domingo, 29 de janeiro de 2017

RAIO DE SOL 1977/1978

BAÚ DE MEMÓRIAS  II

04.01.1978
Há dois dias voltei do Acampamento em Gramado; uma das melhores experiências em minha vida. Vou tentar relembrar e descrever alguns momentos por lá vividos. O que vale, lá no íntimo, é saber que o “Raio de Sol” não acabou, mas sim, apenas começou a raiar em cada um de nós...
Embarquei em Blumenau às 22:00hs do dia 24 de dezembro, véspera de Natal. A saída de casa para a rodoviária foi muito confusa, pois meus pais iam pra praia e eu via o tempo passando rápido demais. Mas conseguimos chegar a tempo de pegar o ônibus. E, com alguns minutos de atraso, pos-se a rodar pelas ruas de Blumenau em direção à Itajaí. Antes da entrada em Itajaí tivemos embarcados a Tânia e o Edésio. Tânia já era minha conhecida, mas esta era a primeira vez que conversava com o Edésio.

A viagem até Porto Alegre trascorreu normal. Foi muito boa! Chegamos à rodoviária e tratamos de pegar um táxi até a Igreja. Ali fomos recebidos por uma senhora que nos confundiu com um grupo de quatro chilenos... mas éramos apenas tres! Ninguém entendeu ninguém, até que a senhora se deu conta que éramos brasileiros! Estávamos cansados, com sono e fome. E cada vez mais chegavam mais jovens. Fomos os primeiros a chegar na Igreja! E, logo em seguida, nós e mais tres argentinos fomos conduzidos à casa de uma família. Tomamos um café delicioso, voltamos à Igreja para assistir ao culto e depois retornamos à casa para almoçar.

O ônibus de Porto Alegre à Gramado tinha horário marcado para sair às 12:30hs. Já estávamos no local, aguardando, mas os ônibus ainda não tinham chegado. O calor era intenso e eu ainda sentia muito sono. Para matar o tempo e suportar o calor deitamo-nos na calçada, sobre as mochilas e sacolas e dormimos um bocadinho. Alguém estava cantando e alguém estava tocando corneta e flauta. Nós tres estávamos a fim de dormir! Passou-se mais algum tempo.  Não havia o que fazer. Foi então que passei a mão nos meus dados e ensinei a alguns a jogar “General”. Alguns já sabiam. E foi durante o jogo que conheci Pedro e Graciela. Jogamos ali mesmo, na calçada.

Às 16:30hs chegaram os tão esperados ônibus! E então foi uma confusão geral até estarem todos acomodados e prontos para partir. A viagem até Gramado durou duas horas. O cansaço me fez adormecer durante o trajeto, até à entrada da cidade, quando então me acordaram. Quem me acordou? Não sei! Mas me tomou uma emoção muito estranha: as ruas encantadoras, floridas de hortênsias por todo caminho... era maravilhoso! Um espetáculo magnífico, grandioso!
Chegando à Casa da Juventude ficamos perplexos diante de tão bela natureza, tão belo panorama: o Lago Negro ladeado por hortênsias, pinheiros... era tudo muito lindo! E adiantamos uma semana cheia de surpresas para todos!  Assim que descarregamos tudo dos ônibus, fizemos fila na escadaria da Casa da Juventude. Recebemos crachás que continham o nome, cidade e país de origem e o número de registro. Então nos indicaram os quartos, para os quais nos dirigimos. Tudo estava infalivelmente organizado e distribuido.  Meu quarto era de numero UM e minhas companheiras: Mônica, Graciela, Addriana, Maria Emilia e Íris (esta, a única brasileira, além de mim). O meu beliche era um superior, pra variar... Após um bom banho descemos para a janta e o culto. O jantar era anunciado por uma campainha.

Os primeiros contatos correram em plena harmonia e descontração. Todos procuravam se conhecer e trocar informações. Durante o culto, o que impressionou, foi o silêncio: ouvia-se apenas os leitores e o tic-tac do relógio.  Os leitores desta noite foram a Jacira e o Richard. Após o culto recolhi-me e acordei no dia seguinte com a tremenda algazarra das meninas no quarto. Só se ouvia parlarem em um castelhano desenfreado!

05.01.1978
Eu ainda não estava bem entrosada com as meninas, mas arriscava uma conversa. Quem queria podia participar da ginástica matinal. Nunca participei! Me limitei a me levantar, arrumar o cobertor, a cama, me trocar, escovar os dentes e descer para o café quando tocava a campainha. E o primeiro dia trouxe um amanhecer gostoso, diferente... Nós tres, Tânia, Edésio e eu sentamos na mesma mesa em que jantamos na noite anterior.  Foram então, passados os avisos a respeito das atividades do dia: uma hora para leitura da Lição Bíblica, logo após o café.  Em seguida, a conferência ‘A’. Estavam todos muito animados e, conforme a programação, nós tres resolvemos ler a Lição juntos após o café. Edésio pegou seus livros e seguimos em direção ao Lago Negro. Escolhemos um dos bancos e aí iniciamos a leitura, absolutamente concentrados. Como ainda restavam alguns minutos, demos uma caminhada em volta do Lago. Tiramos algumas fotos. Tudo era mágico, encantador!

Da Conferência ‘A’ ficou a idéia de se vigiar constantemente o pensamento e estudar a Ciência Cristã para compreender o que a cada um é atribuido. Seguiu-se uma discussão em grupo: coletamos idéias, aperfeiçoamos pensamentos e aprendemos muito.

Seguiu-se o almoço e em seguida aproveitei o tempo para escrever cartinhas e enviar cartões pelo serviço de correio que havia na Casa da Juventude.  Durante a tarde estava previstos alguns esportes. Tânia, Edésio e eu tínhamos de reservar passagens de volta à Santa Catarina. E enquanto Tânia desembaraçava esta questão para nós, Edésio e eu demos uma escapada e fomos correndo até o Hotel das Hortênsias. Ali tiramos muitas fotos e ficamos admirando a paisagem. Não participei dos esportes desta tarde porque escolhi participar do artesanato.  Mas  houve um desinteresse geral pelo artesanato, o que me fez participar do Ping-pong. Mais tarde tivemos uma palestra, seguida da janta, seguida de brincadeiras e música. Mário e eu nos divertimos vendo os estrangeiros dançando samba. Brincou-se da dança da vassoura, da batata e outras mais. E aí veio a primeira noite de fofocas no dormitório! Íris e eu nos esforçávamos ao máximo para entender as castelhanas, mas foi difícil!

06.01.1978
Um surpresa nos acordou no dia seguinte: o toque de corneta! Um dos jovens tocava corneta muito bem e foi ele quem acordou o acampamento naquela manhã! Aliás, passou a nos acordar assim, todas as manhãs, daí em diante! E ele fazia assim: tocava no dormitório dos rapazes primeiro; depois subia uns degraus da escadaria do dormitório das meninas e então tocava para nos acordar também! Novamente o café, leitura da Lição, uma segunda conferência e o almoço: a Lição lemos de novo os tres catarinas. Para a conferência, dada em castelhano,  foram mudados os grupos. E após o almoço tivemos esportes.

Edésio e eu conseguimos algumas raquetes de tênis; pegamos a Kombi e ficamos perambulando pelo centro da cidade. Compramos filme, batemos fotos e procuramos o Gramado Tênis Clube.  Quando lá chegamos, Edésio resolveu cair na piscina e desistiu do tênis! Viviana, do Chile, gostava de tênis e topou então jogar comigo. Jogamos por um bom tempo. Depois resolvemos cair na água! A volta à Casa da Juventude se fez a pé, em companhia de Beatriz e André. Impressionava, durante a caminhada, a quantidade de hortênsias pelas calçadas. Beatriz encontrou um filhotinho de lagarto, na calçada. Retornamos à caminhada, trocando idéias sobre nossos cursos universitários.

Seguiu-se o banho e toda uma preparação para a janta. Uma sessão de cinema nos aguardava em seguida: eram duas filmagens do acampamento “Arco –Íris” realizado na Suíça. Além dos artesanatos, esportes e conferências, os jovens fizeram passeios e escaldas nas montanhas suiças. Ficamos com água na boca! Para o dia seguinte também tinhamos uma caminhada prevista: até a Cascata do Caracol. E neste dia, a recomendação foi ler a Lição Bíblica antes do café.

07.01.1978
A noite anterior foi de muita fofoca nos quartos! Fomos dormir tarde, muito tarde! E tivemos de acordar cedo... muito cedo! Cada qual tratou de ler a Lição como melhor lhe convinha. Li, arrumei as coisas para o passeio e desci para o café. As Kombis já aguardavam o pessoal. Saída marcada para as 8:30hs. A caminhada era puxada. Segui conversando com um amigo chileno e uma amiga argentina. Assunto central: universidade. O tempo estava ficando cada vez mais quente. Encontrei um casaco caido no chão. Éramos os últimos. Num determinado trecho paramos; todos pararam: não sabiam ao certo o caminho... foi preciso perguntar! Enquanto esperamos, cantamos ao som de um violão, da flauta e da corneta! Heber fez algumas palhaçadas e, pulando a cerca, pos-se como espantalho sobre o pasto!

O caminho começou a ficar mais estreito e mais cheio de pedras. Havia pedras no caminho. No caminho havia pedras. Bonito era o visual, a paisagem, bucólica: pinheiros, casas com fumaça saindo das chaminés, uma lagoa com gansos. Um filhote de gato deixou-se pegar no colo por mim. E assim íamos: ora conversando com Edésio, ora conversando com o Pedro e o Oscar. Catamos amoras silvestres, paramos diversas vezes para descansar, rimos muito.
E então chegamos ao asfalto, à estrada que leva à entrada do Parque do Caracol. Estávamos perto, mas ainda tinhamos alguns quilômetros a percorrer. Numa casa de artesanato, na beira do asfalto, paramos para tomar água. E seguimos a caminhada, mais suave, sem tantas pedras. Falei  alguma coisa que aborreceu Pedro.

12.01.1978
E então alcançamos a entrada do Parque. Logo na entrada se via uma pia e formamos fila para tomar mais água! Ainda ali, na fila, começamos a fazer torcida para o Campeonato Mundial de Futebol. Os argentinos diziam que a Argentina seria campeã. Os brasileiros diziam que o Brasil seria campeão; e assim seguiam as torcidas.

A Cascata do Caracol estava com pouquissima água, devido a falta de chuvas nos últimos dias. A queda, de mais de 100m, permite à água chegar em névoa ao seu destino... molhando as pedras do seu leito como se chuva fosse
.
Atravessamos completamente o Parque, até alcançar um bosque com churrasqueiras. A comissão organizadora nos aguardava com linguiças no espeto e saladas sobre a mesa. Dois cachos de banana estavam dependurados nas árvores! O calor era intenso. Procurava-se sombra para sentar. Estávamos todos cansados da caminhada! Finalmente o almoço foi servido. E seguiu-se um tempo livre até às 15:00hs. Tânia, Oscar e eu caminhamos até a cabeceira do Caracol. Logo outros grupos nos seguiram. De repente via-se apenas o imenso vale, a imensa cratera em que a cachoeira despenca. Um imenso paredão de pedra. E podia-se ouvir a água que despencava ruidosa. 

Continuamos a caminhar e chegamos no mirante apinhado de gente: um senhor de origem alemã iria fazer a travessia da Cascata  em um cabo de aço.  O tempo estava fechando, mas continuava muito abafado. Guardas e militares cercavam as ribanceiras com cordas de isolamento. Havia alto-falantes por todos os cantos.  E enquanto o equilibrista, em traje branco, atravessava o vale pelo cabo, sua esposa falava ao microfone. Mas ele não fez a travessia completa, pois o cabo balançava demais. Alcançou a metade do cabo e retornou. Uma agonia tomou conta de todos os presentes.  O homem ainda fez alguns  malabarismos no cabo, inclusive num trapézio ali instalado. E então retornou à plataforma, sob os aplausos dos espectadores. Alguns pingos estavam caindo, o que também prejudicou a apresentação.

Seguiram-se jogos de vôlei, futebol e corrida ali mesmo, no Parque. Jacira também correu, mas perdeu em duas das corridas. Bom, as regras dos jogos também eram ‘furadas’: valia tudo e não valia nada. Não havia regras rígidas.  Finalmente vieram as Kombis e aos poucos todos iam embarcando. Maria Emília, Mário, Oscar e eu resolvemos voltar à pé.  As Kombis passaram por nós... os ônibus passaram por nós...carros passaram por nós... sem nos dar carona. Aliás, Maria Emília e Mário tinham conseguido carona; apenas Oscar e eu continuávamos caminhando. Pedíamos, mas não havia lugar para nós. Então resolvemos parar e meditar metafisicamente. Oscar falou: “o Amor sempre satisfez e sempre satisfará toda necessidade humana”. E logo depois conseguimos nossa carona com uma família de São Paulo! Nos levaram até o portão da Casa da Juventude!  De novo o banho e a preparação para o jantar!

29.01.1978
Antes do jantar eu preparara meu primeiro testemunho. Eu não  queria fazê-lo porque havia perdido meu anel e ainda não o havia encontrado. Teimei em não dar o testemunho, mas algo mais forte gritava dentro de mim e obrigou-me a escrever sobre a volta do Caracol. O caso da carona; era perfeito para um testemunho!  Fiquei nervosa ao dar o testemunho, mas deu tudo certo! Alguns amigos vieram me cumprimentar!

Na quinta-feira , após o café, seguiu-se novamente a Lição Bíblica. Depois voltamos ao Gramado Tênis Clube para diversas competições. Tânia, Edésio e eu nos escapamos das competições e fomos passear pelo centro da cidade e tirar fotos. Voltamos, tomamos banho de piscina, fizemos brincadeiras e tiramos mais fotos. Na volta ao Lago Negro fomos a pé, mas uma das Kombis parou e nos deu carona!

À tarde visitamos o Parque Knorr. O calor era demais. Encontramos uma torneira e passamos a jogar água em todo mundo! Depois sentamos na grama e ficamos conversando. Aos poucos mais jovens se juntavam a nós. Saimos do Parque e demos umas voltas na cidade. De volta à Casa da Juventude, participamos de uma Mesa Redonda e foi montado um Painel. Deste evento participei muito pouco, pois André e eu ficamos fazendo brincadeiras e nos distraindo muito! Estávamos sentados no último banco, o que facilitava a distração.E então soou o gongo para o jantar. Após o jantar Tânia, Pedro, Oscar e eu passeamos em volta do Lago.

05.02.1978
Demos uma volta pelo Lago e subimos até o St. Hubertus. De lá começamos a jogar pedras no Lago, mas acabamos acertando algumas em outro grupo que por ali passava. Eram pequenas, não machucaram. Mas paramos. Descemos dali e nos escondemos atrás de umas árvores e assustamos este mesmo grupo.  À noite tivemos novamente uma sessão de cinema: “Sem medo de viver”. Oscar deitou no chão e dormiu. Pedro não se continha em risos. Não estava gostando da película.
Nova alvorada ao som da corneta, às 7:00hs! Após o café tivemos a última leitura da Lição Bíblica e em seguida a última conferência. Esta estendeu-se até o almoço.  Após o almoço, Oscar e eu andamos de bicicleta em volta da Casa da Juventude.  À tarde tivemos mais atividades esportivas.

Não lembro bem, mas creio que na sexta choveu. Neste dia foram feitas as entregas de prêmios, após o jantar. Recebi um livro pela escolha do desenho do logotipo, de minha autoria. O segundo Raio de Sol usou o logotipo! Deixei que todos assinassem o livro, em suas últimas folhas.

Raiou a penúltima alvorada no acampamento: sem sol. Com muita neblina e chuva. Um pouco mais defrio naquele sábado. Tomamos café, lemos a Lição e participamos da mesa redonda. Dia 31 de 1977 estava aí, batendo à porta. Pedindo saída... 1978 pedia entrada! Pergunto: quem se lembra de como foi o Reveillon? Não escrevi mais... não lembro mais. E como foi nosso retorno à Porto Alegre? Pois também não lembro mais! Mas sei, que foi muito gratificante participar deste Raio de Sol e dos outros, que vieram depois. Ficaram amizades e lembranças muito queridas!


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