segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Tirando da Prateleira: "Felicidade" (Hermann Hesse)

Um autor do cotidiano, das coisas simples, mas profundas. Que tocam alma e coração. Um autor que pensa e repensa o que escreveu, se detém a meditar sobre uma palavra que usou. Uma expressão que inovou. Um autor composto na simplicidade.

"Em Felicidade" conhecemos a casa do autor, os pequenos cômodos, a paisagem de sua janela, as flores, sua gata, o armário de diferentes tipos de papéis que, no mais do que insumo para suas obras, eram retratos de seu estado de espírito: num dia áspero, noutro liso; branco, amarelado ou colorido." (da orelha do livro)

Nenhum pincel de nenhum pintor jamais tocou a tela com tanto amor, emoção e delicadeza quanto o vento estival quanto acaricia, penteia e faz assobiar o capim alto ou o campo de aveia, ou quando brinca com nuvenzinhas cor de asa de pombo fazendo-as flutuar em ciranda, e por um segundo acende em minúsculos arco-íris de luz as suas beiradas tênues. Como nos falam, nesses sinais, a transitoriedade e velocidade de toda a beleza, com seu encanto, sua branda melancolia, véus de Maia, a um tempo incorpóreos e afirmação de todo o ser! (p. 150)

Admirável capacidade de Hermann Hesse, de transportar o leitor a cenários e sentimentos praticamente impossíveis, mas totalmente percebidos, sentidos pelo leitor. Como por ex. quando diz que o vento 'acaricia', sem mãos, por não ser humano; que 'penteia', embora o capim não tenha cabelos; que assobia, quando nem boca possui;  mas são efeitos, narrações perfeitamente compreensíveis. E como então, não sentir a carícia do vento, não imaginá-lo 'penteando' o capim? Como não 'ouvir' seu assobio? Como não sentir tudo isso no próprio rosto, no próprio corpo?  

Este aspecto da leitura em  Hermann Hesse é quase mágico. É único de quem tem a capacidade de levar estes aspectos ao papel, criando textos que envolvem o leitor de tal forma a quase acreditar que viveu estas sensações. 

...por vezes admirei letras e números inventados e produzidos tão anêmicos, tão ruins, sem amor, sem vida, sem jogo, sem fantasia nem responsabilidade, que mesmo multiplicados em metal ou porcelana traíam despudoradamente a psicologia dos que os tinham inventado. (p. 148)


Hermann Karl Hesse nasceu em julho de 1877 e faleceu em agosto de 1962. Escritor e pintor de origem alemã. Em 1946 recebeu o Prêmio Goethe e em seguida, o Nobel de Literatura.




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