A LINDA ACARICIA, DA ARMAÇÃO UMA HISTÓRIA DE PESCADOR DO LITORAL DE SANTA CATARINA
Tradução e revisão
Mônica Funfgelt
15/06/2021
Até então, Manoel auxiliara Pedro Ricacho na puxada de rede. Após o
incidente na hospedaria da Penha, Pedro mandou dizer-lhe que não precisava mais
dos seus préstimos. Isso fora deveras desalentador para os enamorados, mas não
havia mais o que fazer. Desta forma, Manoel passou a pescar sozinho, mas sem
rede lograva pouco êxito, além de não receber o bastante para continuar
sustentando seus pais e irmãos.
O velho Castro procurava trabalho entre os veranistas que povoavam a
Armação nesta época do ano. Ele fazia aquilo muito a contragosto. Quando conseguia
algo, mal ganhava o magro salário de 2 Milréis. No entanto as pessoas tinham
compaixão e lhe davam algumas coisas, sim, ele recebia as sobras das refeições,
pão e outros alimentos os quais ele levava para a família.
Manoel fora até a Praia Brava com o caniço, a vara de bambu com arame em
vez de barbante, para pegar Garoupa. A Praia Brava é constituída por um
conjunto de rochas musgosas de arestas cortantes nas quais as ondas arrebentam,
formando espuma e redemoinhos. É ali que esses peixes preferem ficar. Claro, é
preciso habilidade e força para cansar um vilão tão rebelde depois que ele é
fisgado e o trazer para a praia. A Garoupa pesa até 20 quilos e é um dos peixes
mais saborosos que há.
Manoel estava em pé sobre uma daquelas pedras irregulares e escorregadias.
Sentira algumas fisgadas mas nenhuma mordida. Em seguida notara mais uma
fisgada e rapidamente arrancou a vara de pescar da água, então recebeu um
empurrão e, não conseguindo mais se segurar na rocha lisa, caiu de cabeça no
redemoinho. Ele ouviu um grito terrível e então o turbilhão de ondas o atingiu.
Manoel havia sido jogado em um caldeirão do qual não conseguiria mais
escapar sozinho, sem ajuda externa. Seu corpo fora jogado contra as rochas
afiadas pela rebentação, que subia e enchia novamente. Quando a onda recuou,
ele clareou a cabeça por um momento e conseguiu respirar mas, imediatamente
depois, a água mais uma vez trovejou sobre ele. Achando que tudo estaria
perdido, quando a água tornou a ficar mais rasa, uma vara de pescar lhe fora
alcançada, na qual se agarrou mecanicamente. Um homem estava na rocha segurando
a vara. Então a maré voltou. Manoel ficara submerso por pouco tempo e emergira.
“Segure-se”, gritou o salvador. “Agora, rápido, me dê sua mão, mas não solte a
vara!” Com mais um forte puxão Manoel estava a
salvo. Já não era sem tempo. Mal alcançou a rocha, desabou exausto e
sangrando profusamente.
O que havia acontecido? Deixei que o pescador Ignacio contasse. Assim ele
relatou:
“Eu estava em pé sobre uma rocha não
muito longe do local do acidente, mas não vi ninguém e não sabia que mais
alguém pescava por perto. Eu estava prestes a montar uma armadilha para peixes,
depois de ter cortado uns gravetos, quando ouvi um grito que abafou até mesmo
as ondas mais barulhentas. Este grito fora tão agudo e forte que permaneceu
ecoando em mim. Com o meu caniço na mão, corri ao local, e lá vi uma pessoa
deitada na pedra, contorcendo-se como se tivesse cãibras. Ao mesmo tempo, a
cabeça e o braço de outra pessoa emergiam do redemoinho, mas imediatamente eram
novamente engolidos pela maré. Com a ajuda da minha vara de pescar, salvei o
homem quase afogado quando a água baixou. Só depois disso me dei conta de
cuidar do outro. Então eu vi algo terrível. Bento estava sentado ali e lutava
para tirar um anzol do olho, o que é claro que não conseguira. Ele logo
desistiu e gritou que eu deveria ajudá-lo. Busquei água para verificar o quão
fundo estava aquele anzol, limpei-lhe o sangue e vi que nada poderia ser feito
sem ajuda médica, Bento obviamente estava com dores terríveis. ”
Ainda
conforme Ignacio.
Naquele momento chamaram Álvaro Ribeiro um velho
calmo e simpático que há 30 anos reside na Armação, que tinha poder de polícia
e era também o chefe político. Todos suspeitavam que por ali algo estaria
errado porque era sabido que os dois feridos eram inimigos ferrenhos. Álvaro
Ribeiro mandou levá-los para o primeiro abrigo, depois buscaria um médico que
só poderia vir de Itajaí à noite e, ainda,
tinha de avisar os pais dos dois.
Bento gritava por ajuda. Ele não suportava mais
aquelas dores terríveis. Queria um revólver para dar cabo de sua vida e, embora
ele soubesse que seu desejo jamais seria atendido por ningém, ele então pediu
cachaça, para anestesiar-se. A bebida foi-lhe entregue, afinal de contas algo tinha
de ser feito.
Seu pai estava muito desesperado e queria saber como havia acontecido o
acidente, mas Bento não dava informações suficientes. Finalmente, depois de
muitas horas, o médico veio a cavalo. Sabendo o que era, levava consigo cocaína
e morfina. Ele examinou, lavou, anestesiou o olho ferido e extraiu o anzol. O
outro olho também estava ligeiramente arranhado, mas o médico ainda não era
capaz de dizer se a visão havia sofrido algum dano. O olho cortado sumiu, é
claro. Desta feita deu a Bento um pouco de morfina em pó, arrumou algumas
compressas e se dirigiu a Manoel. Lavou suas feridas, enfaixou os piores
ferimentos e se retirou.
continua...
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