constantemente renovado.
Cada vez que o olho estou sempre a ver as coisas pela primeira vez.” (Saramago)
Apresentação
“A Caverna” é um livro apaixonante e intrigante! O livro me fascinou de uma maneira muito singular , me vi completamente envolvida com a redação do trabalho e pesquisa a respeito de autor e obra, uma vez que se encontra pouco material bibliográfico disponível. Essa carência de material aguçou ainda mais minha curiosidade e procura, pois Saramago é um escritor da atualidade e está no nosso convívio.
Através de amigos tive conhecimento de que o Dr. Celso Kipper, juiz da 1ª Vara de Fpolis teve contato pessoal com o escritor e que é profundo conhecedor de sua obra. Em entrevista com o Dr. Kipper foram discutidos detalhes do livro e que me proporcionaram assim um maior conhecimento da obra e do autor. Por esse motivo quero deixar aqui registrada minha gratidão ao Dr. Celso Kipper pelo seu desprendimento e atenção, inclusive cedendo-me livro e entrevistas de jornais para a pesquisa.
Da mesma forma não posso deixar de registrar gratidão aos colegas de sala, Gilson e Clarissa, pois também me cederam material.
Com todo esse apoio, não havia como não se apaixonar pela história, pelo enredo, pelos personagens e pelo desfecho brilhante de Saramago! Não tem como não lhe admirar a capacidade criativa de escrita e enredo. Um livro que me prendeu do começo ao fim. Devia tê-lo lido antes!Para entender-lhe o contexto e antes de entrar nos ensaios de crírticas e abordagens sobre o livro, é necessário que se faça uma rápida leitura sobre Pós-Modernismo e sobre a própria pessoa de Saramago. É esta a proposta deste trabalho.
- Pós-Modernismo
Os estilos literários sofrem influência direta dos acontecimentos no mundo. Com a
época atual acontece a mesma coisa: “o humem moderno carrega consigo a descrença nas possíveis e concretas mudanças acenadas pelo processo de industrialização vivido pela sociedade. A descrença e a frustração”, conforme as palavras de Domício Proença Fo., em seu livro Pós-Modernismo e Literatura.
Vivemos uma ‘cultura de massa’, e o ser humano, “frustrado diante da realidade presente, sem esperanças de futuro, parece ter assumido a passividade do conformismo, a busca nostálgica do passado e a ilusória assunção dos signos ideologizados, sobretudo aqueles com que o alimentam os aparelhos de televisão.” (p 35)
Assim, desenvolve-se uma sociedade de consumo e as mercadorias tem que ser consumidas o mais rápido possível para que possam ser logo substituídas por outras que aguardam também serem consumidas... tudo isso em função do ‘sistema’, da organização. O que importa é o fluxo de mercadorias e de dinheiro. O objeto chega então, ao cúmulo de ser tratado como ‘ser humano’, ou então são marcados com tal beleza e se cria uma necessidade de apego à coisa. Um verdadeiro apego afetivo.
Isto tudo é demarcado pelo avanço tecnológico, industrial, cientificista em que o mundo entrou desde o século XIX. Fala-se em “planetarização do capitalismo”, em “multinacionais”, em “centralização de atenções no profissisonal qualificado”, “multifragmentação do social” etc. Não visando a elevação da raça humana, mas a radicalização do capitalismo em detrimento da elevação da raça humana.
Na literatura, Domício Proença Fo. assinala as seguintes características:
1. Intensificação do ludismo na criação literária
2. Presentifica-se uma tendência à utilização deliberada da intertextualidade
3. Ecletismo estilístico
4. A metalinguagem ganha destaque
5. Configura-se no texto literário uma figuração alegórica de tipo hiper-real e metonímico
6. Fragemntarismo textual
7. Intensificam-se os elementos de autoconsciência e auto-reflexão
8. Centramento na linguagem, exaltação do prazer, presença do humor.
9. Na poesia: três posicionamentos se superpõe , ou seja, verifica-se uma poesia confessional, uma poesia baseada em componentes objetivos e uma poesia da imagem profunda.- Quem é José Saramago?
O autor nasceu em Portugal, sob o signo de Escorpião, em Azinhaga (uma aldeia do concelho da Golegã) a 16 de novembro de1922. Era filho de camponeses sem terra. Tão pobres eram, que Saramago se viu obrigado a abandonar seus estudos de segundo grau e freqüentar a Escuela Industrial Afonso Domingues, em Xabregas donde saiu como serralheiro mecânico. Nunca estudou em uma Universidade, sendo portanto, uma espécie de autodidata. Exerceu várias profissões: serralheiro, mecânico, jornalista. De uma grande inteligência natural, apaixonado pela leitura e assíduo frequentador das bibliotecas públicas por carecer de meios para adquirir seus próprios livros, sentiu em seguida uma necessidade de engajamento político e filiou-se ao Partido Comunista. Em 1976, foi o desemprego que o levou a dedicar-se à literatura, produzindo assim uma vasta obra, das mais expressivas da atualidade portuguesa, que abrange contos, romances, poemas e peças teatrais. Em 1947 publicou “Terra do Pecado”, mas não o inclui na sua extensa obra.
Em 1998 Saramago tornou-se o primeiro escritor português a receber o Prêmio Nóbel de Literatura, obtendo assim o reconhecimento de ser um dos maiores romancistas da atualidade.
Seu nome não era para ser Saramago: este é o nome de uma plantinha crucífera e rasteira e que cresce sem cultura entre as ruínas e era comida para afastar a fome. Tal nome era também o apelido de seu pai, José de Souza. Acontece que este, ao registrar o filho e ser indagado pelo cartorário sobre o nome, respondeu simplesmente que lhe botasse o nome do pai. Como o pai era conhecido por Saramago, o cartorário lavrou a certidão com o suposto nome do pai: José Saramago. As pessoas não levavam a certidão para casa, esta ficava no Cartório e assim, a própria família só veio a saber do lapso quando o filho precisava do documento para freqüentar a escola. Coisas da vida! Diz Saramago que foi a primeira vez que um filho dá nome ao pai!
Notável estilista, une o mais rigoroso classicismo às mais audaciosas inovações de linguagem.
- Resumo da obra “A Caverna”
Encontramos na estória os seguintes personagens: Cipriano Algor (64 anos), sua filha Marta Isasca Gacho, seu genro Marçal Gacho, a viúva Isaura Estudiosa/Madruga e o cão Achado.
Cipriano Algor é um oleiro que vive numa casinha nos subúrbios do Centro com sua filha Marta, e o genro Marçal. Marçal trabalha no Centro e só tem folga de 10 em 10 dias, quando então Cipriano vai buscá-lo e ele desfruta da companhia da jovem esposa. O genro aguarda uma promoção, no seu emprego no Centro, e esta acontece quase no final da narrativa, deixando um clima de suspense. Cipriano produz louças de cerâmica, artesanalmente, em um forno que fica no quintal de sua casa, com a ajuda de Marta, e os revende ao Centro, seu único e exclusivo comprador. Ambos, pai e filha, tem um relacionamento forte e muito próximo. Se dão muito bem. A viúva Isaura aparece no começo da narrativa e é por quem Cipriano se afeiçoa , muito timidamente, e com quem fica no final da estória. O cão Achado é outro personagem que aparece desde o início e que se torna parte da casa de Cipriano, que o adota. Ou é o cão que adota a Cipriano? Saramago também deixa a dúvida!
Cipriano produz a louça e faz a entrega ao Centro, como de costume, só que desta vez sua encomenda é recusada. A desculpa é que o plástico lhe tomou o lugar. As sobras no depósito são recolhidas e Cipriano se vê em apuros.
Marta não se conforma e sugere a confecção de bonecos, idéia que logo envolve os dois em mais idéias e projetos. Os desenhos são apresentados ao Centro que encomenda 1200 bonecos. São elaborados 300 numa primeira remessa e Cipriano sugere que sejam entregues ao Centro, antes dos 1200 ficarem prontos. A sugestão é aceita e é elaborada uma pesquisa para averigüar o nível de aceitação da mercadoria. Este fica abaixo da expectativa e Cipriano se vê de novo em apuros.
Marta está grávida e Marçal é finalmente promovido. Isso provoca uma mudança radical na vida dos personagens, pois todos se mudam para o Centro. Cipriano explora o Centro e descobre muitos parque de todos os tipos e para todas as idades, shoppings, avenidas, ambientes sofisticados os mais diversos e para todos os fins e gostos. Tudo lhe é novidade curiosamente investiga tudo. Sua rotina, seu trabalho é então investigar tudo à sua volta. Mas tudo tem seu preço: enquanto no seu recanto no subúrbio ouvia os passarinhos e tinha u rio para se banhar, no Centro tudo era artificial e “pago”.
Tudo muda de novo quando Marçal é convocado a montar guarda numa gruta e porque é obrigado a manter segredo é seguido por Cipriano. Por fim, o genro deixa que o sogro penetre na gruta e descubra o que há lá dentro. Ao se deparar com seis pessoas quase mumificadas, sentadas em bancos de pedra e com os pescoços e pés atados, Cipriano leva um susto e volta para casa, faz suas malas e volta para seu recanto no suburbio, encontra Isaura e Achado e aí vive de novo. Para sua surpresa, Marta e Marçal também se vão do Centro, onde as janelas do apartamento sempre eram fechadas por causa do sistema de refrigeração, e todos decidem ir-se dalí, em busca de um “mundo novo”. Mas não sem antes retirarem todos os outros 300 bonecos que estavam no forno para a queimada final e dar-lhes assim a “liberdade”.
- O que os críticos dizem:
A respeito de José Saramago
Numa página da Internet encontrei uma crítica de José Leon Machado, datada de 11 de outubro de 1998 e que é bastante ácida em relação à pessoa de Saramago. Segundo o crítico, o escritor cometeu seis pecados na vida literária: 1. é vaidosão; 2. é um comunista assumido; 3. é um ateu confesso; 4. é um traidor porque abandonou a terra que lhe deu o ser; 5. enriqueceu à custa dos ingênuos que lhe compram os livros e 6. não sabe escrever.
Embora o crítico seja enfático nos seus pontos de vista, termina o seu relato perguntando: “A propósito: Já o leram? Se não o leram, leiam.” E concorda que Saramago é o escritor português mais traduzido e mais lido fora do país. Mas dizer que é o melhor, aí já divergem opiniões...
Na opinião de Luís Miguel Oliveira Cardoso, encontrado num site da Internet, temos o seguinte:
“ A Língua Portuguesa, Pátria cultural de autores notáveis espalhados pelas estradas da lusofonia, pode encontrar agora em José Saramago um arauto universal, como o poderia encontrar, também como justo prêmio, em muitos outros escritores que mereciam esse galardão, tal é a profusão de possíveis homenageados.
Num mundo em que um reconhecimento público premeia com glória (ainda que fugaz) um vulto das Letras nacionais, é lícito que a cultura de expressão portuguesa se sinta orgulhosa. Mais ainda, como cidadãos e amantes da Cultura Portuguesa, devemos encontrar em Saramago não um autor mas sim um fautor, um verdadeiro arauto, um embaixador dos séculos de labor e criatividade espiritual.”
A respeito do romance
Com relação ao romance, noutro site, em espanhol, encontrei o seguinte, como Comentário Editorial:
“Uma pequena olaria, um centro comercial gigantesco. Um mundo em rápido processo de extinção, outro que cresce e se multiplica como um jogo de espelhos onde não parece haver limites para a ilusão enganosa. A Caverna fala de um modo de viver que cada vez vai sendo menos o nosso. Todos os dias se extinguem espécies animais e vegetais, todos os dias há profissões que se tornam inúteis, idiomas que deixam de ter pessoas os falem, tradições que perdem sentido, sentimentos que se convertem em seus contrários.
Uma família de oleiros compreende que tem deixado de ser necessária ao mundo. Como uma serpente que muda de pele para poder crescer uma outra que mais adiante também se tornará inútil, o centro comercial diz aos oleiros: Morram, já não necessito de vocês.”
Na opinião de José Luís Rodriguez Regueira,
“A Caverna” nos convida a pensamentos sobre a influência que o mercado está exercendo sobre a paisagem cotidiana, chegando a restringir e definir as interações pessoais que, até agora, sob a aura protetora do espaço privado, pareciam ter ficado fora de sua influência. Enfim, uma apresentação literária-fictícia das reações humanas como consumo no que através dos diferentes personagens que dão vida ao romance, põe em cena o drama de valores contemporâneos como o sucesso, o individualismo e um tipo de autenticidade que já não corresponde com esse sentido de relação que se estabelece entre uma obra e seu autor, ou indo um pouco mais além, na abstração, entre a sociedade e seus indivíduos. As relações sociais –talvez o mercado nos leve a repensar o sentido de uso da relação social- já não poderão ser entendidas em um sentido de comunicação, e a sociedade se desvanece como um modelo referencial sobro o qual se estabelecem os limites à individualidade.
Estas reflexões parecem estar captando cada vez mais a atenção dos sociológos e de editores que nestes últimos anos estão produzindo numerosas obras cuja temática tem como fundo a influência do mercado – ainda que sob um conceito econômico de globalização - na construção de “sujeitos” adaptados a suas necessidades constantes de renovação.
Arevista CULT de dez/2001 traz uma reportagem interessantíssima sobre “A Caverna” com uma visão apocalíptica do ocorrido nos USA em 11 de setembro de 2001. Diz o seguinte, como enunciado:
“Antecipando o sentido simbólico dos ataques terroristas ao World Trade Center, A Caverna, de José Saramago, é uma alegoria das fissuras que vinham solapando as bases de uma sociedade hedonista.” (p.20 e 21)
Após uma rápida descrição dos escombros que sobraram do WTC, comparando-os aos de Pompéia, comenta-se sobre uma estátua de bronze encontrada no meio desses escombros e que é a figura de um executivo abrindo sua paste então há toda uma nalogia referente ao livro:
“Transformado em memorial improvisado, o bronze remete a uma alegoria de “A Caverna”. É no final do livro de José Saramago que o protagonista se depara, num dos túneis cavados abaixo do mega empreendimento denominado “Centro”, com corpos humanos num banco de pedra. Eretos feito estátuas, envoltos em panos escuros e amarrados com ataduras que lhe imobilizaram pescoçcos e pernas, perscrutavam o infinito como múmias solitárias. Ao observar o grupo misterioso, o personagem saramaguiano compreendia, então, quem erma eles: “Essas pessoas somos nós.” São os moradores do Centro, a população inteira do globo”.
(...) “No caos do subterrâneo nova-iorquino, um businessman plasmado em bronze procura algo indefinido na sua maleta. Sintomático da nossa cultura individualista, ele não olha para os lados. Mais importante do que o outro, são os documentos que traz consigo – letras de câmbio, papéis do pregão, pauta para uma reunião de negócios, propostas de transações comerciais, apólice de seguro de vida. Para onde pretendia ir, após rechecar sua pasta? Nunca descobriremos. Como as milhares de vítimas, ele também foi colhido de chofre na breve pausa a meio do caminho. E, a exemplo dos espectros flagrados na interrompida fuga de si mesmos, ele tampouco é uma ilusão. Igual às ressequidas figuras escavadas, talvez carregasse apenas a verdade. Aquela que, ainda segundo José Saramago, se esconde nos mais recônditos desvãos. E que nos sussurra que ele somos nós. Eu, você, todos os habitantes do planeta.”
O que José Saramago diz de seu romance
Em visita ao Brasil, Saramago deu entrevistas a vários jornais e revistas. O Jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, de 25 de novembro de 2000, contém uma entrevista do jornalista Javier Garcia com o autor falando sobre seu livro recém-lançado. Transcrevo alguns recortes desta entrevista:
(...)” A Caverna, é um grito de rebeldia contra um mundo que considera cada dia mais injusto. O Nobel português afirma que estamos dianto do fim de uma civilização:
-Todos os dias desaparecem espécies animais, vegetais, idiomas, profissões... Os ricos são cada vez mais ricos, e os pobres mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma maioria que sabe menos. A ignorância está se expandindo de forma aterradora. Temos um grave problema na redistribuição da riqueza. A exploração alcançou uma característica diabólica. As multinacionais dominarão o mundo. Diante da indeferença e da apatia sobre o mundo, Saramago exige consciência crítica, capacidade de indignação e inconformismo.”
A entrevista decorre em torno da contemporaneidade e suas inovações tecnológicas que se infiltram desmedidamente na vida de cada indivíduo, interferindo nas suas atitudes e pensamentos. A sedução das imagens publicitárias chegam como uma enxurrada, um verdadeiro bombardeio e trazendo mensagens de ‘realidade’. Não se consegue absorver o conteúdo, não se consegue ‘digerir’ o que nos é colocado diante da vista com o devido tempo de reflexão porque em seguida o indivíduo é novamente tomado pela enxurrada de imagens, ‘realidades virtuais’ e publicidade insistente.
Além disso, Saramago é contumaz na sua crítica contra o sistema econômico, o poderio econômico instalado no primeiro mundo e que subjuga o terceiro mundo. Diz ele:
“O poder econômico suplantou o poder político, a cultura. Norman Mailer declarou que Clinton será o último presidente dos Estados Unidos porque, a partir de agora, as corporações, isto é, as multinacionais, não precisarão de intermediários políticos e dominarão o mundo. Elas inventarão os políticos e os sistemas que lhes convierem. A política será uma ferramenta do sistema, do mercado. O neoliberalismo, a meu juízo, é um novo totalitarismo, disfarçado de democracia e mantendo as aparências.”
Mais adiante, na entrevista, declara que o indivíduo não se controla mais; este é controlado pelo sistema até em pontos inimagináveis, perdendo inclusive, sua privacidade. As desigualdades sociais e até mesmo culturais estão cada vez mais evidentes e acentuadas. Saramago critica também o nível da educação, tanto no nível fundamental quanto no universitário, declarando-o muito baixo. Diante disso tudo, “A Caverna é a constatação de uma evidência.”
O shopping center é um símbolo desse novo mundo que falo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece. O das pequenas indústrias e do artesanato. Todos os dias desaparecem animais, vegetais, idiomas, profissões, ofícios. Está claro que tudo morre, mas há pessoas que tem direito a viver, a construir sua própria felicidade, e são eliminadas. Perdem a batalha pela sobrevivência, mas elas mesmas já não suportam viver sob as regras do sistema. Andam como vencidos, mas com dignidade, dizendo que não querem esse mundo.”
Na conclusão da entrevista o jornalista pergunta se tudo isto lhe parece uma visão fatalista sem que haja uma porta de esperança, ao que o escritor responde:
“A porta que se abre e nunca esteve fechada é a da relação de afeto e ternura entre os personagens. Nesse sentido, sim. Memso assim, não gosto muito dessa esperança. Parece que é algo que sempre estamos postergando. Devemos ser conscientes do que está acontecendo e intervir. Querem que não façamos perguntas e que não discutamos, sob a ameaça do desemprego, de perder a família. Esse é o novo totalitarismo. E me impresisona a indiferença das pessoas.”
Ainda indagado se esta seria uma insurreição ética, civil, ele dá como última resposta: “Não é o medo antigo da polícia, da tortura ou da prisão, que ainda existe em muitos lugares, mas o medo da insegurança e do desemprego. E esse medo paralisa.”
No Jornal “A Folha” de 06 de dezembro de 2000, de São Paulo, Saramago dá uma entrevista a respeito do livro, lançado no Brasil no dia 16 de novembro de 2000, ao jornalista Cassiano Elek Machado. O jornalista comenta:
“Com a obra, que chegou às livrarias no dia 16 de novembro, data de seu aniversário de 78 anos, o autor fecha a “trilogia involuntária” que começou com “Ensaio sobre a Cegueira” e “Todos os Nomes”.
“É como se eu tivesse andado a descrever uma estátua. Ela é apenas a superfície da pedra. A partir de ‘Ensaio sobre a Cegueira’ eu deixei de descrever os horrores ou as belezas dessa estátua e passei para o interior dela. É como se eu quisesse passar para dentro do indivíduo. Voltei-me para as indagações que o homem se faz desde que começou a pensar. Quem diabo somos nós?” indagou-se o escritor, em conversa com a Folha.
- Apreciação crítica sobre o romance
Neste mundo tão controverso, tão ‘plástico’ e artificializado, encontraremos sempre quem se agrade de uma obra e quem se desagrade da mesma. Por sorte, ainda temos carvalhos naturais, que crescem livremente em meio a florestas densas de árvores de várias espécies e que tem em suas sombras muitas flores e animais rasteiros das mais variadas espécies e em seus galhos os mais variados passarinhos com seus cantos. Por sorte... e a esperança é que sempre continuem por lá, porque no fundo não gostaríamos de fazer parte dessa ‘massa de manobra’, não aceitamos a idéia de sermos manipulados, embora saibamos que assim é...
José Saramago é um desses exemplares de “carvalho” natural, que cresceu forte em meio a uma floresta de críticos e outros tantos que lhe incompreenderam a obra. Talvez porque eles mesmos não aceitassem terem de se conscientizar que são manipulados sim, que há um ‘império financeiro’ que determina o rumo da humanidade, infelizmente.
“A Caverna” retrata bem todo o conflito que caracteriza o Pós-Modernismo, ou seja, estéticamete pode-se misturar antigo com moderno; o lúdico toma lugar junto ao high-tech; a intertextualidade é rotina; a metalinguagem é rotina; o conformismo e a apatia são rotina... As pessoas parecem estar diante de um aparelho televisivo, completamente estáticas, inativas, desprovidas de pensar e agir, seja lá o que for que estejam vendo. Por outro lado, há um despertar da auto-consciência e auto-reflexão muito intenso, haja visto o número de literaturas de auto-ajuda que pipocam nas prateleiras das livrarias, por exemplo. Mesmo que muitos desses livros sejam ‘lixo literário’.
Saramago tenta jogar um balde de água fria nessa apatia, nesse torpor, nessa anestesia coletiva. Com certeza, é mestre em sua obra. É um verdadeiro mestre em abrir a porta e mostrar ao homem o que está ocorrendo com o homem. Pelo menos mostrar.
Não importa que tenha adotado uma linguagem sua. É pura criatividade. Quis chegar mais próximo do homem, falando como ele fala: sem pontuação! Ninguém pára numa frase para dizer: “Vem aí uma interrogação!” “Vem aí ou vírgula!” Num site, de Luís Miguel Oliveira Cardoso, ele diz: “A Língua é minha, o sotaque é seu.”
Não importa que tenha se inspirado no Mito da Caverna de Platão: importa é a realidade que nos trouxe, o quanto soube explorar da própria caverna e como num passe de mágica transpor-nos para ela também, de uma maneira tão graciosa e singela.
- Descrição dos elementos essenciais do romance
Tema: é desenvolvido para criticar principalmente o sistema econômico vigente no mundo e que submete de forma desumana a humanidade. Em primeiro plano, portanto, fica uma crítica veemente ao capitalismo e às injustiças de relações entre os países ricos e pobres daí decorrentes, pois o centro do poder está em algumas mãos do nominado ‘primeiro mundo’.
Como conseqüência, o homem é mera “massa de manobra” e um cobsunmidor, apenas. Os produtos não valem pelo esforço, pelo trabalho que o homem teve em realizá-los, mas sim pelo ‘valor de mercado’, pelas capacidade de ‘gerar riqueza’ para alguns. Isso traz uma alienação do ser humano.
Embora a visão a respeito do livro seja toda voltada à situação mundial, essa visão pode ser transformada de macro para micro, transportando-a para a situação de um país, de uma cidade ou mesmo de um indivíduo em particular. A mensagem de “A Caverna” permite essa possibilidade.
Enredo: o Mito da Caverna, de Platão, é o pano de fundo para esse romance. Quando o homem recolhido na caverna de Platão olha a luz, percebe que o que conhecia era apenas a sombra da realidade. Quando o oleiro Cipriano Algor tem de encarar a realidade de que não tem a mínima serventia para o mundo que se forma na caverna moderna, é obrigado a adentrar nesse mundo de sombras. Deixa o espaço exterior, a liberdade, para adentrar no mundo das câmeras que a tudo vigiam. O sentido é, portanto, inverso.
O enredo está baseado em uma análise psicológica e sociológica. Os personagens são criaturas de uma sociedade consumista, precisam aprender a lidar com a mudança que lhes é imposta. No progresso não há lugar para eles, não que sejam pessoas ignorantes, pelo contrário, são pessoas sensíveis, perceptivas, mas que sofrem ao se darem conta que neste novo mundo não há lugar para eles. É uma realidade vigiada e absoluta. O Centro tornou-se maior que a própria cidade. Cabe aos descontentes uma saída.
Espaço: não é definido em que cidade, em que país. Isto não tem importância: poderia ser em qualquer lugar do planeta. O Centro é um símbolo que, como as cavernas, não tem janelas mas transmite segurança. É portanto, herméticamente fechado, como o ‘sistema econômico’ vigente. Apesar dessa aparência hermética e de ser anunciado como um ‘shopping’, conforme algumas entrevistas o declaram, o Centro tem também prédios altos, ruas, avenidas, muitos parques e outros elementos que integram uma cidade.
O paradoxo campo-centro é bem delimitado. Demonstra as vantagens do campo, a sombra da amoreira-preta, os dias chuvosos, o solo embarrado depois da chuva e demonstra as desvantagens da clausura no Centro, onde as janelas do apartamento não se abrem por causa do ar condicionado e a entrada é feita pelo sub-solo. Além disso, oferece mil-e-uma atividades e serviços dentro do Centro, como uma forma de seus moradores não precisarem sair de lá para nada.
Tempo: não é preciso, ora é Cronológico e ora é Psicológico. Não é definido, mas fala de semanas em que Cipriano trabalha nas peças para o forno; fala das folgas de Marçal, que ocorrem a cada 10 dias e traz o evento da gravidez de Marta, nos seus primeiros meses.
Traz também evidências do dia, tal como manhãs, tarde e noite, pois descreve horas de dormir, almoços, cafés e atividades que ocorrem durante esses períodos.
Como na narrativa esses ‘micro’ tempos, que são descrições durante o dia em si, são mais descritos que os ‘macro’, ou seja, menções de meses ou anos, denota-se que há importância nos ‘micro’ tempos. Ou seja, a descrição das atividades no dia-a-dia é fundamental, não importando em que contexto de ano ou mês esteja inserido.
Personagens: o persnagem central é Cipriano Algor, um pai de família, viúvo há três anos de Justa Isasca, oleiro e que conta com 64 anos. Sua filha, Marta Isasca Gacho, é esposa de Marçal Gacho, um jovem com menos de trinta anos. Isaura Estudiosa/Madruga é uma viúva de 45 anos e que se torna companheira de Cipriano. Há ainda a presença do cão Achado cujas ações são descritas com riqueza de detalhes, chegando ao ponto do narrador personificá-lo ao máximo.
Os demais personagens são de somenos importância, embora estejam sempre envolvidos na narrativa. São os “homens de negócios” do Centro, executivos que tem a liberdade de ‘cortarem o pescoço’ de Cipriano à hora que quiserem. Ou melhor, à hora que Cipriano não é mais necessário aos negócios do Centro.
Cipriano representa o artesão que está em vias de extinção por causa da ultra-modernidade dos negócios e avanços tecnológicos do Centro. É sobretudo humano, muito humano, e quase sucumbe às exigências do império mercadológico. É uma crítica enfática ao sistema corrupto e desumano do mundo dos negócios em detrimento ao trabalho artesanal, minucioso e feito com prazer pelo autônomo, pelo artesão, pelo pequeno empresário e pequeno empreendedor.
Marta representa a mulher terna mas submissa, que aguarda a volta do marido a cada 10 dias, sem reclamar, e que assume o lugar da mãe e cuida assim do pai. Com este tem uma relação afetiva muito forte e protetora. Está grávida e traz assim também a simbologia da ‘mãe’, aquela que gera e cuida. É passiva e paciente e sua crítica fica em torno disso.
Marçal vive entre o campo e a cidade, onde trabalha e ganha o sustento para o casal. Vive a expectativa de ‘melhorar de vida’, pois espera ser promovido: mais uma absorção do centro, do mundo dos negócios. É uma espécie de ‘ponte’ entre esses dois mundos e é quem ‘abre’ a porta da caverna para Cipriano, revelando-lhe os segredos aterradores. Marçal talvez seja uma crítica à constante dúvida que assalta o homem: “o que é melhor, ficar no centro, submetendo-se à ele ou ficar no campo? Aceitar o dito progresso ou rebelar-se?”
Isaura é um alento, uma perspectiva de recomeço, principalmente para Cipriano. Uma mensagem de esperança de que o amor tudo pode, tudo vence, pois Cipriano e Isaura já são avançados em idade. Apesar disso, tentam reconstruir um mundo, uma vida. Pelo menos assim o querem. É uma crítica à frieza com que o mercado financeiro trata as relações entre seres e o amor.
Achado não é menos que um personagem também, pois suas atitudes são minuciosamente descritas e quase personificadas. Ele representa um arauto à vida, quer seja animal, vegetal, mineral ou humana. Desde que haja um fiapo de vida em um ser, este merece afeto e respeito. Critica a brutalidade do mundo consumista que prefere se entreter com imagens virtuais.
- Considerações Finais
Sem dúvida alguma, José Saramago soube transpor muito bem o Mito da Caverna de Platão para a realidade contemporânea. Soube explorar bem os elementos da Caverna em si, os personagens e o ambiente, dando-lhes características facilmente identificáveis no conterxto atual, sem contudo mencioná-lo. Pode ser como pode não ser...
Apesar de ser ateu e comunista, Saramago é na verdade um humanista, segundo avaliação do Dr. Celso Kipper. Saramago põe o homem no centro do enredo, no centro da vida, no centro do mundo. O homem é o “centro movedor” do mundo, a razão da existência. No Centro ilustrado pelo livro, o homem é “massa de manobra”, o que repugna o escritor e é contra esse conceito que ele batalha o tempo todo.
A sua “trilogia involuntária tem esse aspecto: o homem como centro de tudo. Traz em si, então, o questionamento sobre o rumo da humanidade... Para onde realmente estamos caminhando?...
- Referências Bibliográficas
1 RUESCAS, Jesus.Curso de Portugues para todos. Rio de Janeiro; RBE Editorial Ltda., 2002, 452 p.
2 PROENÇA Fo., Domício. Pós-Modernismo e Literatura. São Paulo: ed. Ática, 1995, 86 p.
3 SARAMAGO, José. A Caverna. São Paulo; Cia. das Letras, 2001, 350p.
4 Arias, Juan. José Saramago: El amor posible. Espanha: Editorial Planeta, 1998, 191p.
5 Grande Enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo, Nova Cultural Ltda, 1998, vol21.
6 Revista Cult, dezembro 2001, p 20 e 21
7 Jornais Zero Hora e Folha
8 Sites da Internet.
Este texto foi escrito em 2002 para a disciplina de Introdução ao estudo de Literatura Portuguesa no curso Língua e Literautura Alemã, da UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA.

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