RELATO DE UMA VIAGEM: Argentina e Chile (1983)
03 de
março (quinta): Por
volta das 10:30 chegamos na estação ferroviária de Mendoza. Plantações de uva e
muito poucos vilarejos nos contemplaram como paisagem, nesta viagem de trem pela vasta planície entre Buenos Aires e Mendoza.
A estação ferroviária é bastante
modesta e logo na chegada fomos abordados por alguns rapazes que ofereciam
hotéis. Decidimos andar um pouco, antes de tomar qualquer decisão quanto à
hospedagem, pois, segundo informações, o centro ficava a apenas 10 minutos, indo a pé. Depois de andar por algumas quadras com as ruas largas e fartamente
arborizadas, paramos em uma agência de turismo e colhemos informações sobre
hospedagem e a cidade. Ficamos sabendo que Mendoza estava em festa, pois estava
acontecendo a Vindima 83. Por este motivo, os hotéis estavam todos lotados e
nos indicaram o Hotel España. Não era dos melhores, e, embora tenhamos tentado
encontrar outro, um pouco mais confortável, mas sem êxito na procura, voltamos ao
España. Descansamos um pouco e às 15hs saímos para conhecer a cidade através de um Tour oferecido pela agência. Andamos
de ponta a ponta, pelas ruas principais e secundárias. Paramos na Cantina Giol,
a mais famosa casa de vinho; passamos pelo Palácio do Governo Provincial, pelas
muitas praças e pelo Parque San Martin.
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| Estadio de Futbol |
Já quase no final do passeio, quando
conversávamos com a Guia, aproximou-se de nós uma garotinha com seus 13 anos.
Identificou-se como Sandra Hernandez, chilena, e falou do quanto admirava os
brasileiros. Sandra e Tatiana, a irmã menor, acompanhadas de seu ‘avolito’,
ficaram entusiasmadas com nossa amizade. Ao final do passeio, nos passaram seu
endereço e o convite para visitá-las, quando fôssemos a Viña del Mar. O sol
então já estava se pondo por detrás da Cordilheira – eram quase 21hs.
Estávamos extenuados pelo passeio em
Buenos Aires, pela viagem de trem durante a noite e por este tour em Mendoza. Abateu-nos uma forte dor de cabeça. Estávamos no bagaço! Não tínhamos nem vontade de comer. Foi com esforço
que comemos uma omelete, tomamos água mineral e caímos na cama feito dois
condenados. No outro dia acordamos já às 10hs da manhã, atrasados, pois tínhamos
que pegar o ônibus para Santiago às 11:30hs. A Portaria do Hotel garantiu que
nos acordaria na hora solicitada, o que não aconteceu. Felizmente conseguimos
arrumar as malas e tomar um bom café, café tipo exportação, bom demais, que aconteceu na Calle Las Heras, pois o Hotel não oferecia café da manhã.
04 de março (sexta): Depois
do café em um dos muitos restaurantes da Calle Las Heras, voltamos ao Hotel,
apanhamos a bagagem, tomamos um ônibus (micro) e seguimos para o Terminal
(Estação Rodoviária). A Calle Las Heras, quando iluminada, à noite, sob as
frondosas árvores, mais parece um caramanchão gigante onde são espalhadas mesas
e cadeiras para o público saborear o delicioso lomo, regado a vinho.
Um detalhe
que nos chamou a atenção, foi o fato de não haver cobrador no ônibus (micro). Era o motorista quem fazia todo o serviço. E tentou nos aplicar um golpe, não nos
fornecendo o boleto, o ticket da passagem. Por causa disso quase tivemos
problema quando a fiscalização entrou no micro e solicitou os boletos. Se não
fosse por uma senhora, que testemunhou termos pago as passagens, estaríamos em
apuros. A mendocina nos defendeu com tanta convicção, que o Fiscal
acabou por nos dar o tal boleto e retirou-se.
Já no Terminal, enquanto aguardávamos a hora do embarque, vimos dois rapazes, um tanto esquisitos, cujas mochilas nos fizeram pensar tratar-se de montanhistas, alpinistas (ou melhor, andinistas!). Entramos no ônibus e os dois rapazes sentaram nas poltronas à nossa frente. Foi pelo meio-dia que o ônibus saiu do Terminal e começamos nossa viagem de Mendoza a Santiago do Chile. Quando os dois rapazes à nossa frente entabularam conversa, percebemos que um deles era brasileiro. Se chamava Gilberto e o outro era chileno e se chamava Andreas. Acabamos fazendo amizade. Aliás, foi Andreas que deu atenção especial para mim, na fronteira, na Aduana, entre Argentina e Chile, no ponto mais alto da estrada, quando me senti mal por causa do ar rarefeito.
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| Trem na subida |
A passagem pela Aduana não foi muito complicada. O que mais queriam, na verdade, era a propina para os maleros, os rapazes que retiram e recolocam as malas nos ônibus. Foi nesta passagem que me senti mal, enquanto aguardava a vez na fila. Imediatamente Andreas foi ao Posto Médico e fui imediatamente atendida pelos Carabineros de Chile. Fui levada para a enfermaria, deitada numa maca e coberta com grossos cobertores, pois eu tremia muito, como se estivesse com muito frio. Me deram café um café bem quente, alguma medicação e logo me restabeleci. Ficamos muito agradecidos aos Carabineros, em especial ao Tenente Olivares.
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| Los Caracoles |
A descida do lado chileno foi mais
rápida, porém não menos bela. Começou com a paisagem do Centro de Esqui de Potrerillos,
ao redor do qual, apesar do verão, ainda havia muito neve. Sua principal
atração é um lago que congela no inverno e permite ser esquiado. Alguns metros
de descida e a estrada acontece toda em curvas de quase 180graus, os famosos
“Caracoles”. É um espetáculo incrível que ficou para sempre gravado na memória. O verão já estava caminhando para o seu fim, mas a neve ainda estava presente e, por vezes, bem perto da estrada. É a chamada "neve eterna", pois não descongela nunca e proporciona um espetáculo da natureza. Um viajante de carro não se
conteve, parou o carro, desembarcou e se dirigiu a um desses pontos de neve, agachou-se e tomou um punhado em suas mãos. Eu queria poder fazer o mesmo, mas o ônibus não podia parar.
A vegetação em toda a Cordilheira não era das mais exuberantes. Somente depois de descer mais de 2.000m é que se viam as primeiras plantações e árvores às margens dos rios. A primeira cidade a aparecer do lado chileno foi Los Andes. Uma pequena cidade, logo ali, no início da subida da Cordilheira, no lado chileno. Mais duas horas de viagem e chegamos a Santiago, capital chilena e que não era muito diferente das grandes cidades do sul da América. Incomum foi o acesso feito pela famosa Rodovia Panamericana. O centro de Santiago tinha uma aparência de antigo, com prédios cinza-escuros dominando a paisagem. A parte moderna da cidade ficava na Comuna de Providência e era onde se concentravam os prédios com design mais moderno e um comércio grão-fino. As comunas que então dividem a capital, são um tipo de bairros com autonomia administrativa.
A convite de Gilberto, nos hospedamos em seu
apartamento, pois Viviana, a amiga com quem tínhamos feito contato e que nos indicaria hospedagem, não foi
possível localizar até aquele momento. No apartamento da rua Bela Vista-51,
conhecemos os amigos de Gilberto: Patrício, Daniel e Gabriel. Todos eram universitários, como nós, e não foi difícil nos sentirmos bem, em casa. Patrício, também conhecido como “Pato”, preparou um chá (tê) e um
lanche para nossotros. Um quarto do apartamento foi desocupado e cedido para
nós. Horas depois tentamos novamente contato com Viviana e, contato feito, ficou acertado dela nos visitar no dia seguinte.





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