Há mais de 10 anos atrás tive contato com Isabel e
Venina, em Itaiópolis, na Colônia Lucena. O objetivo da visita era conhecer um
pouco mais da vida dos imigrantes poloneses, nesta região. O nome ‘Lucena’ se
deve ao Barão de Lucena.
Isabel, nascida em 1941, contou mais ou menos o
seguinte: que os bugreiros eram os homens que matavam os índios, pois os índios
atacavam as plantações e também matavam os donos de propriedade. Os poloneses
ganhavam armas, mas não podiam matar; somente os bugreiros podiam matar. A vida
não era fácil. Ser polaco não era simples: muitos foram perseguidos,
principalmente na época das Campanhas de Nacionalização (do ensino de língua
portuguesa).
Ainda na época destas Campanhas, o 2º., Batalhão do
Exército necessitava de luz durante o dia, o que obrigava os colonos a
trabalharem nos moinhos de farinha durante a noite. Este moinhos, que
preparavam o trigo e centeio, eram movidos à roda d’água.
As casas da Colônia eram todas construídas de madeira
e a comida era cozida e assada em fogão a lenha. Havia poços, e a água era
retirada manualmente, com baldes. Mais tarde, muito mais tarde, foram
instaladas bombas elétricas.
O tempo livre era usado para fazer bordados, pintar
cascas de ovos (pisanke) e para leituras. Para o Natal faziam-se bolachas e o
jantar era servido depois da primeira estrela brilhar no céu. Para a Páscoa
eram preparadas cestas de alimentos e estas eram levadas para a Sacristia, para
serem benzidas. Mas frequentemente o Sacristão furtava a cesta!
Do folclore, conta-se do diabo que tinha o rabo com
alfinetes. Na Colenda o diabo era preto, pintado com carvão. Diz-se que ele
abraçava e beijava as moças; passava por detrás das casas e pegava as moças.
Havia também o bode, uma máscara de bode que mexia a mandíbula. E um homem
carregava uma estrela enorme com uma luz interna.
Venina, nascida em 1943, conta que vieram com a
Guerra. Não havia meios de comunicação na Colônia, apenas o trem servia como
este meio. Seu avô ia de carroça para Joinville e Mafra a fim de buscar sal,
querosene, cal e o mais que precisavam.
Passaram fome e muita discriminação devido ao idioma
ser alemão ou polonês. Havia alemães imigrantes na região, por isso a
discriminação. Também eram comuns os furtos de alimentos e plantas da lavoura.
Em outra oportunidade chegou um trem que desembarcou uma turma que veio da
Polônia – mas ninguém quis aceitá-los.
O pinhão, nativo da região, fazia parte da
alimentação. Cozinhavam, mas ninguém tinha explicado que era preciso descascar.
Também cultivavam milho e abóbora.
Havia aulas de polonês para os colonos e os pais de
Isabel e Venina iam a pé para a escola do Prof. Wachowicz. Às mulheres não era
permitido irem para a escola.
Estas foram algumas lembranças de Isabel e Venina, do
seu tempo de infância.
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