Transmigração
dos poloneses – 1871
Artigo publicado em: AGENDA
CULTURAL POLÔNIA BRASIL - Número 14 - Março / Abril 2020
Autora: Maria do Carmo Ramos KRIEGER PhD em História da Educação. Realiza
estágio pós-doutoral na Universidade de Varsóvia/PL.
A caminho dos 150 anos da transmigração dos
imigrantes poloneses de Brusque/SC para Curitiba/PR, ocorrida em setembro de
1871, vale ressaltar que essa viagem de um Estado para outro teve envolvimentos
os mais diversos – todos devidamente abordados em livros de minha autoria,
especialmente no último: “Uma Geografia (e outras histórias) para os polacos”
(2019). Assim, torna-se desnecessário repeti-los, possibilitando ao leitor uma
busca pelas pesquisas já publicadas.
A mudança de residência dos imigrantes não foi uma
migração temporária. Pelo contrário: vieram e fixaram-se em Curitiba, ou
melhor: no rocio da cidade, oportunizando à localidade um processo demográfico
caracterizado pela chegada de uma etnia que, posteriormente, seria das mais
importantes na economia, haja vista sua contribuição para o abastecimento de
verduras e hortaliças – mercadorias que viraram imagem icônica na paisagem
curitibana, com a circulação das carroças que faziam o comércio entre a
população curitibana. As carroças também anunciavam a presença das mulheres
imigrantes tocando os negócios familiares na informalidade.
Mas nem sempre foi assim. Quando os reimigrados de Brusque/SC (lembrando:
haviam chegado ao Brasil em agosto de 1869, provenientes de Opole, Alta
Silésia) “aportaram” em Curitiba, tem reinício o processo de adaptação a um
espaço geográfico com toda sorte de diferenças: clima, vegetação, relevo,
cultura. E a conjugação do verbo transmigrar também não foi nada fácil para
os poloneses, os quais precisaram ser resilientes, após sofrerem o impacto de
sua difícil procura por um lugar para morar...
Quando busquei informações sobre o tema, encontrei muitas referências
no Arquivo Público do Paraná, em livros os mais diversos contendo
anotações de ofícios, cartas, atas. Todas interessantes e dando veracidade a
suspeitas de que, afinal, os imigrantes não ficaram, à época, tão bem quanto
alguns pesquisadores/autores sobre a chegada dos primeiros poloneses queriam (e
ainda o querem) fazer crer. Uma correspondência de Sebastião Saporski, datada
de 12/08/1870 (nesse ano, já estava em andamento a negociação da transmigração),
encaminhada ao Presidente da Província do Paraná, cita sobre o envio da “lista
das famílias Polacas, oitenta pessoas, que emigrarão no ano passado para o
Brasil (...) para que pudesse-lhes ser concedida a muita humilde pedida dêlles
o transporte d’essa Província para a do Paraná”. Pedido indeferido. Palácio da
Presidência da Província, 25 outubro 1870.
Por sua vez, em 19/09/1870 a Tesouraria da Fazenda da
Província do Paraná remetia ao Senhor Dr. Agostinho Ermelino de Leão,
Presidente da dita Província, a devolução do “incluso officio do diretor da
Colonia do Assunguy”, pois “não tendo o Governo autorisado despesas com
colonos já existentes no paiz, e que migram de um lado para outro ponto,
nenhum pagamento se poderá fazer com os que se estabeleceram naquella colonia,
vindos da Provincia de Santa Catharina. Attendendo, porem, que o Governo
Imperial tem sempre em vista favorecer a condição dos emigrantes europeus que
entre nós se vem estabelecer, julgo que seria conveniente V. Ex.a solicitar do
mesmo governo autorisação para a despesa reclamada pelo referido Director”.
Quanto ao período de 1871 a 1873 comentei, no livro
acima citado, sobre anotações de Atas da Câmara Municipal de Curitiba, todas
dando conta de pedidos de terrenos e outros tipos de ajuda, por parte dos
reimigrantes poloneses.
No final de 1873, em 31 de dezembro, a Tesouraria da
Fazenda da Província do Paraná encaminhava ao Dr. Frederico José Cardoso
d’Araujo Abranches - Presidente da mesma Província, um ofício sugerindo que
“Por conta do credito especial de dez contos de reis (10:000r000) posto á
disposição de V. Exa. para auxiliar a colonisação expontanea, poder-se-há
indennizar á Camara municipal desta capital”. O texto continua comentando
sobre “as 174 cartas de datas com 435:000 braças quadradas de terrenos, em que
acaba de ser fundada a Colonia – Abranches, se assim V. Ex.a o autorisar.”
Porém, a própria Câmara queria mais, pois anteriormente, a 10/12/1873,
antecipava-se a um pedido de aditivo de 2:000r000, justificando que, no
“intuito de facilitar e proteger a immigração, estabelecido a colônia
Abranches, onde foram acommodadas as diversas familias de immigrantes polacos”
precisava do referido valor como “indenisação das despezas com o
estabelecimento daqueles immigrantes".
E o fim do ano de 1873 (31/12) chegou, trazendo o registro de uma
correspondência assinada pelo 1º. Escriturário Gustavo Augusto de Castro dando
conta da aprovação solicitada, pois “julgo que não há inconveniente em ser
entregue á Camara Municipal desta Capital a quantia de 2:000r000 que pede no
incluso officio como indenisação das despesas que fez com o estabelecimento de
varias famílias de emigrantes polacos na Colonia Abranches. Concordo: o
Contador Alfredo Munhoz”.
Eis que a localidade de Abranches se destaca na História dos Imigrantes
Poloneses em Curitiba! E continua até hoje como ponto importante de referência
no contexto de tantas e tantas famílias que cresceram e vivem no Bairro
Abranches, cultuando tradições, aproximando amizades, festejando eventos,
referenciando antepassados e, principalmente, unidos pela fé católica que
sempre as acompanhou.
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