A lenda do Lago
(E dos
sonhos de poetas)
Alcançando a
colina, avista-se o Lago, e, se a sorte bater,
Vê-se o
Congresso refletido em suas águas...
Mas isto,
depois de percorrer caminho entre arvoredos e matas do cerrado.
E ao
alvorecer, lá ao longe, no horizonte,
vê-se a bruma
compacta da seca. Escura. Quase cinza.
Sabe-se que a
seca se avizinha.
Sabe-se que as
Caliandras não temerão em florir e colorir-se de vermelho
entre a palha
dos matos.
Sabe-se que os
Palipalans também não hesitarão em dançar ao som seco do vento.
Sabe-se que os
poetas não se recusarão a observar tão flagrante natureza.
Tão fértil,
tão sedutora, tão farta.... mesmo na seca.
Nos completamos... que bom que você
existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.
Aqueles poetas
se criaram em meio a uma mesma cultura, embora em espaços geográficos
distintos. Longe do cerrado. Havia uma distância marcada e fronteiriça. Havia
diferenças.
Casaram, e
tiveram filhos.
E um
decidiu-se por ser feliz, e deixar que seu companheiro também fosse feliz.
O outro
decidiu ser feliz e tentar fazer feliz seu companheiro.
E um decidiu
novamente ser feliz, e deixar seu companheiro, igualmente, ser feliz.
O outro
decidiu ser feliz e tentar fazer feliz seu companheiro.
Buscaram, de
certa forma, a provisão de sua felicidade.
Esqueceram de
buscar em si mesmos, a provisão de sua felicidade.
Nos completamos... que bom que você
existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.
E rumaram de
seus lugares. Seus antigos lugares ficaram no passado,
guardados no
íntimo, selados numa ‘caixa de recordações’.
Rumaram para
lugares distantes, vencendo serras e escarpas.
Viram as
paisagens se alterarem pelo caminho:
Passaram-se os
Manacás-da-serra, e houve lugar para os Buritis.
Se apaixonaram
pela natureza e por aquele imenso Lago, manso, quase imóvel, a espelhar as
nuvens naquelas manhãs de outono...
Rumaram sem
rumo certo. Rumaram com certeza incerta. Rumaram na esperança de novas esperanças.
Nos completamos... que bom que você
existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.
Consolidaram
algumas certezas. Outras não. Alguns traíram e outros foram traídos. Alguns
amaram e outros foram amados.
Alguns
invadiram espaços... e almas. Outros foram sensivelmente tocados.
Alguns
versejaram. Outros escutaram. Outros ainda, navegaram milhas no Lago num barco
sem leme, com rumo, com prumo e vela. E vento. E brisa...
Consolidaram-se
as sementes como as sementes de Caliandras ao vento. Que caem na terra e
florescem mesmo na seca. No outono. No cerrado.
Nos completamos... que bom que você
existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.
Passaram-se
alguns tempos. Novamente se fez sexta. Novamente se versava. E se ouvia
atentamente. Se conversava atentamente.
E se
debruçavam, os poetas, sobre o parapeito da vida, a relembrar os fatos
guardados naquela ‘caixa de recordações’... se debruçaram sobre o parapeito da
vida, a questionar... a indagar... a comentar... a constatar. A constatar.
Poetas
constatam. Poetas visionam e constatam.
Poucos os
ouvem. Pois visionam e não há quem os compreenda.
Nos completamos... que bom que você
existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.
Eis que
naquele dia, ousaram percorrer o Lago. Ousaram transpassar as águas de março
daquele Lago calmo, sereno, azul em seu reflexo de outono.
E se
estenderam pela margem, sobre a relva das margens, a observar o imenso sol que
se ia. Se ia no horizonte. Sem montanhas. Não há montanhas no cerrado. Há
nuvens multicores.
Nuvens de crista
rendilhadas com cores fortes e brilhantes.
Há raios
multicores e fortes, de um sol que tenta se prender pra não cair na linha do
horizonte. E grita em cores berrantes sua angústia de cair. E de ir-se. Por fim
deixa-se cair. Deixando em seu vazio a noite escura.
Mas eis que
surge, do outro lado do horizonte, por trás de um cálido, pálido e rosado
horizonte, a lua do equinócio de outono.
Nos completamos... que bom que você
existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.
Foram-se os
poetas. Foram-se pela madrugada, trovando e versando.
O Lago
aguarda, a cada estação, as trovas e os versos de outono. Aguarda e melodia
calmo, solitário, em reflexos de luzes e construções. No reflexo distante do
Congresso. Duas torres. Duas poesias. Dois sonhos.
Onde ficaram seus
versos? Onde ficaram os poetas das manhãs e das tardes?
Onde ficaram
os sabores das almas apaixonadas, ousadas e cheias de projetos? Cheias de
aventurescas buscas? Talvez... tenham ido buscar, em si mesmos, a provisão de
sua felicidade.
O Lago nunca mais
os viu... mas aguarda seu retorno, a cada outono... nos raios de lua a refletir
no Lago... nos raios de sol nos fins de tarde.
Nos completamos... que bom que você
existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.
(Autora: Ellen
Crista da Silva)
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