terça-feira, 22 de setembro de 2015

A lenda do Lago (e dos sonhos de poetas)




A lenda do Lago
(E dos sonhos de poetas)

Alcançando a colina, avista-se o Lago, e, se a sorte bater,
Vê-se o Congresso refletido em suas águas...
Mas isto, depois de percorrer caminho entre arvoredos e matas do cerrado.
E ao alvorecer, lá ao longe, no horizonte,
vê-se a bruma compacta da seca. Escura. Quase cinza.
Sabe-se que a seca se avizinha.
Sabe-se que as Caliandras não temerão em florir e colorir-se de vermelho
entre a palha dos matos.
Sabe-se que os Palipalans também não hesitarão em dançar ao som seco do vento.
Sabe-se que os poetas não se recusarão a observar tão flagrante natureza.
Tão fértil, tão sedutora, tão farta.... mesmo na seca.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Aqueles poetas se criaram em meio a uma mesma cultura, embora em espaços geográficos distintos. Longe do cerrado. Havia uma distância marcada e fronteiriça. Havia diferenças.
Casaram, e tiveram filhos.
E um decidiu-se por ser feliz, e deixar que seu companheiro também fosse feliz.
O outro decidiu ser feliz e tentar fazer feliz seu companheiro.
E um decidiu novamente ser feliz, e deixar seu companheiro, igualmente, ser feliz.
O outro decidiu ser feliz e tentar fazer feliz seu companheiro.
Buscaram, de certa forma, a provisão de sua felicidade.
Esqueceram de buscar em si mesmos, a provisão de sua felicidade.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

E rumaram de seus lugares. Seus antigos lugares ficaram no passado,
guardados no íntimo, selados numa ‘caixa de recordações’.
Rumaram para lugares distantes, vencendo serras e escarpas.
Viram as paisagens se alterarem pelo caminho:
Passaram-se os Manacás-da-serra, e houve lugar para os Buritis.
Se apaixonaram pela natureza e por aquele imenso Lago, manso, quase imóvel, a espelhar as nuvens naquelas manhãs de outono...
Rumaram sem rumo certo. Rumaram com certeza incerta. Rumaram na esperança de novas esperanças.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Consolidaram algumas certezas. Outras não. Alguns traíram e outros foram traídos. Alguns amaram e outros foram amados.
Alguns invadiram espaços... e almas. Outros foram sensivelmente tocados.
Alguns versejaram. Outros escutaram. Outros ainda, navegaram milhas no Lago num barco sem leme, com rumo, com prumo e vela. E vento. E brisa...
Consolidaram-se as sementes como as sementes de Caliandras ao vento. Que caem na terra e florescem mesmo na seca. No outono. No cerrado.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Passaram-se alguns tempos. Novamente se fez sexta. Novamente se versava. E se ouvia atentamente. Se conversava atentamente.
E se debruçavam, os poetas, sobre o parapeito da vida, a relembrar os fatos guardados naquela ‘caixa de recordações’... se debruçaram sobre o parapeito da vida, a questionar... a indagar... a comentar... a constatar. A constatar.
Poetas constatam. Poetas visionam e constatam.
Poucos os ouvem. Pois visionam e não há quem os compreenda.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Eis que naquele dia, ousaram percorrer o Lago. Ousaram transpassar as águas de março daquele Lago calmo, sereno, azul em seu reflexo de outono.
E se estenderam pela margem, sobre a relva das margens, a observar o imenso sol que se ia. Se ia no horizonte. Sem montanhas. Não há montanhas no cerrado. Há nuvens multicores.
Nuvens de crista rendilhadas com cores fortes e brilhantes.
Há raios multicores e fortes, de um sol que tenta se prender pra não cair na linha do horizonte. E grita em cores berrantes sua angústia de cair. E de ir-se. Por fim deixa-se cair. Deixando em seu vazio a noite escura.
Mas eis que surge, do outro lado do horizonte, por trás de um cálido, pálido e rosado horizonte, a lua do equinócio de outono.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

Foram-se os poetas. Foram-se pela madrugada, trovando e versando.
O Lago aguarda, a cada estação, as trovas e os versos de outono. Aguarda e melodia calmo, solitário, em reflexos de luzes e construções. No reflexo distante do Congresso. Duas torres. Duas poesias. Dois sonhos.
Onde ficaram seus versos? Onde ficaram os poetas das manhãs e das tardes?
Onde ficaram os sabores das almas apaixonadas, ousadas e cheias de projetos? Cheias de aventurescas buscas? Talvez... tenham ido buscar, em si mesmos, a provisão de sua felicidade.
O Lago nunca mais os viu... mas aguarda seu retorno, a cada outono... nos raios de lua a refletir no Lago... nos raios de sol nos fins de tarde.

Nos completamos... que bom que você existe... obrigado pela força...
-E eu chorei.

(Autora: Ellen Crista da Silva)

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