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terça-feira, 18 de outubro de 2022

As Preces (Kahlil Gibran)

Então, uma sacerdotisa disse:

"Fala-nos das Preces."

E ele respondeu, dizendo:

"Vós rezais em vossas aflições e em vossas necessidades; pudésseis rezar também na plenitude de vossa alegria e em vossos dias de abundância.

Pois o que é a prece senão a expansão de vosso ser no éter da vida?

E se vos traz conforto verter vossas trevas no espaço, exalar a aurora de vossos corações também vos traz deleite. (...)

Quando rezais, vos elevais a fim de encontrar aqueles que estão a rezar no mesmo instante, e com quem, salvo em preces, talvez não vos encontraríeis.

Portanto, que vossa visita a esse templo invisível não sirva a outro propósito além de êxtase e harmoniosa comunhão. (...)

Não posso ensinar-vos a orar com palavras. 
Deus não escuta vossas palavras, salvo quando Ele próprio as pronuncia através de vossos lábios.

E não posso ensinar-vos a oração dos mares, das florestas e das montanhas.
Mas vós que nascestes das montanhas, das florestas e dos mares, podeis encontrar suas preces em vosso coração, e se escutardes apenas em meio ao silêncio da noite, podereis ouvi-los dizendo em silêncio:

'Deus nosso, que és nosso Eu-alado, 
é Tua vontade em nós que se expressa.
É Teu desejo em nós que deseja.
É Teu ímpeto em nós que deseja transformar nossas noites, 
que são Tuas, em dias que são Teus também.
Nada Te podemos pedir, pois conheces nossas 
necessidades antes mesmo que surjam em nós:
Tu és nossa necessidade; e dando-nos mais de Ti, 
Tu nos dás tudo'."



(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)








segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Os Filhos (Kahlil Gibran)

 


E uma mulher, com um bebê ao colo, disse:

"Fala-nos de Filhos."

E ele disse:

"Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da aspiração divina pela vida.

Vem por vosso intermédio, mas não de vós;
E embora estejam convosco, não vos pertencem.

Podeis conceder-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos; pois tem seus próprios.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois elas abrigam-se no amanhã, que não podeis visitar nem mesmo em sonho. 

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis torná-los iguais a vós; pois a vida não segue para trás nem retarda-se com o ontem.

Sois os arcos com os quais vossos filhos são lançados qual setas vivas.
O Arqueiro aponta na direção do infinito, e vos curva com Sua força para que Suas flechas sejam lançadas, rápidas e certeiras, para bem longe.

Ao deixar-se encurvar pelas mãos d'O Arqueiro, sede felizes; pois assim como Ele ama a seta que voa, ama também o arco que é estável."








(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)

sábado, 15 de outubro de 2022

O Ensino (Kahlil Gibran)

Então, um professor falou:

"Fala-nos do Ensino."

E ele disse:

"Nenhum homem pode revelar-vos o que não esteja semi-adormecido no alvorecer do vosso conhecimento.


O mestre que caminha nas sombras do templo, entre seus seguidores, não doa de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.

Se for realmente sábio, não vos convidará a entrar na mansão de seu saber, mas, sim, vos conduzirá ao limiar de sua própria mente.


O astrônomo pode falar-vos de seu conhecimento do espaço, mas não poderá passar-vos sua compreensão. O músico pode cantar o ritmo que existe em todo o espaço, mas não pode conceder-vos o ouvido que capta a melodia nem a voz que a reproduz. (...)

Pois a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem.

E assim como cada um de vós está isolado na consciência de Deus, cada um deve vivenciar seu conhecimento de Deus e ter sua compreensão do mundo."


Parabéns, Professor, pelo seu dia!!!


(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)





quinta-feira, 13 de outubro de 2022

A Amizade (Kahlil Gibran)

 E um jovem disse:

"Fala-nos da Amizade."

E ele respondeu, dizendo:

"Vosso amigo é a resposta a vossas necessidades.

Ele é vosso campo, que semeais com amor e colheis com gratidão.


E ele é vossa mesa e vossa lareira. Pois ides a ele com fome, e buscais nele vossa paz.

(...) na Amizade, os pensamentos, os idais e as expectativas nascem e são compartilhados, sem palavras, em silenciosa alegria.

Quando vos separais de vosso amigo, não vos afligis; pois o que amais nele pode evidenciar-se na sua ausência, como a montanha, para o alpinista, é mais evidente da planície.

E que não haja propósito na amizade, salvo o aprofundamento do espírito. Pois o amor que busca algo mais do que a revelação de seu próprio mistério não é amor, esim uma rede armada: e só o inaproveitável é apanhado.


E que o melhor de vós seja para vosso amigo. (...)

Pois que amigo é esse que só procurais a fim de matar o tempo? 
Procurai-o sempre para viver o tempo.
Pois cabe-lhe satisfazer vossa necessidade, mas não preencher vosso vazio.

E na deoçura da amizade, que haja risos e que se compartilhem prazeres.
Pois no orvalho de pequenas coisas, o coração encontra sua manhã e se refaz."



(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)

 



terça-feira, 11 de outubro de 2022

A Conversa (Kahlil Gibran)

 

E então, uma sábio disse:

"Fala-nos da Conversa."

E ele respondeu, dizendo:

"Vós conversais quando deixais de estar em paz com vossos pensamentos; e quando não mais podeis habitar a solidão de vosso coração, viveis em vossos lábios, e o som é uma diversão e um passatempo.

E em muitas de vossas conversas, o pensamento é obliterado. 

Pois ele é um pássaro livre que, confinado a palavras, pode até abrir as asas, mas é incapaz de voar.


Há, dentre vós, os que buscam conversar por medo de ficarem sós.

A quietude da solidão revela aos seus olhos seu Eu-desnudo, e preferem esquivar-se.

E há os que conversam e, sem conhecimento ou preocupação, revelam uma verdade que eles próprios não compreendem.

E há os que tem consigo a verdade; mas não a expressam com palavras. No íntimo destes habita a alma em silêncio rítmico.

Ao encontrar vosso amigo na estrada ou no mercado, deixai que o espírito que existe em vós mexa vossos lábios e conduza vossa língua.

Deixai que a voz dentro de vossa voz fale para o ouvido dentro de seu ouvido.

Pois sua alma guardará o segredo de vosso coração; como o sabor do vinho é lembrado, quando a cor é esquecida e o cálice não existe mais."



(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)



segunda-feira, 10 de outubro de 2022

As Roupas (Kahlil Gibran)

 

o tecelão disse:

"Fala-nos das Roupas."

E ele respondeu:

"Vossas roupas escondem muito de vossa beleza, embora deixem à mostra o que não é belo. E embora busqueis nelas a liberdade de vossa privacidade, podereis assim encontrar rédeas e grilhões.

Pudessem o sol e o vento banhar vossos corpos e não vossas vestes, pois o sopro da vida está na luz do sol, e a mão da vida, no vento.

Alguns de vós dizeis: 'O vento do norte teceu as roupas que vestimos.'  

E eu vos digo: Sim, foi o vento do norte, mas a vergonha serviu-lhes de tear, e seu fio enfraquece vosso tecido. E quando o trabalho estava concluído, pôs-se a rir na floresta.

Não vos esqueçais de que o recato é um escudo contra o olho do impuro.

E quando impuros não mais houver, o que teria sido o recato, senão aprisionamento e obstrução da mente?

E não vos esqueçais: a terra se regozija ao sentir vossos pés descalços e o vento adora soprar vossos cabelos. "

sábado, 8 de outubro de 2022

As Casas (Kahlil Gibran)


E
ntão, um pedreiro aproximou-se e disse:

"Fala-nos das Casas."

E ele respondeu, dizendo:

"Construí em vossa imaginação um abrigo distante da cidade antes de construirdes uma habitação dentro dela.

Pois tal como regresseis à vossa casa ao cair da noite, assim o faz vosso ser errante, eternamente distante e solitário.

Vossa casa é a extensão de vosso corpo.

Cresce ao sol e dorme na quietude da noite; e não deixa de sonhar. (...)

E dizei-me, povo de Orphalese, o que tendes nessas casas? E o que são as coisas que guardais a portas trancadas? Tendes paz, o ímpeto silencioso que revela vossa força? Tendes lembranças, os bruxuleantes arcos que se elevam nos cumes da mente? Tendes beleza, que conduz o coração das coisas feitas de madeira e pedra até a montanha sagrada?

Dizei-me: tendes tais coisas em vossas casas?

Ou tendes somente conforto, e a luxúria do conforto, aquele desejo sorrateiro que entra na casa como visita, torna-se hóspede, para logo tornar-se dono? (...)

Esse desejo embala-vos o sono apenas para poder zombar de perto da dignidade de vosso corpo. (...)

De fato, a cobiça pelo conforto trucida a paixão da alma e sibe um largo sorriso durante os funerais.


Mas vós, filhos do espaço, irriquietos em vosso repouso, não sereis capturados nem domados.

Vossa casa não será uma âncora, mas sim um mastro. Não será uma película cintilante que recobre a ferida, mas sim uma pálpebra que protege o olho. (...)

E, embora magníficas e esplêndidas, vossas casas não deverão guardar vossos segredos nem abrigar vossas aspirações.

Pois o infinito dentro de vós habita a mansão do céu, cuja porta é a névoa matinal, e as janelas, as canções e os silêncios da noite."




(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)













quinta-feira, 6 de outubro de 2022

O Trabalho (Kahlil Gibran)

 


Então, um lavrador disse:

"Fala-nos do Trabalho."

E ele respondeu, dizendo:

"Vós trabalhais para vos manter no compasso da terra e da alma da terra.

Pois ser indolente é intrometer-se nas estações e afastar-se da procissão da vida, que segue majestosa e orgulhosamente submissa, rumo ao infinito.

Ao trabalhardes, sois uma flauta cujo coração o murmúrio das horas atravessa e transforma-se em música. Quem de vós permaneceria silente como um junco quando tudo ao redor canta em uníssono?

Sempre vos disseram que o trabalho é uma sina e a labuta um infortúnio. Mas eu vos digo que, ao trabalhardes, estais realizando o sonho mais longínquo da terra, a vós designado quando nascestes. E, apegando-se à labuta, estareis amando verdadeiramente a vida, e quem ama a vida através do trabalho compartilha do seu segredo mais íntimo. (...)

E o que é trabalhar com amor?

É tecer o pano com o fio de vosso coração, como se vosso bem-amado fosse mesmo trajá-lo.

É construir uma casa com afeto, como se vosso bem-amado fosse mesmo habitá-la.

É plantar as sementes com ternura e fazer a colheita com alegria, como se vosso bem-amado fosse mesmo comer as frutas.

É impregnar tudo que fazeis com o sopro de vossa própria alma, e saber que todos os mortos abençoados estão vos observando de perto. (...)


E eu vos digo, não em sono, mas na plena vigília do meio-dia, que o vento não fala com mais doçura ao carvalho gigante do que à menor das hastes da relva;

E só é grandioso aquele que transforma, com seu próprio amor, o murmúrio do vento em música ainda mais serena.

O trabalho é amor tornado visível. (...)

Pois se fazeis o pão com indiferença, vós o fazeis amargo, incapaz de saciar a fome do homem.
E se tendes rancor ao amassar a uva, vosso ressentimento destila veneno no vinho.

E ainda que cantais como anjos, mas não amais vosso canto, impedis que o homem ouça as vozes do dia e da noite."


(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)


terça-feira, 4 de outubro de 2022

O Amor (Kahlil Gibran)


E
ntão, Almitra disse:

"Fala-nos do Amor."

E ele elevou a cabeça e fitou o povo, e uma quietude os envolveu. E com a voz forte, ele disse:

"Quando o amor vos acenar, segui-o, embora seus caminhos sejam árduos e íngremes.
E quando suas asas vos envolverem, entregai-vos,
Embora a espada oculta em sua plumagem possa ferir-vos.
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento do norte devasta o jardim.

Pois ainda que o amor vos possa coroar, ele tembém vos pode crucificar.
Ainda que seja para vosso crescimento, também contribui para podar-vos. (...)

Todas estas coisas o amor fará por vós a fim de que vos torneis sabedores dos segredos de vossos corações, e que, imbuídos desse saber, vos transformeis num fragmento do coração da Vida. (...)



O amor não possui nem quer ser possuído;
Pois o amor ao amor se basta. (...)

O amor não tem outro desejo senão o de atingir sua plenitude. (...)

E o de retornardes à casa ao anoitecer, plenos de gratidão;
E então adormecerdes com uma oração para o bem-amado em vossos corações e uma cantiga de louvor em vossos lábios."


(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O Casamento (Kahlil Gibran)

 

Então, Almitra tornou a falar e perguntou:

"E o que nos dizes do Casamento, mestre?"

Em resposta, ele disse:


"Vós nascestes juntos, e juntos permanecereis para sempre.
Estareis juntos quando as brancas asas da morte dissiparem vossos dias.
Sim, estareis juntos ainda no silêncio da memória divina.
Mas que haja espaço em vossa união,
E que os ventos do céu passeiem entre vós.


Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão:
Que as ondas do mar passeiem entre as praias de vossas almas.
Enchei o cálice um do outro, mas não bebei do mesmo cálice.
Dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho,
Como as cordas do alaúde que, separadas, vibram em harmonia.

Dai vossos corações, mas não os confiai um ao outro, 
Pois somente a providência divina pode contê-los.

E permanecei juntos, mas não em demasia: 
Pois os pilares do templo erguem-se separados,
E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro."




(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)




sábado, 1 de outubro de 2022

O Tempo (Kahlil Gibran)

 

E um astrônomo disse:

"Mestre, o que nos dizes do tempo?"

E ele respondeu: "Desejaríeis medir o tempo, o ilimitado e imensurável. 
    

Desejaríeis ajustar vossa conduta e até mesmo orientar o curso de vosso espírito de acordo com as horas e estações.
    Do tempo, faríeis um córrego sobre cujas margens sentar-vos-íeis a mirá-lo.
    Mas o que em vós escapa ao tempo sabe que a vida escapa ao tempo, e sabe que o ontem é mera lembrança do hoje, e o amanhã, o sonho do hoje.
    E que aquilo que em vós canta e contempla ainda habita os confins do primeiro momento que espalhou os astros pelo espaço. (...)



    
    E não é o tempo tal qual o amor, indivisível e incontido?
    Mas se vossos pensamentos precisam medir o tempo em estações, que cada uma dessas estações envolva todas as outras.
    E que o dia de hoje abrace o passado com nostalgia e o futuro com aspirações."


(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Tirando da Prateleira: "O Profeta" (Kahlil Gibran)

 

Quem nunca??? Leitura de cabeceira no nosso tempo de Segundo Grau, início de Faculdade, etc...

Um jeito de entender a vida e suas nuances. Algumas respostas a questionamentos da fase adolescente e quase maturidade. Ou então, mais questionamentos surgiam! Mas era um alento, um conforto, deparar-se com um "profeta" que sabia dizer o que precisávamos ouvir.

O livro fala dos assuntos mais profundos da humanidade: o amor, o casamento, a liberdade, o trabalho, filhos, tempo, beleza, religião etc. Leva o leitor, sem sombra de dúvida, a uma profunda reflexão sobre a existência.

"Todas essas coisas o amor fará por vós a fim de que vos torneis sabedores dos segredos de vossos corações, e que, imbuídos desse saber, vos transformeis num fragmento do coração da Vida." (p.14)

"O amor não possui nem quer ser possuído;
Pois o amor ao amor se basta."(p.14)

"Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da aspiração divina pela vida.
Vêm por vosso intermédio, mas não de vós;
E embora estejam convosco, não vos pertencem."(p.19)

"Vós trabalhais para vos manter no compasso da terra e da alma da terra." (p.27)

"Ao trabalhares, sois uma flauta cujo coração o murmúrio das horas 
atravessa e transforma-se em música.
Quem de vós permaneceria silente como um junco quando tudo ao redor
canta em uníssono?" (p.27)

"O trabalho é amor tornado visível.
E se não podeis trabalhar com amor, mas somente com dissabor,
é melhor abandonar vosso trabalho e ir sentar-vos à porta do templo
à espera de esmolas daqueles que trabalham com alegria." (p.29)



"E ainda que cantais como anjos, mas não amais vosso canto,
impedis que o homem ouça as vozes do dia e da noite." (p.29)

Então um magistrado disse:
"E que dizes a respeito de nossas Leis, mestre?"
E ele respondeu:
"Vós apreciais estabelecer leis,
Contudo, vos deliciais ao violá-las.
Qual crianças que brincam na praia construindo castelos
de areia para logo destruí-los em meio a risos.
Mas enquanto construís vossos castelos, o mar traz mais areia
até a praia,
E quando os destruís, ele sorri convosco.
Na verdade, o mar sempre ri com os inocentes. (p.45)

"Vós rezais em vossas aflições e em vossas necessidades;
pudésseis rezar também na plenitude de vossa alegria e em vossos dias de abundância." (p.69)