terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

T1.E2-Minha primeira viagem de avião(1983)


RELATO DE UMA VIAGEM: Argentina e Chile (1983)

        03 de março (quinta): Por volta das 10:30 chegamos na estação ferroviária de Mendoza. Plantações de uva e muito poucos vilarejos nos contemplaram como paisagem, nesta viagem de trem pela vasta planície entre Buenos Aires e Mendoza.

            A estação ferroviária é bastante modesta e logo na chegada fomos abordados por alguns rapazes que ofereciam hotéis. Decidimos andar um pouco, antes de tomar qualquer decisão quanto à hospedagem, pois, segundo informações, o centro ficava a apenas 10 minutos, indo a pé. Depois de andar por algumas quadras com as ruas largas e fartamente arborizadas, paramos em uma agência de turismo e colhemos informações sobre hospedagem e a cidade. Ficamos sabendo que Mendoza estava em festa, pois estava acontecendo a Vindima 83. Por este motivo, os hotéis estavam todos lotados e nos indicaram o Hotel España. Não era dos melhores, e, embora tenhamos tentado encontrar outro, um pouco mais confortável, mas sem êxito na procura, voltamos ao España. Descansamos um pouco e às 15hs saímos para conhecer a cidade através de um Tour oferecido pela agência. Andamos de ponta a ponta, pelas ruas principais e secundárias. Paramos na Cantina Giol, a mais famosa casa de vinho; passamos pelo Palácio do Governo Provincial, pelas muitas praças e pelo Parque San Martin.

Estadio de Futbol
        Mendoza é uma cidade ímpar: situada ao pé da Cordilheira dos Andes, foi praticamente destruída por um terremoto na segunda metade do século XIX. Reconstruída, se tornou uma das cidades mais importantes da Argentina. O clima semi-árido não impede que suas ruas sejam cobertas por verdadeiros túneis de árvores; que os parques, sempre muito verdes, tenham flores mesmo no limiar do outono ou que exista um lago artificial com cerca de 10.800m2 em plena zona urbana. Esses pequenos milagres são possíveis por causa do desvio das águas dos rios formado pelo degelo das neves e que descem pela Cordilheira. Desvio esse que abastece canais a céu aberto, ao longo das calçadas, nas ruas do centro, e que permitem a irrigação dos jardins e assim dão vida e colorido à cidade. A chuva é tão rara que a população não costuma esperar por ela e por isso mesmo vai em busca da água da neve. Um dos maiores orgulhos dos mendocinos é o Parque General San Martin, pelo seu tamanho e pela sua beleza. Seus jardins são cortados em diversas direções por pequenas “calles” arborizadas e cada calle recebe o nome da árvore que a compõe. Assim, temos a calle dos Plátanos, a calle dos Cedros etc. Mas não é só isso: o parque, que segundo os medocinos é o maior da América Latina, ainda comporta em seu interior um lago artificial com 1.000m de extensão e 100m de largura; um Clube Náutico; um Zoológico; um Anfiteatro ao ar livre; uma Universidade; o Estádio de Futbol onde foi disputada a chave local da Copa de 78 e o Cerro da Glória onde há um enorme monumento esculpido em bronze sobre a montanha de mais de 1.000m de altura, ao pé dos Andes, e em homenagem ao libertador nacional.

            Já quase no final do passeio, quando conversávamos com a Guia, aproximou-se de nós uma garotinha com seus 13 anos. Identificou-se como Sandra Hernandez, chilena, e falou do quanto admirava os brasileiros. Sandra e Tatiana, a irmã menor, acompanhadas de seu ‘avolito’, ficaram entusiasmadas com nossa amizade. Ao final do passeio, nos passaram seu endereço e o convite para visitá-las, quando fôssemos a Viña del Mar. O sol então já estava se pondo por detrás da Cordilheira – eram quase 21hs.

            Estávamos extenuados pelo passeio em Buenos Aires, pela viagem de trem durante a noite e por este tour em Mendoza. Abateu-nos uma forte dor de cabeça. Estávamos no bagaço! Não tínhamos nem vontade de comer. Foi com esforço que comemos uma omelete, tomamos água mineral e caímos na cama feito dois condenados. No outro dia acordamos já às 10hs da manhã, atrasados, pois tínhamos que pegar o ônibus para Santiago às 11:30hs. A Portaria do Hotel garantiu que nos acordaria na hora solicitada, o que não aconteceu. Felizmente conseguimos arrumar as malas e tomar um bom café, café tipo exportação, bom demais, que aconteceu na Calle Las Heras, pois o Hotel não oferecia café da manhã.

            04 de março (sexta): Depois do café em um dos muitos restaurantes da Calle Las Heras, voltamos ao Hotel, apanhamos a bagagem, tomamos um ônibus (micro) e seguimos para o Terminal (Estação Rodoviária). A Calle Las Heras, quando iluminada, à noite, sob as frondosas árvores, mais parece um caramanchão gigante onde são espalhadas mesas e cadeiras para o público saborear o delicioso lomo, regado a vinho.

        Um detalhe que nos chamou a atenção, foi o fato de não haver cobrador no ônibus (micro). Era o motorista quem fazia todo o serviço. E tentou nos aplicar um golpe, não nos fornecendo o boleto, o ticket da passagem. Por causa disso quase tivemos problema quando a fiscalização entrou no micro e solicitou os boletos. Se não fosse por uma senhora, que testemunhou termos pago as passagens, estaríamos em apuros. A mendocina nos defendeu com tanta convicção, que o Fiscal acabou por nos dar o tal boleto e retirou-se.

           Já no Terminal, enquanto aguardávamos a hora do embarque,  vimos dois rapazes, um tanto esquisitos, cujas mochilas nos fizeram pensar tratar-se de montanhistas, alpinistas (ou melhor, andinistas!). Entramos no ônibus e os dois rapazes sentaram nas poltronas à nossa frente. Foi pelo meio-dia que o ônibus saiu do Terminal e começamos nossa viagem de Mendoza a Santiago do Chile. Quando os dois rapazes à nossa frente entabularam conversa, percebemos que um deles era brasileiro. Se chamava Gilberto e o outro era chileno e se chamava Andreas. Acabamos fazendo amizade. Aliás, foi Andreas que deu atenção especial para mim, na fronteira, na Aduana, entre Argentina e Chile, no ponto mais alto da estrada, quando me senti mal por causa do ar rarefeito. 

 
Trem na subida
        Quando partimos de Mendoza, percorremos um longo trecho de planície por mais ou menos 30 a 40 minutos. Então sentimos a proximidade da Cordilheira e o esforço cada vez maior do motor do ônibus: estávamos iniciando a subida dos Andes. O ponto mais alto seria a 3.000m de altitude. Tive uma estranhaa sensação: a estrada passava entre a Cordilheira e, à direita, à esquerda, nas costas e na frente, o que se viam eram apenas... os “Andes”! Em toda sua imponência e beleza.         Até mesmo o Rio Mendoza, que margeia a estrada, faz parte desse colosso árido que mais parece um pedregulho, rocha pura, do início e ao fim. Quando a estrada ainda fazia as primeiras curvas e os montes com picos gelados estavam ainda muito distantes, cheguei a pensar se a paisagem se tornaria monótona. Mas qual nada: a Cordilheira nos surpreendia a cada curva da estrada. A beleza dos montes rochosos, dos picos gelados, dos ribeirinhos que descem do alto, dos “Penitentes”, do distante “Aconcágua” majestoso, dos muitos túneis, dos sulcos na terrra que a neve deixa a cada inverno, da “Ponte de Los Incas”, da cidadezinha de “Uspallata” nos fascinava. Sentia-se também a diferença de temperatura, pois em Menodaze deixamos um clima de 30graus para um frio cortante e enfrentamos o vento gelado de “Las Cuevas”. E nos espantamos ao ver que um trem tentava nos acompanhar, percorrendo toda aquela altitude. Só que era muito mais lento que nós. Em certa altura, foi necessário usar suas cremalheiras para vencer a subida. Isto tudo ainda no lado argentino. Por mais que tudo isso seja mostrado em fotos ou se fale a respeito, nada se compara à emoção de cruzar os Andes, esse patrimônio da América e do mundo.

            A passagem pela Aduana não foi muito complicada. O que mais queriam, na verdade, era a propina para os maleros, os rapazes que retiram e recolocam as malas nos ônibus. Foi nesta passagem que me senti mal, enquanto aguardava a vez na fila. Imediatamente Andreas foi ao Posto Médico e fui imediatamente atendida pelos Carabineros de Chile. Fui levada para a enfermaria, deitada numa maca e coberta com grossos cobertores, pois eu tremia muito, como se estivesse com muito frio. Me deram café um café bem quente, alguma medicação e logo me restabeleci. Ficamos muito agradecidos aos Carabineros, em especial ao Tenente Olivares. 

Los Caracoles

            A descida do lado chileno foi mais rápida, porém não menos bela. Começou com a paisagem do Centro de Esqui de Potrerillos, ao redor do qual, apesar do verão, ainda havia muito neve. Sua principal atração é um lago que congela no inverno e permite ser esquiado. Alguns metros de descida e a estrada acontece toda em curvas de quase 180graus, os famosos “Caracoles”. É um espetáculo incrível que ficou para sempre gravado na memória. O verão já estava caminhando para o seu fim, mas a neve ainda estava presente e, por vezes, bem perto da estrada. É a chamada "neve eterna", pois não descongela nunca e proporciona um espetáculo da natureza. Um viajante de carro não se conteve, parou o carro, desembarcou e se dirigiu a um desses pontos de neve, agachou-se e tomou um punhado em suas mãos. Eu queria poder fazer o mesmo, mas o ônibus não podia parar.

            A vegetação em toda a Cordilheira não era das mais exuberantes. Somente depois de descer mais de 2.000m é que se viam as primeiras plantações e árvores às margens dos rios. A primeira cidade a aparecer do lado chileno foi Los Andes. Uma pequena cidade, logo ali, no início da subida da Cordilheira, no lado chileno. Mais duas horas de viagem e chegamos a Santiago, capital chilena e que não era muito diferente das grandes cidades do sul da América. Incomum foi o acesso feito pela famosa Rodovia Panamericana. O centro de Santiago tinha uma aparência de antigo, com prédios cinza-escuros dominando a paisagem. A parte moderna da cidade ficava na Comuna de Providência e era onde se concentravam os prédios com design mais moderno e um comércio grão-fino. As comunas que então dividem a capital, são um tipo de bairros com autonomia administrativa. 

        A convite de Gilberto, nos hospedamos em seu apartamento, pois Viviana, a amiga com quem tínhamos feito contato e que nos indicaria hospedagem, não foi possível localizar até aquele momento. No apartamento da rua Bela Vista-51, conhecemos os amigos de Gilberto: Patrício, Daniel e Gabriel. Todos eram universitários, como nós, e não foi difícil nos sentirmos bem, em casa. Patrício, também conhecido como “Pato”, preparou um chá (tê) e um lanche para nossotros. Um quarto do apartamento foi desocupado e cedido para nós. Horas depois tentamos novamente contato com Viviana e, contato feito,  ficou acertado dela nos visitar no dia seguinte.

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