segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

T1-E1-Minha Primeira Viagem de Avião (1983)

 

RELATO DE UMA VIAGEM: Argentina e Chile (1983)

28 fevereiro (segunda): saímos de Vacaria em direção à Porto Alegre, onde recebemos a confirmação de que o amigo Oscar nos esperava em Buenos Aires e a amiga Viviana nos esperava em Santiago do Chile.

01 março (terça): 9:00! Hora de despertar, pois uma longa viagem estava prestes a acontecer. Saímos ao comércio no centro de Canoas/RS para comprar alguns ‘recuerdos’ para nossos amigos e talvez para outros que iríamos conhecer ao longo da viagem.

            Às 10:30 nosso compadre Ado nos levou ao Aeroporto Salgado Filho. Ponto de partida desta primeira viagem internacional. Éramos praticamente os primeiros a chegar ao balcão da empresa e assim tivemos um rápido atendimento. Saímos então a passear pelo aeroporto, já que tínhamos tempo de sobra até o momento da chamada de nosso voo.  Então seguimos à alfândega e à sala de embarque. E foi ali que tivemos a surpresa de encontrar dois amigos de Túlio, o Pedro “Barrigas” e o Carlinhos. Estavam fazendo um roteiro parecido com o nosso e, como eram tarimbados viajantes do Cone Sul, nos ajudaram nos primeiros contatos com a língua, em Montevidéu, como nossos intérpretes.

            A viagem entre Porto Alegre e Montevidéu, pelo Boing da Cruzeiro, durou pouco mais de uma hora e foi muito tranquila. O aeroporto da capital uruguaia, Carrasco, era muito velho e desconfortável, retratando, provavelmente, a crise financeira que o país atravessava naquele momento. Aliás, os problemas econômicos foram, sem sombra de dúvida, os temas prediletos em todas as rodas de conversa nos doze dias de nossa viagem pelo Uruguai, Argentina e Chile.

            O trajeto do aeroporto até o centro de Montevidéu foi feito de táxi, já que o Carlinhos fez questão de andar de Mercedes! Em compensação, a corrida de 25km custou-nos a bagatela de Cr$ 10.000,00, aproximadamente 470 pesos uruguaios. Essa foi uma primeira lição: o câmbio sempre reserva surpresas para os viajantes. Chegando ao centro, nos dirigimos ao Banco do Brasil para receber a ordem de pagamento que havíamos remetido do Brasil. As surpresas continuaram, e nada agradáveis: havíamos adquirido U$1.000 em Blumenau, dos quais U$200 recebemos em espécie e U$800 fomos obrigados, por determinações legais, a remeter por OP (além dos 30% da máxi decretada três dias antes pelo governo, pagamos mais 25% de IOF e cerca de Cr$ 15.000,00 de taxas de telex e serviços). Foram duas OP, de 400U$ cada, para serem sacadas no BB de Montevidéu e que sofreram um desconto de 15U$ (480 pesos uruguaios ou Cr$ 11.000,00) referente a novas taxas que o banco cobrou. Só que o Banco do Brasil nos pagou em pesos uruguaios na cotação de 30 pesos por dólar. Depois de muita discussão com os funcionários do Banco, ficamos sabendo que poderíamos converter os pesos recebidos em dólares novamente, já que o câmbio no Uruguai é livre, porém, pagando 32 pesos por dólar. Ou seja, perdemos U$50, que somados com os U$15 das taxas, tivemos uma perda do U$65 (Cr$ 32.000,00 no câmbio oficial do Brasil). Para encurtar a história, o dólar no câmbio oficial no Brasil estava cotado, no dia da compra, em torno de Cr$ 380 e nós pagamos Cr$ 493 e, ao recebermos no Uruguai, depois de tantas taxas e perdas, ele nos saiu em torno de Cr$ 592,50. O Uruguai nos deu um susto: quando fomos tomar uma cervejinha com nossos dois amigos, vimos que 1 Barão convertido em pesos não pagava nem duas “loiras”. Dentro desse contexto, aproveitamos para passear pelo velho centro histórico da capital, uma vez que Oscar e Mariza nos esperavam, à noite, em Buenos Aires.

            Decididamente, nosso passeio nessa tarde cinzenta não conseguia emplacar, pois mal começamos a andar pelas ruas do centro, uma fina chuva e um ventinho enjoado tornaram-se uma indigesta companhia. Como se não bastasse a chuvinha, um cachorro buldog que vagava por aí, também resolveu nos fazer companhia. Apesar de tudo, tiramos boas fotos, sentamos nos bancos da praça e observamos os velhos e as crianças jogando comida para os pombos.

Às 18:00 retornamos de ônibus (micro) ao aeroporto. A bela paisagem amainou os percalços sofridos naquele dia. Lentamente percorremos as avenidas marginais do Rio da Prata, ornamentadas com belos jardins e casas, castelos e cassinos. O Rio também recebeu uma roupagem especial, com o colorido dos barcos atracados no iate clube.

            A taxa de embarque, no aeroporto, foi a última surpresa no Uruguai, em termos monetários: nos custou em torno de Cr$ 3.000,00 por pessoa.  O voo até a capital portenha foi pela Aerolíneas e durou cerca de 30 minutos, sem ao menos servirem um cafezinho. Aterrizamos no Aeroparque, no centro da cidade, e tivemos as bagagens rapidamente liberadas. Na saída da Aduana já nos esperavam Oscar e Mariza, amigos simpáticos e alegres. A viagem, de verdade, estava começando neste momento. Oscar dizia gostar muito do Brasil, o que nos fez sentir em casa, em companhia deles. Num primeiro passeio, naquela noite, levaram-nos para conhecer Buenos Aires:  a começar, pelo próprio Aeroparque, depois o Parque Palermo, Estádio do River, Planetário, Universidade, Avenida Corrientes, Avenida 9 de Julio, Obelisco, enfim, o centro do comércio mais agitado da América, segundo eles, com sua Calle Florida, Lavalle e outras. Como era segunda feira, dia de semana, Oscar nos levou para conhecer seu negócio, na Galeria do Metrô, sob o Obelisco.

            Quando então o cansaço se fez sentir, fomos ao Restaurante “Los Imortales”, na Calle de Los Cines, para degustar uma pizza à moda argentina. O último programa desta primeira noite agitada portenha, foi conhecer a casa destes amigos, onde também ficamos hospedados. Deixaram a casa à nossa disposição e se acomodaram na casa dos pais de Oscar.

            02 de março (quarta): às 9:00 acordamos com a campainha tocando. Oscar e Marisa estavam de volta, trazendo pães frescos para o café da manhã. Delicioso e consistente pão, sem bromato. Ambos faltaram ao serviço naquele dia, para ficar conosco, o que foi maravilhoso. Marisa era funcionária do Correio.

            Após o café, saímos para conhecer Buenos Aires, desta vez de dia. Começamos passando de novo pela loja de Oscar, na Galeria do Metrô. Depois seguimos para a Calle Florida com suas galerias e butiques. Em seguida, a 9 de Julio, Av. Corrientes, algumas ruas adjacentes, Praça do Congresso, Plaza de Mayo, Plaza San Martin, Torre de Los Ingleses, finalizando no terraço do Hotel Sheraton.

            Ao meio-dia paramos para almoçar e conhecer o famoso “lomo” (filé de gado, muito macio) acompanhado de “papas fritas” e regado com um bom vinho de Mendoza (o de Salta também é muito apreciado). O lomo, ou lomito, é o prato de carne preferido dos argentinos.

            Na parte da tarde passeamos pelos bairros do Once, Belgrano, zona portuária e o famoso bairro do Boca, onde estão os restaurantes italianos mais caros de Buenos Aires. Ao final do dia retornamos a Quilmes, para a casao de nossos amigos.  Fizemos um lanche, arrumamos nossas malas e seguimos para a estação dos Ferrocarriles de Retiro, onde embarcamos no trem as 20hs com direção à Mendoza. A viagem durou mais de 14 horas, através de uma paisagem monótona, por sobre uma planície ininterrupta ao longo dos quase mil quilômetros. Felizmente viajamos à noite e, apesar do cansaço, pois tínhamos caminhado muito durante o dia anterior, a viagem noturna evitou que perdêssemos um dia de passeio. Foi por orientação de Oscar que viajamos no trem noturno, pois nossa preferência era viajar de dia.

2 comentários:

  1. Ai que delícia de leitura! Viajei com vocês🥰 Qtos percalços financeiros! Eita época, jovens com os dindins contadíssimos. Mas tudo valia à pena, né?

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  2. Tem perrengue, mas tem muuuuuita coisa boa!

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