terça-feira, 14 de abril de 2015

O JOGO DE CLICA

E lá estavam eles de novo, reunidos sob a sacada de uma construção numa rua de nome vitória,  discutindo as cores das clicas e quem iria começar o jogo do dia.
E enquanto discorriam sobre o jogo e as regras, outros vinham se chegando. E alguns perguntaram: -posso convidar meu irmão?
-Ei! Minha irmã também quer jogar... posso chamar?
-Peraí! A gente tem que ver se dá... deixa a turma chegar que a gente fala.
-Tá!

E o jogo de clica continuava, alí no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma. –Clica!!!

E enquanto alguns se reuniam e decidiam, outros espreitavam pela sacada tentando avistar distâncias. E então alguns voltaram com trouxinhas nos braços. E depois, outros mais se ajuntavam com suas trouxinhas nos braços.

Quando se deram conta, já eram muitos. E quase todos carregavam trouxinhas nos braços. Alguns até com mais de uma, duas... até tres! E nada os fazia desanimar de continuar jogando clica.

E o jogo de clica continuava, alí no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma. –Clica!!!


As manhãs e as tardes assim iam passando. De início eram quatro, mas os quatro também não eram quatro, pois das redondezas vinham mais. Incontáveis. Não se sabe ao certo quantos eram. Impossível contar, pois que um traz mais um, e outro. E o outro também traz mais outro... e de repente, cada um deles tem suas trouxinhas debaixo dos braços... e já não se consegue mais contar... não se sabe mais, quantos são! Sabe-se, são todos felizes!

E o jogo de clica continuava, alí no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma. –Clica!!!
-Não valeu!!! Era minha vez!!!

As manhãs e as tarde se sucediam. Um deles juntou suas clicas no seu saquinho e foi-se.  Deixou um misto de tristeza e saudade. Mas sabia-se que era pra ser feliz em outro lugar! Iria continuar jogando clicas em outra freguesia!
E cada qual queria mostrar seu saquinho de clica: algumas eram bem coloridas, riscadas, rajadas... outras eram bem grandes, doia o polegar de tanto apertar pra poder jogar! E de tão pesadas, por vezes não quicavam muito longe!
Outras se partiam quando clicavam... e aí se perdia uma bolinha! Algumas eram quase transparentes, de tão claras!

E o jogo de clica continuava, alí no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma. –Clica!!!
-Não valeu!!! Era minha vez!!!

No jogo de clica não vem regra escrita. Cada grupo faz a sua. Ali, na hora. Se vier com regra escrita, não vale. Não se brinca. Não tem valor. Tudo depende de quem participa, de como cada um gosta de jogar. Não vale roubar. Tem que respeitar. O que foi dito é que vale. Não precisa repetir. Se tiver que lembrar, cai fora.  E ninguém manda. Sai sozinho. Fica com vergonha, porque no jogo de clica vale a franqueza. Ao final do jogo, cada um contava suas clicas e conferia.

E o jogo de clica continuava, alí no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma. –Clica!!!
-Não valeu!!! Era minha vez!!!

Outro dia se passou e muitos dos que jogavam tinham ido embora. O bairro quase esvaziou. Mudou de cara.  Mudou.  Alguns juntaram suas clicas nos seus saquinhos e se foram. Mas outros  ficaram! E estes continuam, até hoje, jogando, pois que a regra é continuar!
A mão continua alisando a terra em que se marca um círculo... ou um triângulo... e o jogo continua. Cada um sabe sua vez. Cada um tem de saber sua vez. Esta é a regra. Não precisa falar. Não precisa dizer. Basta saber.

Anos se passaram e o jogo continua. São felizes os que ficam a saborear as tardes mornas nas calçadas da rua de nome vitória...  São felizes por que um dia carregaram e hoje continuam amando suas trouxinhas...  por terem armado suas tendas sob o sol e sob a chuva e continuam se abrigando do tempo. Sabem que respeitaram as regras. E assim continuam, sem saber ao certo quantos são... pois que uns se vão, mas outros vem e se juntam, pois também querem jogar!  

E o jogo de clica continuava, alí no chão, sobre a terra alisada pelas mãos: trinca duas, joga mais uma uma. –Clica!!!
-Vai lá! É a sua vez!!!



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