terça-feira, 17 de março de 2015

CHAPEUZINHO VERMELHO

(Uma paródia dessa Manezinha da Ilha)

Era uma vez uma rapariga lá das banda do Ribeirão da Ilha que gostava de catá ostras e mariscos com seu pai. A mãe criava galinhas e cuidava duma vaquinha. De tempos em tempos, a rapariga levava uma baciada de ostra , marisco e semente de galinha, sempre com um “pão-por-Deus”, que sua mãe preparava com esmero, para  sua vózinha que morava lá do outro lado da Ilha, no Rio Vermelho. A véia, coitada, perdeu o marido que era proeiro e saiu pra pescar no meio do mar  e nunca mais voltou. O abestado saiu numa quadra ruim e foi no que deu. Deu a casca! E a véia não se aprecatou. A rapariga levava então essa baciada porque a véinha tinha muito jeito com frutos do mar. No começo ia no calcanhar mesmo, de pé-discalço,  mas depois, com as linha de ônibus, passou a usar deste conforto.

Pois vai que naquele dia ela tomou o ônibus de novo, e foi-se estrada afora, primeiro subindo o morro que leva prá ‘Mole’, prá ‘Barra’ e depois contando os Pinus da Reserva Florestal, até chegar cá embaixo, perto da travessa ........ onde então morava sua vó.  Essa, sempre esperava a netinha, ‘côsa fôfa’, como ela mesmo dizia, com um café corrido e uma tigelada de pirão de’água feito com farinha do Engenho do Tião. Ou então com a tal da primiana de café. Uma vaca mugia no quintal da véia, único bem que seu Amâncio deixou em vida prá véinha, fora a casinha que era de tauba e ripa.

E assim ia. Vez por vez. E a rapariga, por felicidade deste destino que Deus lhe deu, deixava tudo que era top-model no chinelo, de tão linda que era a danada. E prá não dá quemôri no lindo cabelão, com esse sóli quentado da Ilha, cobria-o com um lenço de renda, vermelho, que tia Idalina tinha feito no bilro. Êta que a rapariga era bonita prá diabo! Tinha cintura fina, daquelas só conseguidas com colete de barbatana de baleia... dava uma inveja prás outra!

Mas vai que numa dessas andanças prá casa da vó, meio aluada das idéia, não se deu conta e quando tava indo, acabou foi parando no terminal da Praça XV, lá no centro da cidade. Ô vida mardita! Como essa guria azedou! E quase que desmaiô quando se deparou com a imensidão daquela Catedral. Mas, fazê o quê, né verdade? O outro ônibus ia demorar mesmo, então resolveu ir se benzer na Catedral.  Quando saiu, como tava desprevinida de dimdim, resolveu vender sua baciada. Veio um e olhou de esguelha... A rapariga não contou até trex: “Qués fazê poco caso, compra uma cabra!!!” Quase mofou c’as pomba na balaia, bem alí debaixo da véia figuêra,  mas fez uns troco e tomou o ônibus pro Rio Vermelho. Isso já ia quase anoitecendo e o sóli quase botou fogo no céu, de tão vermelho que ficou. O ônibus foi. Ia indo, ia indo e ... de repente, a rapariga se encantou com um monte de luzinha que brilhava coms raio do sóli: alí, logo alí, entre o Monte Verde e o Saco Grande; não sabia que era aquilo, mas, ah! não podia deixar de olhar! Desceu do ônibus e deu de cara, assim, com um baita dum lobo, feito estauta, e que brilhava com um monte de “brilhinho”! É que a estauta era toda, todinha coladinha de espelhinho, pedaços de espelho e que brilhavam com aquele sóli que aí batia. A rapariga ficou enfeitiçada. Parecia mandinga de bruxa. 

Ficou mis tarde. O sóli já tinha se deitado e a lua trazia um clarão tão forte que continuava brilhando no Lobão da Lupus. Era sexta e o pessoal do bailão na discoteca já tava chegando. Gostou da música: parecia com a música das festas na Lagoa. Talvez fosse ter uma procissão, ou talvez era festa com Boi-de-Mamão. Esperou. O lobão, era figura que ficava bem na entrada da Lupus Beer, uma baita discoteca da Ilha. Manezinha que era, nunca tinha vista nada igual. Ficou ali, vadiando, olhando extasiada! 

Foi quando chegou, de repente, nem se sabe como nem di onde, um cara, numa tremenda Harley Davidson, muito sarado, muito arretado mas também muito chapado e que foi logo entrosando conversa mole com a coitadinha. Ele tava que mais parecia um pudim de cachaça. Ela, deslumbrada que tava, não contou até trex: foi logo subindo na baita máquina do carinha e ia saindo dalí, da Lupus, na carona da tal máquina quando deu de cara com um primo de Caçador. Esse sim, um rapaji-ômi, esse manjava quem era o táli da moto, e foi logo chamando o cara de tudo. Pegou pelo pescoço e não contou até tres: foi uma pendenga feia. Foi sim. O mandrião, entre um sopapo e outro, caiu max... logo si alivantou. Não se sabe qual dox dox apanhou mais, porque o primo de Caçador era esquentado por natureza, como é o pessoal do oeste; e o cara da moto sabia Capoeira... Parecia inté que ox dox tavam cum Quibinga nox corno. O circo tava armado: a ratatulha toda fazendo torcida em volta deles. Vai que um deles pegou dum canivete e deu um taio no outro. Mas prá graça de Jejuje, a rapariga tava salva das garras do mal-encarado! O táli da moto tava tomado, max o primo tava cu’s iscorno que era uma vergonha! “Tás tolo, primo! Vamu s’imbora!” Gritou a prima e os dois se foram pela estrada, bem sózinhos, onde o caminho era longe, era deserto...

O primo conhecia algumas benzeduras e “amarrou a bruxa” e a rapariga caiu alí mesmo, estatelada, parecia que tinha “baixado o santo” na dita. Passado o suxto, ficou em estado de fado. Ficou foi, com medo de uma tunda, e assim, ficou o dito pelo não dito, e depois de tudo explicado, foram-se os dois pra casa da vó, coitada, que tava braba que nem sei...reinava mais que o diabo, quase se passando de fome. Não tinha nem sobra prá fazê uma roupa-velha e a querosene da pomboca tava si acabando... só tinha um fiozinho de luz... Mas ia indo pricurá ricurso, quando o tal primo chegou e salvou-a também! Ficou todo mundo feliz e no dia seguinte arresolveram empinar pipa de rabiola de papéli cororido pra ver qual subia mais, já que tinha dado uma refrega de vento boa! A véia trouxe uma pratada de coxa-de-velha e ofereceu pru primo: “Si quéx, quéx, si num quéx, dix. Adispois num dix qui ô no di.”
E taí, rezistrada a xtória da rapariga de lenço de renda vermelha! Era uma vez. E foi-se!