sábado, 8 de outubro de 2022

As Casas (Kahlil Gibran)


E
ntão, um pedreiro aproximou-se e disse:

"Fala-nos das Casas."

E ele respondeu, dizendo:

"Construí em vossa imaginação um abrigo distante da cidade antes de construirdes uma habitação dentro dela.

Pois tal como regresseis à vossa casa ao cair da noite, assim o faz vosso ser errante, eternamente distante e solitário.

Vossa casa é a extensão de vosso corpo.

Cresce ao sol e dorme na quietude da noite; e não deixa de sonhar. (...)

E dizei-me, povo de Orphalese, o que tendes nessas casas? E o que são as coisas que guardais a portas trancadas? Tendes paz, o ímpeto silencioso que revela vossa força? Tendes lembranças, os bruxuleantes arcos que se elevam nos cumes da mente? Tendes beleza, que conduz o coração das coisas feitas de madeira e pedra até a montanha sagrada?

Dizei-me: tendes tais coisas em vossas casas?

Ou tendes somente conforto, e a luxúria do conforto, aquele desejo sorrateiro que entra na casa como visita, torna-se hóspede, para logo tornar-se dono? (...)

Esse desejo embala-vos o sono apenas para poder zombar de perto da dignidade de vosso corpo. (...)

De fato, a cobiça pelo conforto trucida a paixão da alma e sibe um largo sorriso durante os funerais.


Mas vós, filhos do espaço, irriquietos em vosso repouso, não sereis capturados nem domados.

Vossa casa não será uma âncora, mas sim um mastro. Não será uma película cintilante que recobre a ferida, mas sim uma pálpebra que protege o olho. (...)

E, embora magníficas e esplêndidas, vossas casas não deverão guardar vossos segredos nem abrigar vossas aspirações.

Pois o infinito dentro de vós habita a mansão do céu, cuja porta é a névoa matinal, e as janelas, as canções e os silêncios da noite."




(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)













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