sábado, 29 de janeiro de 2022

"Mil Léguas na América do Sul" (Leão Dehon)

Viajar é preciso... novas perspectivas, novos rumos, novos conhecimentos, descobrimentos de mundos internos e externos se avizinham, quando assim estamos preparados.

E viajar por terras desconhecidas através de histórias contadas, narradas em minúcias e envolvidas de paixão pelo escritor, é uma experiência quase indescritível. É viajar por outros mundos, pela imaginação do autor e criando a sua própria imagem, a sua própria história enquanto percorre os passos da caneta do autor. Que doido, tudo isso! Doido e maravilhoso!

O autor de "Mil Léguas na América do Sul" é Pe Leão Dehon, fundador da Ordem do Sagrado Coração de Jesus. Dom Murilo, irmão da escritora Maria do Carmo Ramos Krieger, faz parte desta Ordem.

O original é em francês: Mille Lieues dans l'Amerique du Sud e foi publicado, provavelmente em 1907.

Consta que o Pe Dehon partiu em viagem ao Brasil em outubro de 1906. Visitou o Nordeste e depois o Sul. Sensacional como descreve a chegada no Recife, a viagem em jangadas e seus contratempos, a visão das baleias nas águas nordestinas, a habilidade de mulatos e negros com as jangadas e a pescaria.

O Pe Dehon visita personalidades  das comunidades, fábricas, lojas, comércio local, enfim, conhece cada cantinho de cada cidade visitada e descreve suas impressões com uma sensibilidade incomum.

Ilha de Itamaracá, Recife, Olinda, Camaragibe, Iputinga, Caxangá (Escravos de Jó, jogavam caxangá, Tira, bota, deixa o Zé Pereira ficar...), Maceió, Goiana, Jaboatão, Bahia e mais, muito mais.

O autor descreve cereais, o plantio do algodão, as frutas, os vários alimentos e seu consumo. A criação de animais e seus cuidados; os costumes e as festividades. 

"No dia 7, domingo do Rosário, Grande festa da confraria na paróquia. A praça está enfeitada. Recebem-se às portas da Igreja com todas as pompas de festa: flores, foguetões, discursos. As saudações escritas são enfeitadas com delicados desenhos em miniatura. É oferecido a mim, como lembrança, um soberbo roquete de renda do país." (p.46)

Suas andanças descem o Brasil até o sul: Espírito Santo, Rio de Janeiro e suas impressões sobre os primeiros anos de República, São Paulo e as fazendas de café, Santos, Paranaguá, São Francisco, Joinville, Curitiba, São Bento e Blumenau.

"Passamos pela vila dos poloneses. Essa boa gente só fala a sua língua. Um de nossos padres se esforça para aprender polonês, para poder exercer o ministério junto deles. 
Existe ali uma estrada carroçável construída pela Hansa de Hamburgo, sociedade colonizadora."(p.133)

"Dia 5, partida às 6 horas. Estrada atroz, sobretudo para um doente. A gente é sacudido como o grão na peneira. Vimos uma enorme cobra, uma jiboia, sobre o muro de um pasto. Panoramas soberbos: belos restos de mata virgem, onde é possível apreciar todos os caprichos da natureza e sua poderosa energia." (p.134)

E Pe Dehon chega em Blumenau: "Boa recepção oferecida pelos franciscanos, em Blumenau. Eles tem ali uma grande casa, com cerca de 60 religiosos. Quase todos são alemães. Tem escolásticos, um seminário, uma escola profissional; é a sua casa central na região. Eles prestam um grande serviço à diocese, atendendo de 6 a 7 paróquias."

"Eles (Pe Celso e Pe José Kaufman) introduziram no Brasil a tecelagem de lã. Fazem seus hábitos de burrel, assim como as irmãs italianas da paróquia vizinha de Nova Trento introduziram a criação do bicho-da-seda e a tecelagem da seda. Essas indústrias se desenvolverão no Brasil."

"O centro de Blumenau se desenvolveu penosamente, no início. Foi fundado em 1852, às margens do rio Itajaí, pelo colono alemão que lhe dá o nome. Ele se mantém graças aos subsídios do governo. Agora é próspero e as estradas se irradiam pelos arredores numa região rica, com muitos moinhos e fábricas. Barcos a vapor sobem e descem pelo rio Itajaí, mas a colônia utiliza também o porto de Nova Trento, que tem muitos alemães. Como em todas as colônias alemãs, os protestantes são numerosos e ocupam o centro da povoação." (p. 135)

"Joinville e Blumenau, com suas ruas retas, largas e sombreadas, suas casas rodeadas de jardins, onde crescem o carvalho e os chorões, parece que tomaram como modelo o tipo duma cidade renana. A metade dos habitantes desses municípios são alemães, os outros são italianos ou poloneses. Muitos são protestantes."

"Ali tem cervejarias, destilarias, carroçarias e outras indústrias e oficinas. As carroças e barcos transportam aos respectivos portos de São Francisco e de Itajaí sobretudo o mate, como também fumo, milho, farinha de mandioca, manteiga e outros produtos agrícolas. Os alemães do Brasil não fazem política; eles são colonos que tem tudo e pouco a pouco tornam-se brasileiros." (p. 136)

Ler é viajar. Viajar no tempo através das palavras de autores inspirados. Ou não. Mas quando ao final do livro, a leitura mexeu com o emocional, o psicológico, o racional e com todo o sentimento, corpo e alma, é sinal que o autor atingiu seu objetivo. 

Gratidão ao autor Pe. Dehon, que me proporcionou "viajar" por recantos do Brasil de forma que talvez, se fosse presencialmente, não perceberia certos detalhes tão sutis e maravilhosos. 
Gratidão à escritora Maria do Carmo, que me proporcionou esta viagem ao me passar este livro! 
Muito obrigada! 





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