quarta-feira, 6 de maio de 2020

Transmigração dos Poloneses (Publicado. Autora: Maria do Carmo Ramos Krieger)


Transmigração dos poloneses – 1871
Artigo publicado em: AGENDA CULTURAL POLÔNIA BRASIL - Número 14 - Março / Abril 2020
Autora: Maria do Carmo Ramos KRIEGER PhD em História da Educação. Realiza estágio pós-doutoral na Universidade de Varsóvia/PL.

A caminho dos 150 anos da trans­migração dos imigrantes poloneses de Brusque/SC para Curitiba/PR, ocorrida em setembro de 1871, vale ressaltar que essa viagem de um Estado para outro teve envolvimen­tos os mais diversos – todos devi­damente abordados em livros de minha autoria, especialmente no último: “Uma Geografia (e outras histórias) para os polacos” (2019). Assim, torna-se desnecessário repe­ti-los, possibilitando ao leitor uma busca pelas pesquisas já publicadas.
A mudança de residência dos imigrantes não foi uma migração temporária. Pelo contrário: vieram e fixaram-se em Curitiba, ou melhor: no rocio da cidade, oportunizando à localidade um processo demográ­fico caracterizado pela chegada de uma etnia que, posteriormente, seria das mais importantes na eco­nomia, haja vista sua contribuição para o abastecimento de verduras e hortaliças – mercadorias que vi­raram imagem icônica na paisagem curitibana, com a circulação das car­roças que faziam o comércio entre a população curitibana. As carroças também anunciavam a presença das mulheres imigrantes tocando os ne­gócios familiares na informalidade.
Mas nem sempre foi assim. Quando os reimigrados de Brusque/SC (lem­brando: haviam chegado ao Brasil em agosto de 1869, provenientes de Opole, Alta Silésia) “aportaram” em Curitiba, tem reinício o processo de adaptação a um espaço geográfico com toda sorte de diferenças: clima, vegetação, relevo, cultura. E a con­jugação do verbo transmigrar tam­bém não foi nada fácil para os po­loneses, os quais precisaram ser resilientes, após sofrerem o impacto de sua difícil procura por um lugar para morar...
Quando busquei informações so­bre o tema, encontrei muitas referên­cias no Arquivo Público do Paraná,  em livros os mais diversos contendo anotações de ofí­cios, cartas, atas. Todas interessantes e dando veracida­de a suspeitas de que, afinal, os imigrantes não ficaram, à época, tão bem quanto alguns pesquisadores/autores sobre a chegada dos primeiros poloneses queriam (e ainda o querem) fazer crer. Uma correspondência de Sebastião Saporski, datada de 12/08/1870 (nesse ano, já estava em andamento a negociação da trans­migração), encaminhada ao Presidente da Província do Paraná, cita sobre o envio da “lista das famílias Polacas, oitenta pessoas, que emigrarão no ano pas­sado para o Brasil (...) para que pudesse-lhes ser concedida a muita humilde pedida dêlles o transporte d’essa Província para a do Paraná”. Pedido indeferido. Palácio da Presidência da Província, 25 outubro 1870.

Por sua vez, em 19/09/1870 a Tesouraria da Fazenda da Província do Paraná remetia ao Senhor Dr. Agostinho Ermelino de Leão, Presidente da dita Província, a devolução do “incluso officio do dire­tor da Colonia do Assunguy”, pois “não tendo o Go­verno autorisado despesas com colonos já existen­tes no paiz, e que migram de um lado para outro ponto, nenhum pagamento se poderá fazer com os que se estabeleceram naquella colonia, vindos da Provincia de Santa Catharina. Attendendo, porem, que o Governo Imperial tem sempre em vista favorecer a condição dos emigrantes europeus que entre nós se vem estabelecer, julgo que seria conveniente V. Ex.a solicitar do mesmo governo autorisação para a despesa reclamada pelo referido Director”.
Quanto ao período de 1871 a 1873 comentei, no livro acima citado, sobre anotações de Atas da Câmara Muni­cipal de Curitiba, todas dando conta de pedidos de terre­nos e outros tipos de ajuda, por parte dos reimigrantes poloneses.
No final de 1873, em 31 de dezembro, a Tesouraria da Fazenda da Província do Paraná encaminhava ao Dr. Frederico José Cardoso d’Araujo Abranches - Presidente da mesma Província, um ofício sugerindo que “Por conta do credito especial de dez contos de reis (10:000r000) posto á disposição de V. Exa. para auxi­liar a colonisação expontanea, poder-se-há indennizar á Camara municipal desta capital”. O texto continua co­mentando sobre “as 174 cartas de datas com 435:000 braças quadradas de terrenos, em que acaba de ser fun­dada a Colonia – Abranches, se assim V. Ex.a o autorisar.”
Porém, a própria Câmara queria mais, pois anterior­mente, a 10/12/1873, antecipava-se a um pedido de aditivo de 2:000r000, justificando que, no “intuito de fa­cilitar e proteger a immigração, estabelecido a colônia Abranches, onde foram acommodadas as diversas fami­lias de immigrantes polacos” precisava do referido valor como “indenisação das despezas com o estabelecimento daqueles immigrantes".
E o fim do ano de 1873 (31/12) chegou, trazendo o registro de uma correspondência assinada pelo 1º. Escriturário Gustavo Augusto de Castro dando conta da aprovação solicitada, pois “julgo que não há inconveniente em ser entregue á Camara Municipal desta Capital a quantia de 2:000r000 que pede no incluso officio como indenisação das des­pesas que fez com o estabelecimento de varias famílias de emigrantes polacos na Colonia Abranches. Concordo: o Contador Alfredo Munhoz”.
Eis que a localidade de Abranches se destaca na História dos Imigrantes Poloneses em Curitiba! E con­tinua até hoje como ponto importante de referência no contexto de tantas e tantas famílias que cresceram e vivem no Bairro Abranches, cultuando tradições, aproximando amizades, festejando eventos, referen­ciando antepassados e, principalmente, unidos pela fé católica que sempre as acompanhou. 

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