumas fisgadas mas nenhuma mordida. Em seguida notara mais uma fisgada e rapidamente arrancou a vara de pescar da água, então recebeu um empurrão e, não conseguindo mais se segurar na rocha lisa, caiu de cabeça no redemoinho. Ele ouviu um grito terrível e então o turbilhão de ondas o atingiu.

Manoel havia sido jogado em um caldeirão do qual não conseguiria mais escapar sozinho, sem ajuda externa. Seu corpo fora jogado contra as rochas afiadas pela rebentação, que subia e enchia novamente. Quando a onda recuou, ele clareou a cabeça por um momento e conseguiu respirar mas, imediatamente depois, a água mais uma vez trovejou sobre ele. Achando que tudo estaria perdido, quando a água tornou a ficar mais rasa, uma vara de pescar lhe fora alcançada, na qual se agarrou mecanicamente. Um homem estava na rocha segurando a vara. Então a maré voltou. Manoel ficara submerso por pouco tempo e emergira. “Segure-se”, gritou o salvador. “Agora, rápido, me dê sua mão, mas não solte a vara!” Com mais um forte puxão Manoel estava a  salvo. Já não era sem tempo. Mal alcançou a rocha, desabou exausto e sangrando profusamente.

O que havia acontecido? Deixei que o pescador Ignacio contasse. Assim ele relatou:

 “Eu estava em pé sobre uma rocha não muito longe do local do acidente, mas não vi ninguém e não sabia que mais alguém pescava por perto. Eu estava prestes a montar uma armadilha para peixes, depois de ter cortado uns gravetos, quando ouvi um grito que abafou até mesmo as ondas mais barulhentas. Este grito fora tão agudo e forte que permaneceu ecoando em mim. Com o meu caniço na mão, corri ao local, e lá vi uma pessoa deitada na pedra, contorcendo-se como se tivesse cãibras. Ao mesmo tempo, a cabeça e o braço de outra pessoa emergiam do redemoinho, mas imediatamente eram novamente engolidos pela maré. Com a ajuda da minha vara de pescar, salvei o homem quase afogado quando a água baixou. Só depois disso me dei conta de cuidar do outro. Então eu vi algo terrível. Bento estava sentado ali e lutava para tirar um anzol do olho, o que é claro que não conseguira. Ele logo desistiu e gritou que eu deveria ajudá-lo. Busquei água para verificar o quão fundo estava aquele anzol, limpei-lhe o sangue e vi que nada poderia ser feito sem ajuda médica, Bento obviamente estava com dores terríveis. ”

Ainda conforme Ignacio.

Naquele momento chamaram Álvaro Ribeiro um velho calmo e simpático que há 30 anos reside na Armação, que tinha poder de polícia e era também o chefe político. Todos suspeitavam que por ali algo estaria errado porque era sabido que os dois feridos eram inimigos ferrenhos. Álvaro Ribeiro mandou levá-los para o primeiro abrigo, depois buscaria um médico que só poderia vir de Itajaí à noite e, ainda,  tinha de avisar os pais dos dois.

 

Bento gritava por ajuda. Ele não suportava mais aquelas dores terríveis. Queria um revólver para dar cabo de sua vida e, embora ele soubesse que seu desejo jamais seria atendido por ningém, ele então pediu cachaça, para anestesiar-se. A bebida foi-lhe entregue, afinal de contas algo tinha de ser feito.

 

Seu pai estava muito desesperado e queria saber como havia acontecido o acidente, mas Bento não dava informações suficientes. Finalmente, depois de muitas horas, o médico veio a cavalo. Sabendo o que era, levava consigo cocaína e morfina. Ele examinou, lavou, anestesiou o olho ferido e extraiu o anzol. O outro olho também estava ligeiramente arranhado, mas o médico ainda não era capaz de dizer se a visão havia sofrido algum dano. O olho cortado sumiu, é claro. Desta feita deu a Bento um pouco de morfina em pó, arrumou algumas compressas e se dirigiu a Manoel. Lavou suas feridas, enfaixou os piores ferimentos e se retirou.

continua...

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