RELATO DE UMA VIAGEM: Argentina e Chile (1983)
28 fevereiro (segunda): saímos de Vacaria em direção à Porto Alegre, onde recebemos a confirmação de que o amigo Oscar nos esperava em Buenos Aires e a amiga Viviana nos esperava em Santiago do Chile.
01 março (terça): 9:00! Hora de despertar, pois uma longa viagem estava
prestes a acontecer. Saímos ao comércio no centro de Canoas/RS para comprar
alguns ‘recuerdos’ para nossos amigos e talvez para outros que iríamos conhecer
ao longo da viagem.
Às 10:30 nosso compadre Ado nos
levou ao Aeroporto Salgado Filho. Ponto de partida desta primeira viagem
internacional. Éramos praticamente os primeiros a chegar ao balcão da empresa e
assim tivemos um rápido atendimento. Saímos então a passear pelo aeroporto, já
que tínhamos tempo de sobra até o momento da chamada de nosso voo. Então seguimos à alfândega e à sala de
embarque. E foi ali que tivemos a surpresa de encontrar dois amigos de Túlio, o
Pedro “Barrigas” e o Carlinhos. Estavam fazendo um roteiro parecido com o nosso
e, como eram tarimbados viajantes do Cone Sul, nos ajudaram nos primeiros
contatos com a língua, em Montevidéu, como nossos intérpretes.
A viagem entre Porto Alegre e
Montevidéu, pelo Boing da Cruzeiro, durou pouco mais de uma hora e foi muito
tranquila. O aeroporto da capital uruguaia, Carrasco, era muito velho e
desconfortável, retratando, provavelmente, a crise financeira que o país atravessava
naquele momento. Aliás, os problemas econômicos foram, sem sombra de dúvida, os
temas prediletos em todas as rodas de conversa nos doze dias de nossa viagem pelo
Uruguai, Argentina e Chile.
O trajeto do aeroporto até o centro
de Montevidéu foi feito de táxi, já que o Carlinhos fez questão de andar de
Mercedes! Em compensação, a corrida de 25km custou-nos a bagatela de Cr$
10.000,00, aproximadamente 470 pesos uruguaios. Essa foi uma primeira lição: o
câmbio sempre reserva surpresas para os viajantes. Chegando ao centro, nos
dirigimos ao Banco do Brasil para receber a ordem de pagamento que havíamos
remetido do Brasil. As surpresas continuaram, e nada agradáveis: havíamos
adquirido U$1.000 em Blumenau, dos quais U$200 recebemos em espécie e U$800
fomos obrigados, por determinações legais, a remeter por OP (além dos 30% da
máxi decretada três dias antes pelo governo, pagamos mais 25% de IOF e cerca de
Cr$ 15.000,00 de taxas de telex e serviços). Foram duas OP, de 400U$ cada, para
serem sacadas no BB de Montevidéu e que sofreram um desconto de 15U$ (480 pesos
uruguaios ou Cr$ 11.000,00) referente a novas taxas que o banco cobrou. Só que
o Banco do Brasil nos pagou em pesos uruguaios na cotação de 30 pesos por
dólar. Depois de muita discussão com os funcionários do Banco, ficamos sabendo
que poderíamos converter os pesos recebidos em dólares novamente, já que o
câmbio no Uruguai é livre, porém, pagando 32 pesos por dólar. Ou seja, perdemos
U$50, que somados com os U$15 das taxas, tivemos uma perda do U$65 (Cr$
32.000,00 no câmbio oficial do Brasil). Para encurtar a história, o dólar no
câmbio oficial no Brasil estava cotado, no dia da compra, em torno de Cr$ 380 e
nós pagamos Cr$ 493 e, ao recebermos no Uruguai, depois de tantas taxas e
perdas, ele nos saiu em torno de Cr$ 592,50. O Uruguai nos deu um susto: quando
fomos tomar uma cervejinha com nossos dois amigos, vimos que 1 Barão convertido
em pesos não pagava nem duas “loiras”. Dentro desse contexto, aproveitamos para
passear pelo velho centro histórico da capital, uma vez que Oscar e Mariza nos
esperavam, à noite, em Buenos Aires.
Decididamente, nosso passeio nessa
tarde cinzenta não conseguia emplacar, pois mal começamos a andar pelas ruas do
centro, uma fina chuva e um ventinho enjoado tornaram-se uma indigesta
companhia. Como se não bastasse a chuvinha, um cachorro buldog que vagava por
aí, também resolveu nos fazer companhia. Apesar de tudo, tiramos boas fotos,
sentamos nos bancos da praça e observamos os velhos e as crianças jogando
comida para os pombos.
Às 18:00 retornamos de ônibus (micro) ao aeroporto. A bela
paisagem amainou os percalços sofridos naquele dia. Lentamente percorremos as
avenidas marginais do Rio da Prata, ornamentadas com belos jardins e casas,
castelos e cassinos. O Rio também recebeu uma roupagem especial, com o colorido
dos barcos atracados no iate clube.
A taxa de embarque, no aeroporto,
foi a última surpresa no Uruguai, em termos monetários: nos custou em torno de
Cr$ 3.000,00 por pessoa. O voo até a
capital portenha foi pela Aerolíneas e durou cerca de 30 minutos, sem ao menos
servirem um cafezinho. Aterrizamos no Aeroparque, no centro da cidade, e
tivemos as bagagens rapidamente liberadas. Na saída da Aduana já nos esperavam
Oscar e Mariza, amigos simpáticos e alegres. A viagem, de verdade, estava
começando neste momento. Oscar dizia gostar muito do Brasil, o que nos fez
sentir em casa, em companhia deles. Num primeiro passeio, naquela noite,
levaram-nos para conhecer Buenos Aires: a começar, pelo próprio Aeroparque, depois o Parque
Palermo, Estádio do River, Planetário, Universidade, Avenida Corrientes,
Avenida 9 de Julio, Obelisco, enfim, o centro do comércio mais agitado da América,
segundo eles, com sua Calle Florida, Lavalle e outras. Como era segunda feira,
dia de semana, Oscar nos levou para conhecer seu negócio, na Galeria do Metrô,
sob o Obelisco.
Quando então o cansaço se fez
sentir, fomos ao Restaurante “Los Imortales”, na Calle de Los Cines, para
degustar uma pizza à moda argentina. O último programa desta primeira noite
agitada portenha, foi conhecer a casa destes amigos, onde também ficamos
hospedados. Deixaram a casa à nossa disposição e se acomodaram na casa dos pais
de Oscar.
02 de março (quarta): às 9:00
acordamos com a campainha tocando. Oscar e Marisa estavam de volta, trazendo
pães frescos para o café da manhã. Delicioso e consistente pão, sem bromato.
Ambos faltaram ao serviço naquele dia, para ficar conosco, o que foi
maravilhoso. Marisa era funcionária do Correio.
Após o café, saímos para conhecer
Buenos Aires, desta vez de dia. Começamos passando de novo pela loja de Oscar,
na Galeria do Metrô. Depois seguimos para a Calle Florida com suas galerias e
butiques. Em seguida, a 9 de Julio, Av. Corrientes, algumas ruas adjacentes,
Praça do Congresso, Plaza de Mayo, Plaza San Martin, Torre de Los Ingleses,
finalizando no terraço do Hotel Sheraton.
Ao meio-dia paramos para almoçar e
conhecer o famoso “lomo” (filé de gado, muito macio) acompanhado de “papas
fritas” e regado com um bom vinho de Mendoza (o de Salta também é muito apreciado).
O lomo, ou lomito, é o prato de carne preferido dos argentinos.
Na parte da tarde passeamos pelos
bairros do Once, Belgrano, zona portuária e o famoso bairro do Boca, onde estão
os restaurantes italianos mais caros de Buenos Aires. Ao final do dia
retornamos a Quilmes, para a casao de nossos amigos. Fizemos um lanche, arrumamos nossas malas e
seguimos para a estação dos Ferrocarriles de Retiro, onde embarcamos no trem as
20hs com direção à Mendoza. A viagem durou mais de 14 horas, através de uma
paisagem monótona, por sobre uma planície ininterrupta ao longo dos quase mil
quilômetros. Felizmente viajamos à noite e, apesar do cansaço, pois tínhamos
caminhado muito durante o dia anterior, a viagem noturna evitou que perdêssemos
um dia de passeio. Foi por orientação de Oscar que viajamos no trem noturno,
pois nossa preferência era viajar de dia.

Ai que delícia de leitura! Viajei com vocês🥰 Qtos percalços financeiros! Eita época, jovens com os dindins contadíssimos. Mas tudo valia à pena, né?
ResponderExcluirTem perrengue, mas tem muuuuuita coisa boa!
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