BAÚ DE MEMÓRIAS II
04.01.1978
Há dois dias voltei do
Acampamento em Gramado; uma das melhores experiências em minha vida. Vou tentar
relembrar e descrever alguns momentos por lá vividos. O que vale, lá no íntimo,
é saber que o “Raio de Sol” não acabou, mas sim, apenas começou a raiar em cada
um de nós...
Embarquei em Blumenau às 22:00hs
do dia 24 de dezembro, véspera de Natal. A saída de casa para a rodoviária foi
muito confusa, pois meus pais iam pra praia e eu via o tempo passando rápido
demais. Mas conseguimos chegar a tempo de pegar o ônibus. E, com alguns minutos
de atraso, pos-se a rodar pelas ruas de Blumenau em direção à Itajaí. Antes da
entrada em Itajaí tivemos embarcados a Tânia e o Edésio. Tânia já era minha
conhecida, mas esta era a primeira vez que conversava com o Edésio.
A viagem até Porto Alegre
trascorreu normal. Foi muito boa! Chegamos à rodoviária e tratamos de pegar um
táxi até a Igreja. Ali fomos recebidos por uma senhora que nos confundiu com um
grupo de quatro chilenos... mas éramos apenas tres! Ninguém entendeu ninguém,
até que a senhora se deu conta que éramos brasileiros! Estávamos cansados, com
sono e fome. E cada vez mais chegavam mais jovens. Fomos os primeiros a chegar
na Igreja! E, logo em seguida, nós e mais tres argentinos fomos conduzidos à
casa de uma família. Tomamos um café delicioso, voltamos à Igreja para assistir
ao culto e depois retornamos à casa para almoçar.
O ônibus de Porto Alegre à
Gramado tinha horário marcado para sair às 12:30hs. Já estávamos no local, aguardando,
mas os ônibus ainda não tinham chegado. O calor era intenso e eu ainda sentia
muito sono. Para matar o tempo e suportar o calor deitamo-nos na calçada, sobre
as mochilas e sacolas e dormimos um bocadinho. Alguém estava cantando e alguém
estava tocando corneta e flauta. Nós tres estávamos a fim de dormir! Passou-se
mais algum tempo. Não havia o que fazer.
Foi então que passei a mão nos meus dados e ensinei a alguns a jogar “General”.
Alguns já sabiam. E foi durante o jogo que conheci Pedro e Graciela. Jogamos
ali mesmo, na calçada.
Às 16:30hs chegaram os tão
esperados ônibus! E então foi uma confusão geral até estarem todos acomodados e
prontos para partir. A viagem até Gramado durou duas horas. O cansaço me fez
adormecer durante o trajeto, até à entrada da cidade, quando então me
acordaram. Quem me acordou? Não sei! Mas me tomou uma emoção muito estranha: as
ruas encantadoras, floridas de hortênsias por todo caminho... era maravilhoso!
Um espetáculo magnífico, grandioso!
Chegando à Casa da Juventude ficamos
perplexos diante de tão bela natureza, tão belo panorama: o Lago Negro ladeado
por hortênsias, pinheiros... era tudo muito lindo! E adiantamos uma semana
cheia de surpresas para todos! Assim que
descarregamos tudo dos ônibus, fizemos fila na escadaria da Casa da Juventude.
Recebemos crachás que continham o nome, cidade e país de origem e o número de
registro. Então nos indicaram os quartos, para os quais nos dirigimos. Tudo
estava infalivelmente organizado e distribuido.
Meu quarto era de numero UM e minhas companheiras: Mônica, Graciela,
Addriana, Maria Emilia e Íris (esta, a única brasileira, além de mim). O meu
beliche era um superior, pra variar... Após um bom banho descemos para a janta
e o culto. O jantar era anunciado por uma campainha.
Os primeiros contatos correram em
plena harmonia e descontração. Todos procuravam se conhecer e trocar
informações. Durante o culto, o que impressionou, foi o silêncio: ouvia-se
apenas os leitores e o tic-tac do relógio.
Os leitores desta noite foram a Jacira e o Richard. Após o culto
recolhi-me e acordei no dia seguinte com a tremenda algazarra das meninas no
quarto. Só se ouvia parlarem em um castelhano desenfreado!
05.01.1978
Eu ainda não estava bem entrosada
com as meninas, mas arriscava uma conversa. Quem queria podia participar da
ginástica matinal. Nunca participei! Me limitei a me levantar, arrumar o
cobertor, a cama, me trocar, escovar os dentes e descer para o café quando
tocava a campainha. E o primeiro dia trouxe um amanhecer gostoso, diferente... Nós
tres, Tânia, Edésio e eu sentamos na mesma mesa em que jantamos na noite
anterior. Foram então, passados os
avisos a respeito das atividades do dia: uma hora para leitura da Lição
Bíblica, logo após o café. Em seguida, a
conferência ‘A’. Estavam todos muito animados e, conforme a programação, nós
tres resolvemos ler a Lição juntos após o café. Edésio pegou seus livros e
seguimos em direção ao Lago Negro. Escolhemos um dos bancos e aí iniciamos a
leitura, absolutamente concentrados. Como ainda restavam alguns minutos, demos
uma caminhada em volta do Lago. Tiramos algumas fotos. Tudo era mágico,
encantador!
Da Conferência ‘A’ ficou a idéia
de se vigiar constantemente o pensamento e estudar a Ciência Cristã para
compreender o que a cada um é atribuido. Seguiu-se uma discussão em grupo:
coletamos idéias, aperfeiçoamos pensamentos e aprendemos muito.
Seguiu-se o almoço e em seguida
aproveitei o tempo para escrever cartinhas e enviar cartões pelo serviço de
correio que havia na Casa da Juventude.
Durante a tarde estava previstos alguns esportes. Tânia, Edésio e eu
tínhamos de reservar passagens de volta à Santa Catarina. E enquanto Tânia
desembaraçava esta questão para nós, Edésio e eu demos uma escapada e fomos
correndo até o Hotel das Hortênsias. Ali tiramos muitas fotos e ficamos
admirando a paisagem. Não participei dos esportes desta tarde porque escolhi
participar do artesanato. Mas houve um desinteresse geral pelo artesanato,
o que me fez participar do Ping-pong. Mais tarde tivemos uma palestra, seguida
da janta, seguida de brincadeiras e música. Mário e eu nos divertimos vendo os
estrangeiros dançando samba. Brincou-se da dança da vassoura, da batata e
outras mais. E aí veio a primeira noite de fofocas no dormitório! Íris e eu nos
esforçávamos ao máximo para entender as castelhanas, mas foi difícil!
06.01.1978
Um surpresa nos acordou no dia
seguinte: o toque de corneta! Um dos jovens tocava corneta muito bem e foi ele
quem acordou o acampamento naquela manhã! Aliás, passou a nos acordar assim,
todas as manhãs, daí em diante! E ele fazia assim: tocava no dormitório dos
rapazes primeiro; depois subia uns degraus da escadaria do dormitório das
meninas e então tocava para nos acordar também! Novamente o café, leitura da
Lição, uma segunda conferência e o almoço: a Lição lemos de novo os tres
catarinas. Para a conferência, dada em castelhano, foram mudados os grupos. E após o almoço
tivemos esportes.
Edésio e eu conseguimos algumas
raquetes de tênis; pegamos a Kombi e ficamos perambulando pelo centro da cidade.
Compramos filme, batemos fotos e procuramos o Gramado Tênis Clube. Quando lá chegamos, Edésio resolveu cair na
piscina e desistiu do tênis! Viviana, do Chile, gostava de tênis e topou então
jogar comigo. Jogamos por um bom tempo. Depois resolvemos cair na água! A volta
à Casa da Juventude se fez a pé, em companhia de Beatriz e André.
Impressionava, durante a caminhada, a quantidade de hortênsias pelas calçadas.
Beatriz encontrou um filhotinho de lagarto, na calçada. Retornamos à caminhada,
trocando idéias sobre nossos cursos universitários.
Seguiu-se o banho e toda uma
preparação para a janta. Uma sessão de cinema nos aguardava em seguida: eram
duas filmagens do acampamento “Arco –Íris” realizado na Suíça. Além dos
artesanatos, esportes e conferências, os jovens fizeram passeios e escaldas nas
montanhas suiças. Ficamos com água na boca! Para o dia seguinte também tinhamos
uma caminhada prevista: até a Cascata do Caracol. E neste dia, a recomendação
foi ler a Lição Bíblica antes do
café.
07.01.1978
A noite anterior foi de muita
fofoca nos quartos! Fomos dormir tarde, muito tarde! E tivemos de acordar
cedo... muito cedo! Cada qual tratou de ler a Lição como melhor lhe convinha.
Li, arrumei as coisas para o passeio e desci para o café. As Kombis já
aguardavam o pessoal. Saída marcada para as 8:30hs. A caminhada era puxada.
Segui conversando com um amigo chileno e uma amiga argentina. Assunto central:
universidade. O tempo estava ficando cada vez mais quente. Encontrei um casaco
caido no chão. Éramos os últimos. Num determinado trecho paramos; todos
pararam: não sabiam ao certo o caminho... foi preciso perguntar! Enquanto
esperamos, cantamos ao som de um violão, da flauta e da corneta! Heber fez
algumas palhaçadas e, pulando a cerca, pos-se como espantalho sobre o pasto!
O caminho começou a ficar mais
estreito e mais cheio de pedras. Havia pedras no caminho. No caminho havia
pedras. Bonito era o visual, a paisagem, bucólica: pinheiros, casas com fumaça
saindo das chaminés, uma lagoa com gansos. Um filhote de gato deixou-se pegar
no colo por mim. E assim íamos: ora conversando com Edésio, ora conversando com
o Pedro e o Oscar. Catamos amoras silvestres, paramos diversas vezes para
descansar, rimos muito.
E então chegamos ao asfalto, à
estrada que leva à entrada do Parque do Caracol. Estávamos perto, mas ainda
tinhamos alguns quilômetros a percorrer. Numa casa de artesanato, na beira do
asfalto, paramos para tomar água. E seguimos a caminhada, mais suave, sem
tantas pedras. Falei alguma coisa que
aborreceu Pedro.
12.01.1978
E então alcançamos a entrada do
Parque. Logo na entrada se via uma pia e formamos fila para tomar mais água!
Ainda ali, na fila, começamos a fazer torcida para o Campeonato Mundial de
Futebol. Os argentinos diziam que a Argentina seria campeã. Os brasileiros
diziam que o Brasil seria campeão; e assim seguiam as torcidas.
A Cascata do Caracol estava com
pouquissima água, devido a falta de chuvas nos últimos dias. A queda, de mais
de 100m, permite à água chegar em névoa ao seu destino... molhando as pedras do
seu leito como se chuva fosse
.
Atravessamos completamente o
Parque, até alcançar um bosque com churrasqueiras. A comissão organizadora nos
aguardava com linguiças no espeto e saladas sobre a mesa. Dois cachos de banana
estavam dependurados nas árvores! O calor era intenso. Procurava-se sombra para
sentar. Estávamos todos cansados da caminhada! Finalmente o almoço foi servido.
E seguiu-se um tempo livre até às 15:00hs. Tânia, Oscar e eu caminhamos até a
cabeceira do Caracol. Logo outros grupos nos seguiram. De repente via-se apenas
o imenso vale, a imensa cratera em que a cachoeira despenca. Um imenso paredão
de pedra. E podia-se ouvir a água que despencava ruidosa.
Continuamos a
caminhar e chegamos no mirante apinhado de gente: um senhor de origem alemã
iria fazer a travessia da Cascata em um
cabo de aço. O tempo estava fechando,
mas continuava muito abafado. Guardas e militares cercavam as ribanceiras com
cordas de isolamento. Havia alto-falantes por todos os cantos. E enquanto o equilibrista, em traje branco,
atravessava o vale pelo cabo, sua esposa falava ao microfone. Mas ele não fez a
travessia completa, pois o cabo balançava demais. Alcançou a metade do cabo e
retornou. Uma agonia tomou conta de todos os presentes. O homem ainda fez alguns malabarismos no cabo, inclusive num trapézio
ali instalado. E então retornou à plataforma, sob os aplausos dos espectadores.
Alguns pingos estavam caindo, o que também prejudicou a apresentação.
Seguiram-se jogos de vôlei,
futebol e corrida ali mesmo, no Parque. Jacira também correu, mas perdeu em
duas das corridas. Bom, as regras dos jogos também eram ‘furadas’: valia tudo e
não valia nada. Não havia regras rígidas.
Finalmente vieram as Kombis e aos poucos todos iam embarcando. Maria
Emília, Mário, Oscar e eu resolvemos voltar à pé. As Kombis passaram por nós... os ônibus
passaram por nós...carros passaram por nós... sem nos dar carona. Aliás, Maria
Emília e Mário tinham conseguido carona; apenas Oscar e eu continuávamos
caminhando. Pedíamos, mas não havia lugar para nós. Então resolvemos parar e
meditar metafisicamente. Oscar falou: “o Amor sempre satisfez e sempre
satisfará toda necessidade humana”. E logo depois conseguimos nossa carona com
uma família de São Paulo! Nos levaram até o portão da Casa da Juventude! De novo o banho e a preparação para o jantar!
29.01.1978
Antes do jantar eu preparara meu
primeiro testemunho. Eu não queria
fazê-lo porque havia perdido meu anel e ainda não o havia encontrado. Teimei em
não dar o testemunho, mas algo mais forte gritava dentro de mim e obrigou-me a
escrever sobre a volta do Caracol. O caso da carona; era perfeito para um
testemunho! Fiquei nervosa ao dar o
testemunho, mas deu tudo certo! Alguns amigos vieram me cumprimentar!
Na quinta-feira , após o café,
seguiu-se novamente a Lição Bíblica. Depois voltamos ao Gramado Tênis Clube
para diversas competições. Tânia, Edésio e eu nos escapamos das competições e
fomos passear pelo centro da cidade e tirar fotos. Voltamos, tomamos banho de
piscina, fizemos brincadeiras e tiramos mais fotos. Na volta ao Lago Negro
fomos a pé, mas uma das Kombis parou e nos deu carona!
À tarde visitamos o Parque Knorr.
O calor era demais. Encontramos uma torneira e passamos a jogar água em todo
mundo! Depois sentamos na grama e ficamos conversando. Aos poucos mais jovens
se juntavam a nós. Saimos do Parque e demos umas voltas na cidade. De volta à
Casa da Juventude, participamos de uma Mesa Redonda e foi montado um Painel.
Deste evento participei muito pouco, pois André e eu ficamos fazendo
brincadeiras e nos distraindo muito! Estávamos sentados no último banco, o que
facilitava a distração.E então soou o gongo para o jantar. Após o jantar Tânia,
Pedro, Oscar e eu passeamos em volta do Lago.
05.02.1978
Demos uma volta pelo Lago e
subimos até o St. Hubertus. De lá começamos a jogar pedras no Lago, mas
acabamos acertando algumas em outro grupo que por ali passava. Eram pequenas,
não machucaram. Mas paramos. Descemos dali e nos escondemos atrás de umas
árvores e assustamos este mesmo grupo. À
noite tivemos novamente uma sessão de cinema: “Sem medo de viver”. Oscar deitou
no chão e dormiu. Pedro não se continha em risos. Não estava gostando da
película.
Nova alvorada ao som da corneta,
às 7:00hs! Após o café tivemos a última leitura da Lição Bíblica e em seguida a
última conferência. Esta estendeu-se até o almoço. Após o almoço, Oscar e eu andamos de
bicicleta em volta da Casa da Juventude.
À tarde tivemos mais atividades esportivas.
Não lembro bem, mas creio que na
sexta choveu. Neste dia foram feitas as entregas de prêmios, após o jantar.
Recebi um livro pela escolha do desenho do logotipo, de minha autoria. O
segundo Raio de Sol usou o logotipo! Deixei que todos assinassem o livro, em
suas últimas folhas.
Raiou a penúltima alvorada no
acampamento: sem sol. Com muita neblina e chuva. Um pouco mais defrio naquele
sábado. Tomamos café, lemos a Lição e participamos da mesa redonda. Dia 31 de
1977 estava aí, batendo à porta. Pedindo saída... 1978 pedia entrada! Pergunto:
quem se lembra de como foi o Reveillon? Não escrevi mais... não lembro mais. E
como foi nosso retorno à Porto Alegre? Pois também não lembro mais! Mas sei,
que foi muito gratificante participar deste Raio de Sol e dos outros, que
vieram depois. Ficaram amizades e lembranças muito queridas!



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