E lá estavam eles de novo, reunidos sob a sacada de uma construção numa
rua de nome vitória, discutindo as cores
das clicas e quem iria começar o jogo do dia.
E enquanto discorriam sobre o jogo e as regras, outros vinham se
chegando. E alguns perguntaram: -posso convidar meu irmão?
-Ei! Minha irmã também quer jogar... posso chamar?
-Peraí! A gente tem que ver se dá... deixa a turma chegar que a gente
fala.
-Tá!
E o jogo de clica continuava, alí
no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma.
–Clica!!!
E enquanto alguns se reuniam e decidiam, outros espreitavam pela sacada
tentando avistar distâncias. E então alguns voltaram com trouxinhas nos braços.
E depois, outros mais se ajuntavam com suas trouxinhas nos braços.
Quando se deram conta, já eram muitos. E quase todos carregavam
trouxinhas nos braços. Alguns até com mais de uma, duas... até tres! E nada os
fazia desanimar de continuar jogando clica.
E o jogo de clica continuava, alí
no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma.
–Clica!!!
As manhãs e as tardes assim iam passando. De início eram quatro, mas os
quatro também não eram quatro, pois das redondezas vinham mais. Incontáveis.
Não se sabe ao certo quantos eram. Impossível contar, pois que um traz mais um,
e outro. E o outro também traz mais outro... e de repente, cada um deles tem
suas trouxinhas debaixo dos braços... e já não se consegue mais contar... não
se sabe mais, quantos são! Sabe-se, são todos felizes!
E o jogo de clica continuava, alí
no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma.
–Clica!!!
-Não valeu!!! Era minha vez!!!
As manhãs e
as tarde se sucediam. Um deles juntou suas clicas no seu saquinho e foi-se. Deixou um misto de tristeza e saudade. Mas
sabia-se que era pra ser feliz em outro lugar! Iria continuar jogando clicas em
outra freguesia!
E cada qual queria
mostrar seu saquinho de clica: algumas eram bem coloridas, riscadas, rajadas...
outras eram bem grandes, doia o polegar de tanto apertar pra poder jogar! E de
tão pesadas, por vezes não quicavam muito longe!
Outras se
partiam quando clicavam... e aí se perdia uma bolinha! Algumas eram quase
transparentes, de tão claras!
E o jogo de clica continuava, alí
no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma.
–Clica!!!
-Não valeu!!! Era minha vez!!!
No jogo de
clica não vem regra escrita. Cada grupo faz a sua. Ali, na hora. Se vier com
regra escrita, não vale. Não se brinca. Não tem valor. Tudo depende de quem
participa, de como cada um gosta de jogar. Não vale roubar. Tem que respeitar.
O que foi dito é que vale. Não precisa repetir. Se tiver que lembrar, cai
fora. E ninguém manda. Sai sozinho. Fica
com vergonha, porque no jogo de clica vale a franqueza. Ao final do jogo, cada
um contava suas clicas e conferia.
E o jogo de clica continuava, alí
no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma.
–Clica!!!
-Não valeu!!! Era minha vez!!!
Outro dia se
passou e muitos dos que jogavam tinham ido embora. O bairro quase esvaziou.
Mudou de cara. Mudou. Alguns juntaram suas clicas nos seus
saquinhos e se foram. Mas outros ficaram!
E estes continuam, até hoje, jogando, pois que a regra é continuar!
A mão
continua alisando a terra em que se marca um círculo... ou um triângulo... e o
jogo continua. Cada um sabe sua vez. Cada um tem de saber sua vez. Esta é a
regra. Não precisa falar. Não precisa dizer. Basta saber.
Anos se
passaram e o jogo continua. São felizes os que ficam a saborear as tardes
mornas nas calçadas da rua de nome vitória...
São felizes por que um dia carregaram e hoje continuam amando suas
trouxinhas... por terem armado suas
tendas sob o sol e sob a chuva e continuam se abrigando do tempo. Sabem que
respeitaram as regras. E assim continuam, sem saber ao certo quantos são...
pois que uns se vão, mas outros vem e se juntam, pois também querem jogar!
E o jogo de clica continuava, alí
no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma.
–Clica!!!
-Vai lá! É a sua vez!!!
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