quinta-feira, 6 de outubro de 2022

O Trabalho (Kahlil Gibran)

 


Então, um lavrador disse:

"Fala-nos do Trabalho."

E ele respondeu, dizendo:

"Vós trabalhais para vos manter no compasso da terra e da alma da terra.

Pois ser indolente é intrometer-se nas estações e afastar-se da procissão da vida, que segue majestosa e orgulhosamente submissa, rumo ao infinito.

Ao trabalhardes, sois uma flauta cujo coração o murmúrio das horas atravessa e transforma-se em música. Quem de vós permaneceria silente como um junco quando tudo ao redor canta em uníssono?

Sempre vos disseram que o trabalho é uma sina e a labuta um infortúnio. Mas eu vos digo que, ao trabalhardes, estais realizando o sonho mais longínquo da terra, a vós designado quando nascestes. E, apegando-se à labuta, estareis amando verdadeiramente a vida, e quem ama a vida através do trabalho compartilha do seu segredo mais íntimo. (...)

E o que é trabalhar com amor?

É tecer o pano com o fio de vosso coração, como se vosso bem-amado fosse mesmo trajá-lo.

É construir uma casa com afeto, como se vosso bem-amado fosse mesmo habitá-la.

É plantar as sementes com ternura e fazer a colheita com alegria, como se vosso bem-amado fosse mesmo comer as frutas.

É impregnar tudo que fazeis com o sopro de vossa própria alma, e saber que todos os mortos abençoados estão vos observando de perto. (...)


E eu vos digo, não em sono, mas na plena vigília do meio-dia, que o vento não fala com mais doçura ao carvalho gigante do que à menor das hastes da relva;

E só é grandioso aquele que transforma, com seu próprio amor, o murmúrio do vento em música ainda mais serena.

O trabalho é amor tornado visível. (...)

Pois se fazeis o pão com indiferença, vós o fazeis amargo, incapaz de saciar a fome do homem.
E se tendes rancor ao amassar a uva, vosso ressentimento destila veneno no vinho.

E ainda que cantais como anjos, mas não amais vosso canto, impedis que o homem ouça as vozes do dia e da noite."


(In: O Profeta. Kahlil Gibran. Ediouro, RJ. 2002)


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