Férias na Penha, na casa da Oma e do Opa, eram sempre motivo de alegria e uma felicidade indescritível! Tudo era muito simples na casa, mas tão envolvido de paixão e atenção dos avós, que não víamos a hora de viajar. O Opa tinha um carro antigo, um Ramona verde abacate e que precisava de pelo menos uma hora de preparação, antes de partir para a grande cruzada pela Rodovia Jorge Lacerda, BR 101, avenida Nereu Ramos (Penha) e, finalmente, estacionar na garagem da casinha verde da rua Abelardo Correia. Uma vez na garagem da casa, de lá só sairia pra viagem de retorno. Isto quer dizer que, onde quer que fôssemos, íamos a pé. Pra praia, pra casa de parentes ou vizinhos, pra venda da esquina etc. Tudo era feito a pé. E a caminhada até a Praia da Bacia da Vovó demandava um bom tempo, uma boa caminhada. No final a canseira era grande, mas a satisfação e alegria de ter ido era maior.
Uma das vizinhas era a Dona Glória. Na foto, é a senhora de short. A outra senhora é minha mãe. E eu estou bem na frente, em primeiro plano. Mas esta era a única foto com a Dona Glória. Ela tinha muitos filhos e era viúva. Moravam num casarão enorme, de dois pavimentos, quase em frente à casa dos avós. E era com os filhos dela que brincávamos quase todos os dias. Havia mais uns garotos na vizinhança, com quem também brincávamos. E outras vezes tínhamos visita de primos, amigos e parentes. Era sempre muito divertido. Menos na hora da sesta dos avós, depois do almoço. Éramos obrigados a ficar em total-silêncio-mudo, pois qualquer barulhinho acordava e incomodava principalmente a Oma. Nem folhear revistas se podia, pois o virar da página já fazia barulho. E não tínhamos sono pra dormir, ah não! De jeito nenhum! Queríamos brincar, aproveitar o dia, a tarde.
Foi numa dessas que escapamos na hora da sesta, nos juntamos a alguns filhos da Dona Glória (lembro da Jane, dos outros filhos não lembro mais os nomes) e resolvemos cruzar o Costão da Praia Alegre até a Bacia da Vovó. Sempre que íamos à Praia Alegre, víamos jovens e casais escalarem as pedras do Costão e seguirem caminho. Pois então resolvemos fazer o mesmo. Quanta irresponsabilidade infantil! Não tínhamos a mínima noção do quão longo era o caminho e das dificuldades como por exemplo, escalar paredões de rocha que acabavam no mar. A maré estava cheia, o que dificultava a travessia. Em outros momentos tínhamos que embrenhar pelo mato da margem, pois não havia praia, não havia areia que permitissem passar. E como não podíamos voltar, pois sabíamos das dificuldades que já tínhamos passado, a decisão foi seguir em frente. Noutro trecho encontramos uma cobra. E crianças menores estavam junto.
Finalmente chegamos ao topo das rochas que dão para a Bacia da Vovó. Que benção! Que sufoco, que gratidão sentimos quando alcançamos a praia. Então nos pusemos no caminho pra casa, mas desta vez pela estrada. Nada mais de Costão! Nunca mais! E nunca contamos esta façanha aos avós. Total-silêncio-mudo. Anos mais tarde, muito muito mais tarde, quando já casados, é que nos aventuramos a contar. Se antes tivéssemos contado, nunca mais poderíamos ir à praia passar férias com os avós. O segredo permaneceu com todos, por muitos anos.

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