quinta-feira, 26 de agosto de 2021

"Tem que ler de novo...": A Caverna (José Saramago)

Cipriano Algor sentou-se num velho banco de pedra que o avô fizera colocar ao lado do forno, apoiou os cotovelos nos joelhos, o queixo nas mãos juntas e abertas, não olhava a casa nem a olaria, nem os campos que se estendiam para lá da estrada, nem os telhados da aldeia à sua direita, olhava só o chão semeados de minúsculos fragmentos de barro cozido, a terra alvacenta e granulosa que por baixo deles aparecia, uma formiga extraviada que erguia nas mandíbulas potentes uma pragana com  duas vezes o seu tamanho, o recorte de uma pedra de onde a fina cabeça de uma lagartixa espreitou, para logo se sumir. Não tinha pensamentos nem sensações, era apenas o maior daqueles pedacinhos de barro, um torrãozito seco que uma leve pressão de dedos bastaria para esfarelar, uma pragana que se soltara da espiga e era transportada pelo acaso de uma formiga, uma pedra aonde de vez em quando se acolhia um ser vivo, um escaravelho, ou uma lagartixa, ou  uma ilusão. (p 127)

“A Caverna” é um livro apaixonante e intrigante! O livro me fascinou de uma maneira muito singular , me vi completamente envolvida com a redação de um trabalho e pesquisa a respeito de autor e obra, uma vez que se encontra pouco material bibliográfico disponível.  Essa carência de material aguçou ainda mais minha curiosidade e procura, pois Saramago é um escritor da atualidade e está no nosso convívio.

Encontramos na estória os seguintes personagens: Cipriano Algor (64 anos), sua filha Marta Isasca
Gacho, seu genro Marçal Gacho, a viúva Isaura Estudiosa/Madruga e o cão Achado.
Cipriano Algor é um oleiro que vive numa casinha nos subúrbios do Centro com sua filha Marta, e o genro Marçal. Marçal trabalha no Centro e só tem folga de 10 em 10 dias, quando então Cipriano vai buscá-lo e ele desfruta da companhia da jovem esposa.

Sem dúvida alguma, José Saramago soube transpor muito bem o Mito da Caverna de Platão para a realidade contemporânea. Soube explorar bem os elementos da Caverna em si, os personagens e o ambiente, dando-lhes características facilmente identificáveis no contexto atual, sem contudo mencioná-lo. Pode ser como pode não ser...
Apesar de ser ateu e comunista, Saramago é na verdade um humanista. Saramago põe o homem no centro do enredo, no centro da vida, no centro do mundo. O homem é o “centro movedor” do mundo, a razão da existência. No Centro ilustrado pelo livro, o homem é “massa de manobra”, o que repugna o escritor e é contra esse conceito que ele batalha o tempo todo. 
A sua “trilogia involuntária tem esse aspecto: o homem como centro de tudo. Traz em si, então, o questionamento sobre o rumo da humanidade... Para onde realmente estamos caminhando?... 

José Saramago nasceu em 1922 em Portugal e faleceu em 2010. Em 1995 ganhou o Premio Camões e em 1998 ganhou o Prêmio Nobel da Literatura. É considerado como responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. 





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