quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

T1.E3-Minha primeira viagem de avião(1983)



 RELATO DE UMA VIAGEM: Argentina e Chile (1983)

         05 de março: Era sábado. E o dia ali do outro lado da Cordilheira começou efetivamente depois das 9hs. Ainda movidos pelo cansaço da longa viagem, nosso dia começou mais tarde, lá pelas 10hs, mas perdemos algum tempo, pois Viviana, conforme o combinado, não apareceu. Gilberto e seus amigos então prepararam um almoço para todos e ficamos ali à toa, jogando conversa fora. Pelas 15hs Gilberto e sua namorada Janete saíram conosco para mostrar um pouco de Santiago. Caminhamos a pé pelas ruas centrais e visitamos o Cerro Santa Lucia, um dos mais famosos de Santiago, com suas fontes, monumentos e um mirante a quase 1.000m de altitude. A vista lá de cima é espetacular, com os Andes formando o pano de fundo.

            No Chile, bem como na Argentina, são comuns as “parilladas”, um tipo de grelha que fica exposto em frente a restaurantes e estabelecimentos e onde são assados vários tipos de carne, para escolha do freguês. As “empanadas” também são bem famosas e são um tipo de pastel assado à chilena com muita mistura. Paramos numa das “parilladas” para beliscar alguma coisa e tomar uma cerveja. Ainda visitamos a igreja de São Francisco, uma das mais antigas e rústicas do Chile; o Palácio do Governo; os calçadões, dos quais Ahumada é o principal; a praça da Catedral e também vimos os músicos tocando clarinetas, ali, no meio da tarde, nas calçadas, dando um brilho todo especial ao ambiente. Era noite quando retornamos via metrô, aliás, um metrô moderno, limpo e muito confortável. Ao chegar no apartamento, já nos esperavam Viviana e seu noivo Carlos. Um tanto atrasados, mas, enfim, chegaram. Conversamos um tanto e ficou combinado de nos pegarem no dia seguinte, de manhã.

Santiago

06 de março
: O domingo foi reservado à família de Viviana e o aniversário de sua “madre”. Com um atraso nada confortável de 2hs, nossa amiga veio nos buscar. Depois de alguns sustos com o motorista, pai de Viviana, que parava com o sinal aberto e andava com o sinal fechado, chegamos sãos e salvos à casa de seus pais. Nos acolheram muito amigavelmente e serviram um almoço típico chileno. Um bom vinho do sul do país acompanhou a refeição e o papo fluiu muito legal. O povo chileno gosta muito do Brasil. Quem já visitou o país, diz que adorou. E quem ainda não visitou, diz que teria imenso prazer em conhecer. Isso se deve ao fato de, pela geografia incomum, os únicos vizinhos do Chile serem os argentinos, com quem não se entendem lá muito bem.

A tarde nos reservou novas e agradáveis surpresas: um passeio pelo Cerro San Cristobal, de rara beleza, urbanizado e com uma vista  maravilhosa. Visitamos também as comunas de Los Andes e Providência, bem como antigas casas dos santiaguinos ao pé da Cordilheira. Estas casas já estavam no limite urbano, porém não perderam a beleza e o requinte, bem cuidadas por seus proprietários, suas famílias abastadas. Visitamos também Catherine (Catita) conferencista da Ciência Cristã. À noite retornamos ao Cerro San Cristobal, para admirar a cidade iluminada.

Santiago

07 de março: Este dia foi reservado para ir ao Pacífico. Às 10hs partimos do Terminal de Santiago em direção á Cordilheira da Costa, um imenso paredão de rocha que separa a capital do litoral. Depois de 2hs, 120km e alguns túneis, chegamos à Viña del Mar, o colosso chileno do Pacífico. Esse balneário não é famoso à toa. Suas praias banhadas pelas ondas violentas do Pacífico, são enriquecidas, além da beleza natural, por castelos, pelo Cassino, pela Quinta Vergara, pela cultura e, sobretudo, pela hospitalidade do povo. Aqui reencontramos Sandra e Tatiana, nossas amiguinhas de Mendoza depois de ligarmos de um prelhão para a casa delas. Convite feito, convite aceito. Conhecemos seus pais Jorge Hernandez e Maria Eugenia e o irmão Jorge. A família nos acolheu com muito carinho e amizade e passamos momentos de felicidade por todo aquele dia e noite. Levaram-nos a conhecer Reñaca, Con-con, Costa Brava e Valparaíso que é porto e a segunda cidade mais importante do país. Conhecemos também o por de sol no Pacífico, embora estivesse meio nublado; o relógio das flores em Viña e o artesanato de cobre, maior riqueza do Chile. Muito gentilmente, a família nos acomodou em sua casa. À noite, Maria Eugenia serviu purê papas com salsicha.


Viña del Mar

08 de março: Despedimo-nos de nossos amigos e embarcamos novamente no Terminal de VIña del Mar, rumo à Santiago. Ao sair da cidade e subir a Cordilheira da Costa, ficaram para trás o Pacífico, Viña del Mar, nossos amigos. Um misto de alegria e recente saudade tomou conta do meu ser. E estávamos, a partir daí, verdade, começando a nossa viagem de volta ao Brasil. Durante o caminho, até surgiu a idéia de dar uma esticada, até o sul do Chile e da Argentina. Mas a Aerolíneas não aceitou transferir a passagem de Mendoza para Bariloche. O jeito foi continuar com o roteiro estabelecido: seguir de volta para Santiago, Mendoza, Buenos Aires e, finalmente, o Brasil.


A caminho da Cordilheira

09 de março: Todos os nossos gestos foram gestos de despedida. Esta, porém, não era mais forte que a saudade do Brasil e do Vinícius. Viajar é ótimo, conhecer novos lugares e pessoas é maravilhoso. Mas retornar para casa fazia muito sentido. Na verdade, o passeio estava ótimo, mas já estávamos loucos para voltar para casa e encontrar o filho Vinícius, que tinha ficado aos cuidados dos avós. Às 12:15 deixamos Santiago. Por volta das 15:30 começamos efetivamente a subir novamente os Andes. E eu, por receio de sofre a “puna” e por indicação de viajantes, comecei a roer uma cebola crua. O certo é que ninguém passou mal. Se foi por causa da cebola ou não, não se sabe. A paisagem nesta volta, continuava deslumbrante, bela e rara e eu nada satisfeita roendo a cebola, mas satisfeita pelo passeio. 

Porém nem tudo foram rosas: a alta velocidade empreendida pelo motorista, na descida Cordilheira, quase nos matou de susto e apreensão. Eram em torno de 20hs quando chegamos em Mendoza. Um último pôr de sol por detrás da Cordilheira deu seu aceno de adeus. Um espetáculo indescritível, o do pôr do sol.

Após nos hospedarmos no hotel, ainda deu tempo de fazermos um passeio pelo centro arborizado e iluminado desta bela cidade. Para encerrar a noite e comemorar o retorno à Argentina,  nada melhor que um lomo com papas fritas! E regada com uma boa cervejinha.

10 de março: Esta quinta feira começou muito cedo. Eram 3:30 da madrugada quando saímos do hotel à procura de um táxi. O voo econômico noturno da Aerolíneas estava marcado para as 5hs. Tudo certo, embarcamos e fizemos um voo tranquilo. Às 7hs estávamos em Buenos Aires. Tivemos um pouco de dificuldade para pegar um táxi para Quilmes, bairro onde nossos amigos Oscar e Marisa nos aguardavam em sua casa. A viagem de táxi foi relativamente cara, mas a recepção e acolhimento dos amigos compensou tudo.  

Meu relato datilografado acabou aqui. Creio que embarcamos de volta ao Brasil no dia seguinte, na sexta, não lembro mais. Mas me lembro bem, que chegando em Porto Alegre, nosso compadre Ado nos pegou no aeroporto e fomos para sua casa, em Canoas, onde Janete também já nos aguardava. Mil histórias correram ao sabor de chimarrão e churrasco. Que saudade do churrasco brasileiro! A única coisa que estávamos dispensando, eram as papas... pois era o que vínhamos comendo todos os dias da viagem. Nada contra as papas, mas tudo a favor de churrasco, arroz e feijão... só pra matar a saudade. E, ou sábado ou domingo, retornamos à Blumenau, onde morávamos. Saudades enormes do pequeno Vinícius! Foi muito bom tê-lo de novo nos braços! E o coração ficou cheio de gratidão por todos aqueles dias de viagem. Minha primeira viagem de avião... Pra mim, não foi fácil, pois o medo de voar me assaltava e me assaltou por muitos e muitos anos. A cada ruído diferente, a cada sacudida, turbulência, eu ficava ansiosa e queria saber o que estava acontecendo. 

Eu temia, eu tremia... mas quando estava lá em cima, nas alturas, e sentada junto à janela, onde prefria ficar, eu não perdia de olhar pra baixo... ver o mundo das alturas me encantava. E então o medo até sumia. Era ver o 'mapa' ao vivo e à cores! Tentava reconhecer os pontos geográficos. Indescritível sensação! 










Um comentário:

  1. I am so surprised to hear your fear of flying, you were a wonderful passenger with Jim, flying over the islands in Florida! Wonderful story! -Teresa

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